Entre Asghar Farhadi (“Histoires Parallèles”) e Pawel Pawlikowski (“Fatherland”) na Competição, e Diego Luna (“Ceniza en la boca”) nas Sessões Especiais, o dia trouxe escritores em crise, países em ruínas, mães ausentes, filhos abandonados e uma certeza pouco reconfortante: ninguém sai ileso daquilo a que chama casa ou apartamento.
O realizador iraniano Asghar Farhadi em “Histoires Parallèles” volta a fazer aquilo que sabe melhor: pegar numa situação quase doméstica, aparentemente controlada, e transformá-la numa ratoeira moral onde todos têm razão até deixarem de ter, mas esta vez num filme enigmático, ambíguo, labiríntico, de narrativas paralelas, que pisca ainda o olho a dois clássicos: “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock ou “Blow Out-Explosão”, de Brian De Palma, além de ser um ensaio sobre criação da ficção ou até que ponto agora é a ficção que influência a realidade, mais do que a realidade influencia a ficção. Depois de “Uma Separação”, “Um Herói”, “O Passado” e “Todos Sabem”, o cineasta iraniano instalou-se em Paris, mas não abandona a sua velha obsessão: a forma como uma mentira pequena, uma curiosidade indecente ou uma decisão prática podem abrir uma cratera no chão da vida.
O voyeurismo moral de Farhadi
Em “Histoires Parallèles” Sylvie, interpretada por Isabelle Huppert, é uma escritora à procura de inspiração. Como a musa decidiu não aparecer, ela resolve substituí-la por um telescópio. Observa os vizinhos do prédio em frente, imagina-lhes vidas, desejos, traições, ruídos, culpas. O telescópio é instrumento literário, prótese de solidão e arma do crime. Ela olha, rouba gestos, fabrica cenas, transforma a intimidade alheia em matéria-prima. Depois contrata Adam (Adam Bessa), um jovem que entra em sua casa para a ajudar no seu caótico quotidiano e acaba por funcionar como detonador. O que parecia ficção começa a contaminar a realidade. Ou talvez fosse a realidade que, desde o início, já estivesse a pedir para ser falsificada.
“Histoires Parallèles” tem uma premissa sedutora, um elenco de luxo e uma ideia formal poderosíssima. ©Carole Bethuel
Farhadi cruza na verdade livremente a sombra de “Breve História de Amor”, de Krzysztof Kieslowski, com a sua própria engenharia de culpa. O episódio do voyeur que espreita uma mulher do prédio em frente passa aqui para uma Paris saturada de livros, objectos, vozes e vidas emprestadas. O resultado é um filme sobre quem vê, quem é visto e quem inventa os outros para não ter de se ver a si próprio. A ideia mais venenosa está no som: os vizinhos observados são criadores de efeitos sonoros, gente que fabrica rugidos, passos, chuva, colchões que rangem, asas que batem, presença onde ela não existe. Ou seja, fazem profissionalmente aquilo que todos fazemos emocionalmente: acrescentam ruído à verdade para ela parecer mais convincente. O problema é que, desta vez, Farhadi parece ter ficado tão fascinado com a sua própria engrenagem que se esqueceu de lhe tirar algum peso. “Histoires Parallèles” tem uma premissa sedutora, um elenco de luxo e uma ideia formal poderosíssima, mas também uma tendência para se enrolar nas suas próprias camadas, como se cada nova duplicação precisasse de outra explicação, outro espelho, outra gaveta falsa. O filme quer falar da relação entre verdade e imaginação, realidade e ficção, observação e posse, mas por vezes parece uma daquelas casas cheias de objectos e livros — como a das de Sylvie — onde já não se sabe se estamos perante memória, desarrumação ou simplesmente falta de coragem para deitar coisas fora ou literalmente destralhar.
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Ainda assim, há muito cinema: Isabelle Huppert faz de Sylvie uma mulher seca, áspera, quase mineral, daquelas que parecem ter substituído a ternura por má-educação, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney e Adam Bessa compõem um jogo de espelhos onde ninguém é apenas personagem. Há duplos, ecos, vozes, versões alternativas, fantasmas de ficções anteriores. Farhadi pode ser obsessivo até ao centímetro de uma mesa ou à inclinação de uma mecha de cabelo, mas essa minúcia não é puro capricho: é a sua forma de dizer que a catástrofe moral quase nunca começa com agitação e gritaria. Começa num gesto, num silêncio, numa frase mal colocada. Às vezes, começa apenas com alguém a olhar tempo de mais pela janela.
Pawlikowski e a pátria como fantasma mal enterrado
Se Farhadi filma a casa como armadilha moral, Pawel Pawlikowski filma um país como ferida, não o seu mas a Alemanha. “Fatherland” é, à primeira vista, um filme pequeno: 82 minutos, preto e branco, formato clássico, uma viagem de carro pela Alemanha de 1949, em que acompanhamos o escritor Thomas Mann (Hanns Zischler) e a sua filha Erika (Sandra Hüller). Mas pequeno, aqui, é apenas a duração. O resto é denso como uma biblioteca húmida depois de um bombardeamento.
Depois de “Ida” e “Guerra Fria”, Pawlikowski regressa à Europa partida ao meio, às ruínas do pós-guerra e à pergunta que nunca envelhece: o que se faz com uma pátria depois de ela se tornar moralmente inabitável? Thomas Mann, Nobel da Literatura, regressa à Alemanha, depois da guerra, acompanhado pela filha Erika. No caminho, há prémios, discursos, suspeitas americanas, tentações soviéticas, culpa colectiva, vaidade intelectual e mortos recentes que ninguém sabe muito bem como chorar.

O filme podia cair no museu de cera literário, essa doença terrível do cinema biográfico quando decide ajoelhar-se perante os grandes homens. Pawlikowski evita a genuflexão concentrando-se na fricção entre pai e filha. Thomas Mann, interpretado por Hanns Zischler, surge como monumento vivo, daqueles que entram numa sala e obrigam as cadeiras a corrigir a postura. Mas é Sandra Hüller, como Erika, quem abre fissuras nesse mármore. Ela é assistente, filha, intérprete, consciência crítica, sobrevivente, actriz, escritora e, sobretudo, alguém que já percebeu que a solenidade também pode ser uma forma elegante de cobardia.
A viagem entre Frankfurt e Weimar atravessa duas Alemanhas e vários infernos. No Ocidente, Mann é celebrado e atacado por ter partido. No Leste, é convocado como símbolo cultural útil. Todos querem o escritor, todos querem a fotografia, todos querem a frase certa. A cultura, como sempre, aparece bem vestida, mas com lama da destruição nos sapatos. Goethe, Fausto, Bach, Mozart, Messiaen, discursos, ruínas e hotéis compõem um teatro onde a grande questão é simples: quem tem o direito de representar um país depois de esse país se ter perdido de si mesmo?
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Pawlikowski filma tudo com uma elegância quase insolente. O preto e branco não é decoração de prestígio nem perfume de festival: é uma maneira de retirar o excesso, de deixar a culpa à vista, sem a maquilhagem sentimental da reconstituição histórica. O formato apertado em 4:6, os rostos, os espaços devastados, as salas cerimoniais e os hotéis demasiado polidos parecem dizer que a História nunca chega realmente ao fim; muda apenas de cenário, de vocabulário e de financiadores.
“Fatherland” é um filme elegante, seco, quase cruel na sua contenção. Pawlikowski não precisa de agitar ou movimentar muito a câmera, para mostrar devastação. Basta-lhe uma igreja em ruínas, um rosto que não desaba, uma filha que olha para o pai e percebe que amar também pode ser exigir uma resposta. É um filme sobre literatura, mas sobretudo sobre responsabilidade e consciência. E sobre essa comédia triste dos homens importantes que passam a vida a escrever sobre a alma humana e, quando a alma lhes bate à porta, mandam a secretária atender.
Diego Luna e a cinza amarga da migração
Fora da Competição, nas Sessões Especiais, estreou também “Ceniza en la boca”, do realizador e actor Diego Luna, que muda completamente o centro do mapa. Saímos dos apartamentos parisienses e das ruínas alemãs para entrar no território igualmente devastado da migração contemporânea: México, Madrid, Barcelona, quartos apertados, empregos precários, promessas europeias que chegam com bolor, recibos de renda e uma vaga sensação de logro.

Adaptado do romance de Brenda Navarro e produzido pelo seu amigo Gael Garcia Bernal, o filme acompanha a jovem Lucila (Anna Díaz), que viaja com o irmão Diego (Sergio Bautista) para reencontrar a mãe (Adriana Paz), ausente há oito anos e a trabalhar ilegalmente em Espanha. A premissa tem a dureza das histórias verdadeiras: uma mãe que parte para salvar os filhos acaba por os abandonar; uma filha que devia ser filha torna-se mãe improvisada; um irmão cresce no meio do buraco deixado pelos adultos. Quando finalmente chegam à Europa, a tal vida melhor revela-se aquilo que muitas vezes é: uma versão mais limpa da precariedade, com metro, patrões educados e humilhações em boa iluminação. Diego Luna, que já tinha apresentado “Abel” em Cannes, volta ao tema das ausências familiares, agora cruzado com a deslocação, a classe, o racismo discreto, o trabalho invisível e o falso brilho do chamado Primeiro Mundo. Lucila cuida de crianças e idosos, tenta aprender catalão, mente sobre a sua condição, procura amar, sobreviver e não odiar demasiado a mãe. A Europa, no filme, não é paraíso nem inferno: é uma sala de espera onde se trabalha muito e se pertence pouco.
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O problema é que Luna, por vezes, quer dizer tudo. Violência no México, machismo, exploração laboral, maternidade falhada, imigração, ressentimento, solidão, desejo de integração, culpa, abandono. O filme carrega muitas malas e nem sempre consegue atravessar a fronteira com todas. Há momentos em que a denúncia se sublinha a si própria, como se tivesse medo de não ser percebida pelo espectador europeu sentado confortavelmente na sua compaixão climatizada. E talvez tenha razão em desconfiar: o espectador europeu gosta muito destas dores, desde que venham suficientemente organizadas para confirmar a sua sensibilidade e não demasiado violentas para lhe estragar o jantar. Ainda assim, “Ceniza en la boca” tem uma força emocional que resiste aos seus excessos. Anna Díaz dá a Lucila uma fragilidade dura, nada decorativa. Adriana Paz traz à mãe uma mistura incómoda de culpa e sobrevivência. E Luna sabe filmar corpos cansados, casas provisórias, afectos que chegam sempre atrasados. O título é perfeito: cinza na boca é o gosto de quem engoliu demasiadas despedidas, demasiadas promessas, demasiadas versões oficiais da felicidade.
JVM

