"Uma Vida Escondida" (2019) de Terrence Malick |© Iris Productions/ NOS Audiovisuais

LEFFEST ’19 | Uma Vida Escondida, em análise

Fora de Competição, na programação do Lisbon & Sintra Film Festival, podemos encontrar “Uma Vida Escondida”, a mais recente aposta de Terrence Malick. A longa-metragem de quase três horas recupera a história verídica de Franz Jägerstätter, um austríaco que se recusou a combater em nome de Hitler no decurso da Segunda Guerra Mundial. 

Escrito e realizado por Terrence Malick, “Uma Vida Escondida” é mais um filme altamente introspectivo deste autor. Recupera aqui um palco que é já familiar à sua filmografia, o dos grandes conflitos armados do século XX. O seu icónico “A Barreira Invisível” (1998), no original “Thin Red Line” é um dos melhores filmes sobre esta guerra, um título essencial dentro do género.

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Em “Uma Vida Escondida”, Malick deixa-nos com uma proposta bastante distinta. Desta vez não nos encontramos no campo de batalha, e abordamos a guerra de uma perspectiva familiar, e do ponto de vista colectivo de uma comunidade, neste caso uma comunidade ocupada pela Alemanha Nazi. O que acontece quando alguém diz não, e se recusa a levantar uma arma e matar? Ao contrário da produção recente de Mel Gibson “O Herói de Hacksaw Ridge” (2016), também sobre um objetor de consciência a “lutar” neste conflito, muito pouco heroísmo ou recompensa nos parece ser apresentada nesta quietude inquietante aqui criada pelo seu realizador. Em comum, apenas têm o papel importante da moralidade e conduta cristã.

Uma Vida Escondida LEFFEST '19
August Diehl e Valerie Pachner em “Uma Vida Escondida” |© Iris Productions/ NOS Audiovisuais

Este drama biográfico recupera a vida do agricultor Franz Jägerstätter, que vive uma vida idílica numa zona montanhosa, junto à aldeia de St. Radegund. Vive uma existência simples, baseada na subsistência a partir do solo e muito trabalho físico árduo, mas é feliz com a sua mulher e três filhas pequenas. Até ao dia em que, em 1940, é convocado para treino militar no exército nazi. Inicialmente, começa a sua recruta mas depressa se apercebe que não é capaz de trair as suas crenças e valores e lutar por quem considera estar do lado errado nesta guerra.

Quando Franz se recusa a contribuir para os esforços de guerra, e procura evitar uma segunda recruta, somos confrontados com uma das questões mais interessantes e perversas do filme. Estamos na Áustria ocupada, mas ainda assim o apoio a Hitler é generalizado na sua pequena aldeia, e este núcleo familiar em tempos aceite e respeitado é por todos desprezado e colocado de parte. Eventualmente, Franz é confrontado com uma nova recruta, e aí enfrenta novos desafios e provações, e um confronto direto com a igreja, a sua comunidade e até a sua família.

“The growing good of the world is partly dependent on unhistoric acts; and that things are not so ill with you and me as they might have been, is half owing to the number who lived faithfully a hidden life, and rest in unvisited tombs.”

O filme baseia-se na citação de George Eliot acima transcrita, que pode ser traduzida em português para algo como: “A bondade crescente no mundo depende em grande parte de actos não históricos, da crença de que as coisas não estão a correr-nos tão mal, a ti e a mim, quanto podiam, em grande parte devido àqueles que viveram fielmente uma vida escondida, e descansam em túmulos não visitados”.

Trocado por miúdos, este é o oposto máximo do populismo estridente de Mel Gibson acima referido. Malick celebra aqui uma figura do povo, que agiu de acordo com a sua forte bússola moral. Ao longo do filme, inúmeros personagens dizem a Franz o quanto o seu sofrimento e sacrifício é inglório, e como é vão estar na prisão em nome das suas crenças, por recusar juramento a Hitler. Contudo, a narrativa parece querer transportar esta bonita mensagem de tolerância para o presente, garantindo-nos que a sua história nunca foi esquecida, ao fim de contas, está a ser partilhada como mensagem pacifista e anti-guerra tantos anos depois do seu tempo. Em 2007, o túmulo de Franz foi visitado pelo Papa então regente, que o beatificou, reconhecendo, de certa forma, o valor dos seus actos.

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Este não é um filme sobre religião, mas é ainda assim um filme no qual a religião é essencial como locomotiva. A acção coloca-nos no seio de uma família de crentes, que acredita que esta figura divina nunca os deixará ficar mal. Todos os seus sacrifícios têm assim um propósito, e as suas posições morais tornam-se mais firmes e inabaláveis devido à força da crença. Não é por acaso que a maioria das figuras conhecidas como “objetores de consciência” vêm até nós munidos do peso da religião.

A questão notória aqui é que o regime nazi e a sua forma de idolatria da figura do líder não deixa espaço para respeitar outros deuses. Aqui se forma um novo ídolo que se quer absoluto, e que não suporta quaisquer afrontas ao seu poder sem limites. Assim, Deus é uma figura secundária perto da figura de Hitler. Franz e a sua mulher Fani não parecem conformar-se perante esta secundarização das suas crenças, e é no seu silencioso combate que se encontra a força da narrativa. Porque prestações contidas, e gestos silenciosos, mas significativos, preenchem “Uma Vida Escondida” e assinalam a sua natureza honrosa.

Uma Vida Escondida
©Iris Productions

“Uma Vida Escondida” é um filme tipicamente realizado por Malick. Os planos altamente estilizados, sem funções ligadas à evolução narrativa são mais que frequentes. A narração dos pensamentos do protagonista em voice over é constante, e a natureza contemplativa fica connosco do primeiro ao último plano. A natureza está, como sempre, no topo das prioridades, e é a mais sagrada das entidades, e os planos das montanhas, rios, gado e elementos naturais são avassaladores. Uma paisagem bela, pouco marcada pela mão do Homem, pitoresca e nostálgica por defeito. Uma natureza que não se apercebe das tristezas dos seres humanos, com Franz, o nosso protagonista, narra a certo ponto da história.

Esta obra marca um regresso à forma, à forma narrativa claro, quero dizer. Aos 75 anos, Terrence Malick é ainda um realizador bem prolífico, mas como tantos outros da sua faixa etária, parece perder a capacidade de se manter focado, e ora acerta, ora dá um tiro no pé. Ultimamente, Malick tem vindo a afastar-se cada vez mais das narrativas estruturadas, criando histórias com arcos imperfeitos. Aqui, temos um regresso a uma narrativa mais tradicional, estruturada, que facilmente poderíamos até dividir em actos, calcule-se!

Não nos enganemos, na marca dos 173 minutos “Uma Vida Escondida” não deixa de divagar, e muito. Ainda assim, sabe a história que quer contar, a sua intenção e, neste caso mais claro do que nunca, a sua mensagem, tal como no seu primeiro filme sobre a Segunda Guerra Mundial, uma pacifista carta de amor à natureza e às relações humanas. Este seu nono filme tem princípio, meio e fim e tem intencionalidade.

O filme, uma co-produção entre os Estados Unidos da América e a Alemanha, segue algumas escolhas mais duvidosas no campo linguístico. Os personagens falam muito alemão entre si, considerando que são todos austríacos ou alemães. Até aí tudo bem. Contudo, os diálogos principais são todos tidos em inglês, bem como a narração constante. Este inglês é vítima de um sotaque germânico bizarro, uma escolha duvidosa mas frequente em filmes americanos situados em países que não apresentam o inglês como primeira língua.

Verdade seja dita, poucos são os realizadores  (americanos) que têm a coragem de colocar muito diálogo em língua original. Tarantino, por exemplo, arranjou uma forma inteligente de o fazer. Contratou atores falantes de alemão como Diane Kruger ou Cristopher Waltz, atores com carisma que compensam a barreira linguística, e dotou “Sacanas Sem Lei” (2009) de inúmeros diálogos em alemão. O próprio protagonista desta história , August Diehl, participou em “Inglorious Basters” e em diversas destas conversas. Com os americanos também em cena, os diálogos em inglês passavam a fazer sentido. “Uma Vida Escondida” não teve esta sorte, mas é um pequeno crime tão comum para os falantes de língua inglesa que há de o colocar de parte com um pequeno “aviso”.

Hidden Life
Bruno Ganz em “Uma Vida Escondida “(2019) | |© Iris Productions/ NOS Audiovisuais

“Uma Vida Escondida”, ou “A Hidden Life”, no original, é uma belíssima história marcante, simples, mas arrebatadora. É mais um conto de Malick sobre moralidade, centrado num caso concreto, e que merece ser recordado pela História. A coragem de desafiar todo um regime em função de uma crença na justiça é uma avassaladora escolha, aqui bem homenageada.

Pelo caminho, temos algumas pequenas recompensas. Por exemplo, um pequeno papel interpretado pelo falecido Bruno Ganz, mítico ator originário da Suíça, que nos abandonou em fevereiro deste ano aos 77 anos.  Como seria de esperar, e devido ao estatuto do ator, o seu papel foi curto mas para lá de significativo, trocando com o protagonista algumas das palavras com mais impacto nesta narrativa. Foi esta a sua penúltima participação a estrear nos cinemas.

Os personagens deste filme nunca parecem ser vitimas de autocomiseração, são figuras fortes, que lutam contra um mundo que parece abalar a sua fé e crenças. Talvez mais sujeitos como estes merecessem ser os heróis do quotidiano que não vemos no cinema.

Esta obra repleta de sensibilidade estreia nos cinemas nacionais a 16 de janeiro. Por aí, fãs da obra de Terrence Malick?

Uma Vida Escondida, em análise
Uma Vida Escondida LEFFEST

Movie title: A Hidden Life

Date published: 2019-11-18

Director(s): Terrence Malick

Actor(s): August Diehl, Valerie Pachner, Michael Nyqvist

Genre: Romance, Drama, Biografia, Histórico

  • Maggie Silva - 85
  • José Vieira Mendes - 60
  • Cláudio Alves - 70
72

CONCLUSÃO

"Uma Vida Escondida" narra uma história agridoce com um nível de bravura e contenção notáveis. Parece uma contradição de termos, como emoções tão exacerbadas se parecem manifestar de forma tão contida. Ainda assim, e especialmente devido a esta quietude, esta nova obra de Malick é dedicada aos prazeres mais simples: amar, ser amado, viver em harmonia com o Homem e o meio, distinguir certo de errado. Um filme nostálgico, com uma estrutura e propósitos nítidos.

O MELHOR: A beleza inegável das imagens, dos cenários, da natureza que é indiferente ao feitos e amarguras da Humanidade. A natureza simples mas encantadora desta homenagem de Malick, uma homenagem a um herói até então "sem rosto".

O PIOR: Como sempre, a natureza contemplativa das obras de Malick pede um certo esforço de contenção no que à edição diz respeito. Verdade seja dita, 20 minutos a menos dos 173 do filme em nada prejudicariam o ritmo que é proposto.

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Maggie Silva

Licenciatura e Mestrado em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL, porque à segunda é de vez. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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