O angelical Joe Keery transfigura-se em "Spree" |©DreamCrew

IndieLisboa ’21 | Spree, em análise

O IndieLisboa ’21 traz de volta uma das suas mais radicais secções, “Boca do Inferno”, a qual se faz povoar por filmes com temáticas fortes e frequentemente situadas ao largo dos géneros do horror, ficção científica e fantasia.

Este ano a secção recebe “Spree”, um conto que alerta para os perigos do fascinío das redes sociais e que nos traz Joe Keery (de “Stranger Things”) como um capaz e arrojado protagonista. 

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“Spree”, uma comédia de terror que por vezes tem dificuldade em encontrar o equilíbrio perfeito entre os dois géneros, conta com Joe Keery ( o “King Steve”, super babysitter de “Stranger Things”) numa interpretação radicalmente aposta à sua simpática personagem na criação Netflix.

Aqui Keery larga inteiramente a pele do jovem bonzinho e abraça um negrume que à primeira vez parecia impossível extrair de si. O jovem ator, que pode de momento ser visto nas salas de cinema no sucesso de verão “Free Guy – Herói Improvável”, dá vida a Kurt Kunkle, um condutor de TVDE, neste caso de um serviço imaginado intitulado “Spree”.

Embora as motivações sejam parcas e insuficientes, é-nos dito, logo no início do filme, que Kurt é viciado na sua presença digital desde tenra idade devido a uma fraca relação familiar com os seus pais. Contudo, e por muito ativo que seja enquanto criador e produtor de conteúdo online, a vida de Kurt é mundana e os seus seguidores são perto de nulos.

Eis que Kurt decide que está na altura de entregar aos internautas uma #lesson (lição), e como solução para encontrar a sua essência enquanto streamer o condutor decide assassinar os seus passageiros e com esse intuito tornar-se viral. Nada de particularmente imaginativo até aqui, há muitos filmes que abordam a necessidade dos serial killers no sentido de deixar um “testemunho”.

Spree Indielisboa 2021 boca do inferno
©IndieLisboa

Já antes do fenómeno das redes sociais “Indetectável”, de 2008, acompanhava um assassino em série que cometia homicídios online e que agia, inclusive, em função do número de visualizações dos seus abomináveis crimes. A piada do estapafúrdio “Spree” jaz noutro local, no facto de que vários homicídios depois, sem entrar em demasiados detalhes de enredo, Kurt continua a não conseguir ter mais do que 3 a 5 espectadores em direto.

Entra o carácter do absurdo, que nos diz que na sociedade atual a redenção parece já longe. Por um lado os que consideram que as imagens são manipuladas, por outro os que dizem que o conteúdo não apresenta nada de novo, com Kurt no meio, em desespero crescente à medida que os seus homicídios são percepcionados como “aborrecidos”.

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Por muito estapafúrdio que este filme possa ser, inverosímil e desmedido, sem tento e sem grande intuito artístico (acompanhamos filmagens em formato de live de rede social e ecrãs divididos durante grande parte da longa-metragem e torna-se deveras cansativo), por muito “trash” que possa parecer, a verdade é que a sua ideia continua a ter algum mérito subentendido. O nível de dessensibilização a que chegámos, enquanto sociedade, é aqui parodiado de forma áspera numa história exacerbada que tem como maior trunfo não se levar demasiado a sério.

Contudo, e para mal dos pecados de “Spree”, a problematização do excesso de informação e entorpecimento das audiências é uma temática frequente e que já foi explorada de forma muito mais eficaz e singular. Basta pensar, entre tantos outros exemplos, no recente trabalho trágico-cómico de Bo Burnham, o especial de “comédia” “Inside”. A sua música “Welcome to the Internet” arruma em três minutos grande parte das temáticas coladas a cuspo neste “Spree”…

Não obstante, para fãs do charmoso e ligeiramente apatetado Joe Keery ou para quem queira apenas descomprimir e soltar uma ou duas gargalhadas involuntárias, “Spree” pode ser ainda assim uma aposta segura e mesmo agradável.

 

TRAILER | SPREE NA SECÇÃO BOCA DO INFERNO DO INDIELISBOA ’21

 

O Indielisboa ’21 acontece na capital até dia 6 de setembro. Continua a acompanhar a nossa cobertura para mais impressões acerca das obras exibidas. Quanto ao exuberante “Spree”, volta a exibir no pequeno auditório da Culturgest, dia 31 de agosto, pelas 21h30. 

Spree, em análise
Joe Keery filme de terror indie 2021

Movie title: Spree

Movie description: Joe Kerry (o simpático rapaz da popular série Stranger Things) é Kurt Kunkle, um condutor obcecado com a ideia de que se não te estás a documentar não existes. Numa tentativa de se tornar um sucesso viral, ele filma-se a matar passageiros. Contado na primeira pessoa, é um híbrido entre a comédia e o horror, com uma mensagem de cautela em relação às redes sociais.

Date published: 22 de August de 2021

Director(s): Eugene Kotlyarenko

Actor(s): Joe Keery, David Arquette , Sasheer Zamata,

Genre: Ficção, 2021, 93 minutos

  • Maggie Silva - 60
60

CONCLUSÃO:

“Spree”, em todo o seu gritante amadorismo, é uma manifestação agressiva contra a natureza atulhada da partilha de informação no mundo atual. Em último caso, e no maior dos extremos, imagem alguma é capaz de chocar o espectador.

O MELHOR: Sem dúvida a interpretação alucinada de Joe Keery, que consegue aqui provar ter aptidão para ser bem mais do que apenas um “bom tipo”.

O PIOR: A cinematografia absurdamente comum e cansativa, constante evocação de lives de redes sociais.

A falta de profundidade no que diz respeito às motivações do protagonista.

O carácter arrastado da primeira metade. Tal como atesta a baixa quantidade de seguidores do Kurt de Joe Keery, de facto ver um tipo a conduzir pessoas de um lado para o outro não é uma maneira divertida de passar o tempo.

Mais parece um vine longo do que uma longa-metragem povoada por caras conhecidas como um dos protagonistas de “Strangers Things”, uma antiga “hit girl” do início do milénio (na forma de uma breve mas bem-vinda aparição de Mischa Barton) ou de uma lenda da saga “Scream” – David Arquette. O desperdício de talento é, portanto, mais um prego no caixão desta narrativa caótica.

 

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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