Daniel Kaluuya em "Nope" | © 2022 Universal Studios. All Rights Reserved.

Nope, em análise

A mais recente incursão cinematográfica de Jordan Peele no universo da longa-metragem, e a sua terceira, “Nope”, chegou às salas de cinema nacionais a 18 de agosto de 2022. Depois de dois filmes carregados de símbolos que ameaçam perdurar na História do Cinema, Peele apresenta-nos o seu grande blockbuster de verão. Esta verdadeira experiência de cinema, com “C” maiúsculo, merece ser vista no grande ecrã (e preferencialmente em IMAX). Consegue a narrativa corresponder às expetativas? 

Jordan Peele é um pioneiro da alegada reconfiguração do cinema de terror e do thriller social (termo que ajudou a solidificar) no século XXI. Ao lado de muitos outros autores venerados como Robert Eggers (“O Farol”) ou Ari Aster (“Hereditário”), é-lhe atribuída, por fãs e por críticos, a co-responsabilidade de resgatar o terror de fórmulas gastas e clichés esgotados em si mesmos. Isto não obstante a noção simultaneamente presente, e relevante, de que o terror das últimas décadas apenas se limitou a dar nova roupagem e expressão ao que lhe antecedeu.

[Este artigo contém spoilers muito ligeiros acerca do filme “Nope”]

‘TERROR ELEVADO’ E O THRILLER SOCIAL DE PEELE

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Em 2022, quando o filme “Scream 5” ironiza com o conceito de “terror elevado” (que por norma se afasta de slashers ou histórias de fantasmas mais formuláicas), é precisamente em obras como as de Peele em que pensa. Aceitando a noção mais ou menos contestada e problematizada de que, na década passada, o terror se viu elevado, firmando-se a ideia de um subgénero de terror “artístico”, então este terror dá ênfase ao tema, ao símbolo. Experimenta e desafia, avançando com um conceito forte antes de uma estrutura em três atos de resolução clara  como prioridade.

Para a reconfiguração do que poderíamos ou não esperar de um filme de terror, muito confiámos em Peele. Em 2017, com “Foge” (“Get Out”), Jordan Peele conseguiu, numa primeira longa-metragem de relativo baixo orçamento (para os parâmetros hollywoodescos), unificar uma tradição cinematográfica que até então parecia não ter uma identidade fixa. O seu “social thriller”. No inquietante filme “Foge”, um jovem afro-americano (Chris, maravilhosamente interpretado por Daniel Kaluuya), visita a idílica casa de campo dos pais da sua namorada branca (a Rose de Allison Williams). A receção invulgar do grupo com que se depara chega progressivamente a um ponto de ruptura, à medida que nos deparamos com um inesperado ritual.

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Com “Foge”, Peele criou a vigorosa metáfora do “sunken place” (uma desesperante e incontestável visualização da herança da escravatura). A sua inegável genialidade prova-se agora, quando, passados já cinco anos, este continua a ser um dos símbolos mais fortes da cultura cinematográfica da última década. Em 2017, quando “Foge” se viu lançado, Jordan Peele falou amplamente daquilo que o thriller social significava para a sua obra. Ele não criava o termo, mas parecia consegui-lo fazer chegar a novos níveis de claridade.

Get Out
Daniel Kaluuya em “Foge” (2017) |©NOS Audiovisuais

Nesta obra, o terror, tal como havia ocorrido, por exemplo, na obra “Candyman” original (1992, e porque não também na sequela de 2021, entre tantas outras), expressava-se não através do desenvolvimento narrativo mas através da expressão da sociedade como a figura mais aterradora de todas elas (sociedade como a vilã do enredo terrorífico). Jordan Peele defendeu, na tour promocional desta sua primeira obra, que a criação do termo “thriller social”, como uma representação de uma sociedade que inadvertidamente pende para a opressão e barbárie, lhe pode ser atribuída (quiçá uma afirmação com algum excesso de confiança patente). Contudo, defendeu também que o trabalho de tantos outros que vieram antes dele lhe possibilitaram criar esta narrativa muito própria sobre alienação racial e crueldade humana.

O THRILLER SOCIAL CONTINUA INTACTO EM NOPE? 

“Foge” venceu muito, o público e a crítica, através da simplicidade e simultânea genialidade da sua metáfora central. Embora menos consensual, mais desregrada e mais obscura, a segunda longa-metragem  de Jordan Peele, “Nós” (“Us”),  encontrava-se ainda assim repleta de simbologias fortes e que nos indiciavam esta desesperante podridão societária. Os símbolos físicos, introduzidos em momentos chave e utilizados para funcionarem como alavancas emocionais, são uma das fórmulas autorais inegáveis do realizador e argumentista. Nesta segunda incursão arrepiante nos seus mundos, Lupita Nyong’o suportou o filme às costas num papel que, apesar de indicado aos SAG, pecaminosamente não chegou a voos ainda mais altos.

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Lupita Nyong’o em “Nós”(2019) |©Universal Pictures/ NOS Audiovisuais

“Us” (2019), a história de uma família que chega a uma casa na praia, onde é confrontada com as suas versões perversas e duplas, foi pouco consensual na sua receção e dividiu muito mais “o mundo” do que “Foge”. Todavia, a sua narrativa perturbadora, visceralidade e capaz de levantar muitas problemáticas fez correr muita tinta e quebrou recordes de bilheteira (uma vez mais, como é habitual com este autor).

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“Nope”, a terceira longa-metragem escrita e realizada por Jordan Peele, um autor já mais que consagrado, sem dúvida apresenta uma abordagem distinta e atrevemo-nos a dizer, mais leve e de fácil leitura. “Nope” é uma história sobre monstruosidade e sobre a tragédia de um “mau milagre”. E se à primeira vista a sua narrativa mais leve e veranil poderia distrair “Nope” dos universos do thriller social de Peele, a verdade é que, para lá da leve “coboiada” de aliens, existem ainda muitas camadas de significado por onde vasculhar.

GRANDES VISTAS NUMA HISTÓRIA DE HOMENAGEM À 7ª ARTE

Jordan Peele on set imax
Jordan Peele nos bastidores de “Nope” | © 2022 Universal Studios. All Rights Reserved.

“Nope” é uma homenagem aos grandes blockbusters de verão, com Peele a tentar reinventar mais um género, deixando o seu cunho pessoal bem demarcado no processo. Spielberg é uma influência óbvia que surge, nomeadamente o seu “Tubarão”, ao pensarmos sobre alguns grandes formatos que influenciaram o trabalho desta longa-metragem. Existe um processo de menção aos grandes clássicos de “monstros” numa obra que, tirando um ou outro elemento mais chocante, poderia (quase) encaixar numa experiência de cinema familiar.

E que experiência em grande é esta, uma que se caracteriza em primeiro plano pela monumentalidade e grandiosidade. Não fosse este um filme gravado recorrendo a câmaras IMAX, no qual vemos câmaras IMAX em cena e que, se possível, aconselhamos a ver (e ouvir) na maior sala possível.

Quanto à sonoridade, é a marca mais distintiva de uma obra que, do ponto de vista formal, se eleva pela sua mistura de som. Se pensarmos em obras recentes de terror, thriller ou alienígenas que se destacaram pelo trabalho sonoro, como por exemplo “O Primeiro Encontro” ou “Um Lugar Silencioso”, “Nope” não lhes fica de forma alguma atrás. Muito pelo contrário, aqui cria-se uma sonoridade de ficção científica plena, tenebrosa e que preenche cada recanto da sala escura.

O novo filme de Jordan Peele é assinado por um cinéfilo e pensado não só para cinéfilos, mas também para a grande generalidade do público. Tal o ditam os mais que simpáticos valores de bilheteira que se têm vindo a somar nos Estados Unidos da América, onde a obra já se vê distribuída há um mês. Como autor com temáticas reconhecíveis e uma paixão por simbologia irónica mas visceral, Peele cria uma experiência capaz de agradar gregos e a troianos, chave para o seu sucesso.

Eadweard Muybridge

Recuperando a sua recorrente consciência social aguda, o filme estabelece uma relação interessantíssima entre os primórdios do cinema e a história pessoal dos seus protagonistas. Parte também de uma questão provocadora e justa: quase toda a gente (ou todo o cinéfilo/ estudioso do cinema) sabe que Eadweard Muybridge (1830-1904) foi fulcral para os estudos pioneiros da fotografia e do cinema, com as suas imagens de um jóquei negro a cavalgar, que viria a ser montadas em sequência de filme. Mas quem foi o jóquei que protagonizou essas imagens seminais? Será que a História do Cinema não lhe deve também a ele a devida homenagem?

Como ponto de partida, o autor de “Nope” continua também a subverter as expectativas em relação ao comportamento das personagens que coloca nos seus cenários. Nunca o nosso protagonista se reduz ao que é esperado da sua parte. Estóico, proclama para os seus botões, uma e outra vez: Nope (e ironicamente sabemos que escolhe de forma acertada). É este quase mutismo selectivo que faz a força do seu peculiar caráter.

CONSEGUIR A IMAGEM IMPOSSÍVEL – A QUE CUSTO?

Nope Jordan Peele
© 2022 Universal Studios. All Rights Reserved.

Quanto ao enredo central, esta é a história de dois irmãos que gerem um rancho de cavalos no deserto da Califórnia, OJ Haywood (Daniel Kaluuya, de volta a brilhar, introvertidamente, no trabalho junto de Jordan Peele) e Emerald Haywood (Keke Palmer, muito expansiva e estrondosa nas lides de protagonista). O seu negócio em queda, adjacente à indústria de Hollywood, começa a ser perturbado pela descoberta de algo tenebroso que paira sobre os céus. Simultaneamente, o dono de um parque temático na vizinhança (o competente Ricky ‘Jupe’ Park de Steven Yeun) começa a tentar retirar dividendos desse mesmo fenómeno inexplicável. Mas a que custo?

No que diz respeito ao enredo de “Nope”, o melhor é mesmo não abrir particularmente o jogo, pois a longa-metragem pode ser analisada mediante diversas perspetivas. Não obstante os intrigantes símbolos e paralelismos que atravessam a obra (a chave, o sapato), a verdade é que, no seu âmago, este pode sempre ser lido como um divertido filme de temática alienígena. Aliás, divertido, irónico e em igual medida horrífico, trespassado pela alusão a traumas e com duas ou três cenas verdadeiramente capazes de se verem gravadas nas nossas retinas. E que mais é seguro afirmar? Que os limites em relação ao que esperamos ver num ‘filme de aliens’ são deveras ultrapassados (ainda que apenas por breves instantes).

Jordan Peele Nope Poster
O mais audaz e enigmático poster do filme| © 2022 Universal Studios. All Rights Reserved.

 

Ademais, toda a longa-metragem traça uma nítida comparação entre o quão elusiva é a figura que se observa no céu e a própria imagem cinematográfica. Dentro do mundo do filme, muitos são os entusiastas do showbiz ou dos próprios ‘brinquedos cinematográficos’. Um exemplo caricatural que roça mesmo o ridículo (com intenção e muito sarcasmo) é o Antlers Holst de Michael Wincott, um fotógrafo de cinema (leia-se, cinematógrafo) conhecido pela sua capacidade de obter a “imagem impossível”.

Claro está, para o esquivo e excêntrico Antlers, não merecemos sequer essa tão cobiçada imagem fílmica. A imagem impossível, um conceito tão antigo quanto a própria noção de fixação das imagens em celulóide. Ao invés de procurarem descobrir e evitar uma entidade, os nossos protagonistas procuram domá-la, captá-la, comercializá-la. A crítica que Jordan Peele tece à indústria de Hollywood é ácida e transparente, mas não é por isso menos trágico-cómica.

Quase todas as personagens centrais, perante uma situação de extrema bizarria, procuram acima de tudo obter dividendos – seja através da fama, dinheiro, notoriedade ou uma combinação de ambas. Apenas o  OJ de Kaluuya parece manter-se fiel aos seus inabaláveis princípios.

A REAL MONSTRUOSIDADE QUE ASSOLA O ENREDO 

Jupe Gordy's House
Steven Yeun como ‘Jupe’, em “Nope”| © 2022 Universal Studios. All Rights Reserved.

[Leve spoiler]

Sendo este um filme de Jordan Peele, a jocosidade transversal subjacente é interpelada por uma parte mais sombria que atormenta o enredo. Esta é a história de Gordy e a narrativa de uma estrela infantil – Ricky ‘Jupe’ Park (Steven Yeun), que participara, nos anos 1990, numa comédia de situação de nome “Gordy’s Home”. Muitas décadas mais tarde, Jupe beneficia economicamente de um evento traumático que envolveu um dos chimpanzés que representou Gordy na série. Por ter sobrevivido ileso depois de um incidente no set, a natureza mórbida do mundo do espetáculo continua a alimentar-lhe a pouca fama que resta. E, na qualidade de sobrevivente, também esta personagem se toma, erroneamente, por dominadora.

Jordan Peele, que antes de se tornar mestre do terror sucedeu na comédia com os sketches Key & Peele (no popular canal americano Comedy Central), sabe como espelhar uma indústria sem que tal “denuncia” precise de ser sequer o objeto central da sua arte. Não obstante, ouvir e ver a personagem de Steven Yeun a discorrer sobre uma clara dissociação entre o trauma e a experiência narrada pelo seu Jupe, alegadamente vistas através da lente de um sketch do SNL, diz-nos tudo acerca da banalização do sofrimento que se perpetua na nossa cultura do espetáculo. E, por isso, por mais que “Nope” seja mais linear e e transparente que outros esforços de Peele, as suas temáticas continuam a, através de pequenos apontamentos, brilhar de forma notável.

[Leve spoiler]

A COESÃO NARRATIVA QUE PERDURA?

Porém, existe em “Nope” uma desconexão que não conseguimos deixar de ignorar. O enredo secundário, aquele que se passa no parque temático “à lá western”, acaba por não se unir na perfeição com a narrativa central. Sem dúvida, a história de Jupe e tudo o que esta simboliza clamava por um muito maior desenvolvimento e ligação às personagens principais. Esta parte da narrativa vê-se quase encaixada como um mero capítulo e apesar de Peele criar para a mesma símbolos poderosos já mencionados, como o sapato, acaba por não os levar à fruição.

Assim, Peele deixa-nos a divagar, hora após hora, acerca de um sapato que diz tanto dizendo tão pouco. Mas, digerida a visualização da obra, compreendemos que este objeto não se relaciona de forma tão direta quanto poderíamos querer com a narrativa central do filme. Por isso ficamos reféns de uma certa fragmentação de ideias. Um paralelismo bem pensado, claro está, mas que não nos enche as medidas. Pelo menos, não inteiramente.

O verdadeiro terror para Peele, na marca da longa número três, continua a ser não o invasor, a fera, o “outro”,  mas o comportamento e sociedade humana (não é isso que o próprio Stephen King, grande mestre do terror, defende há muito nas suas obras literárias?). Neste caso temos em destaque a obsessão doentia com a sociedade do espetáculo. Porém, por muito que esta história pense os vícios societários, um dos seus enredos não cumpre o potencial. Faz-se sentir encurtado, sumariado, subdesenvolvido. E se a nossa experiência de cinema permanece intacta, não deixamos de lamentar a incongruência.

Terminada a sessão saímos sem dúvidas: “Nope” é um filme de sensações e acima de tudo, de temas, antes de ser uma obra de sequencialidade narrativa. Não precisamos sequer de procurar muito para que a reflexão se veja garantida.

TRAILER | NOPE CHEGOU AOS CINEMAS PORTUGUESES A 18 DE AGOSTO VIA CINEMUNDO

 

Nope, em análise
Nope Poster análise 2022

Movie title: Nope

Movie description: Peele reimagina o filme de verão com um novo pesadelo pop: o épico expansivo de terror “Nope”. O filme volta a reunir Peele e o vencedor de um Óscar® Daniel Kaluuya (“Foge”, “Judas e o Messias Negro”), juntando Keke Palmer (“Ousadas e Golpistas”) e Steven Yeun (“Minari”, “Okja”), ator já nomeado para um Óscar®,no papel de residentes de uma localidade solitária no interior da Califórnia que testemunham uma espantosa e arrepiante descoberta.

Date published: 23 de August de 2022

Country: EUA

Duration: 130'

Director(s): Jordan Peele

Actor(s): Daniel Kaluuya, Keke Palmer, Brandon Perea, Michael Wincott, Steven Yeun

Genre: Mistério, Terror, Ficção Científica

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  • Maggie Silva - 72
72

CONCLUSÃO

A expetativa era grande, para esta terceira incursão na longa através dos olhos de Peele. “Nope” é uma entrada valorosa para fãs de ficção científica, thrillers e terror e não deixa de se vincular a muitas temáticas fraturantes de forma enigmática.

Pros

  • A edificação de uma meta-reflexão sobre a sociedade do espetáculo que, ao primeiro relance, não deixa de se afirmar como uma história de aliens perfeitamente adequada para um grande e espampanante blockbuster de verão;
  • Daniel Kaluuya de regresso ao trabalho com Peeele, uma alegria por si só;
  • Keke Palmer como um turbilhão de emoções que tudo merece;

Cons

  • A leveza do enredo se comparado aos dos dois filmes anteriores deste cineasta;
  • A sequencialidade ténue da longa-metragem por vezes joga em seu desfavor;
  • O ‘Jupe’ de Steve Yeun (e toda a sua história) parece quase uma nota de rodapé e, francamente, merecia um encadeamento distinto na ação;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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