Richard E. Grant em "Todos Falam Sobre o Jamie" © 20th Century Studios / Prime Video

Todos Falam Sobre o Jamie | Richard E. Grant em entrevista exclusiva

Richard E. Grant, nomeado ao Óscar da Academia, esteve à conversa com a MHD para falar-nos do seu novo filme “Todos Falam Sobre o Jamie”.  

É um dos nomes mais conhecidos da arte de interpretação dos últimos anos e com toda a certeza o ator favorito de muitos dos nossos leitores. O ator Richard E. Grant falou em exclusivo com a MHD sobre a estreia do seu novo filme, “Todos Falam Sobre o Jamie”, que chega esta sexta-feira, dia 17 de setembro, à plataforma de streaming Prime Video.  A estreia acontece depois da 20th Century Studios ter vendido os direitos, devido à pandemia COVID-19 que levou ao adiamento deste projeto.

“Todos Falam Sobre o Jamie” é um musical, com muita comédia e diversão, sobre aceitação da diferença e que nos faz questionar sobre os julgamentos que, infelizmente, ainda são feitos pela sociedade contemporânea sobre quem quer levar uma vida pura, sendo simplesmente como é. Realizado por Jonathan Butterell, esta é inclusive uma obra (mais ou menos) biográfica, inspirada num episódio da vida real de Jamie Campbell, onde a celebridade tentou lutar contra a homofobia e a discriminação sentida por alguns dos seus colegas de turma e professores.

Todos Falam Sobre o Jamie | Trailer

E. Grant dá vida a uma das personagens mais interessantes desta história, alguém que se esqueceu do seu talento e da sua arte, e que aos poucos vai conquistar um lugar no coração do protagonista e, por sua vez, dos espectadores portugueses.

Curiosamente, falar de aceitação é uma das questões que abrange toda a carreira deste talentoso ator, que só ficou popular pelas suas participações na série “Downton Abbey” ou nos filmes de super-heróis e vilões “Logan” (2017) e “Star Wars: A Ascensão de Skywalker” (2019), mas que tem uma carreira com mais de 30 anos, que alternou sempre entre a televisão e o cinema. Nascido no agora conhecido como Essuatíni (anteriormente Suazilândia), Richard E. Grant estudou na Cidade do Cabo antes de se mudar para o Reino Unido, onde conseguiu estabelecer alguma relevância no mundo do entretenimento. A sua estreia no cinema aconteceu em 1987 com o filme “Withnail e Eu”, de Bruce Robinson. Tardariam 32 anos, até ser reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ao ser nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário por “Memórias de uma Falsificadora Literária” (título original: “Can you Ever Forgive Me?”), onde contracena com uma das principais estrelas da comédia norte-americana, Melissa McCarthy.

Richard E. Grant de Loki a uma drag-queen

Can You Ever Forgive Me
Richard E. Grant e Melissa McCarthy em “Memórias de uma Falsificadora Literária” © 2018 Twentieth Century Fox Film Corporation

Desde então, Richard E. Grant tem sido um dos atores mais requisitados pela indústria americana e além de “Todos Falam Sobre o Jamie”, protagonizou recentemente um dos episódios mais marcantes da série “Loki”. Sim, é verdade. Richard E. Grant tem sabido escolher os seus papéis e a sua presença numa série da Disney/Marvel Studios só elevou este seu estatuto de gentleman e ao de uma estrela. E porque o destino por vezes é mesmo o melhor amigo, foi surpreendente ter falado com este tão simpático e humilde ator, assumido fã de Donald Sutherland e Barbra Streisand, poucos dias depois à sua participação em “Loki”.

Chamá-lo-ias um autêntico mestre do disfarce, pela sua capacidade de saltar de um projeto a outro, mantendo sempre a autenticidade das personagens com a pitada certa do seu próprio ego. Inesperadamente, a essência Richard E. Grant sente-se nos filmes e nas séries e também cheira-se, afinal o ator assina também o perfume “Jack Perfume”. Temos um autêntico Antonio Banderas britânico, cujos olhos azuis e sorriso rasgado de uma bochecha à outra não deixarão ninguém indiferente.

Richard E. Grant não tem mais nada para provar e mesmo assim continua com vontade de se superar a si mesmo. A seguir Richard E. Grant partilha o que aprendeu com o seu desempenho em “Todos Falam Sobre o Jamie”. Na MHD poderás ler também outras entrevistas sobre este filme, nomeadamente ao realizador Jonathan Butterell (a publicar nos próximos dias) e ao ator protagonista Max Harwood.

Todos Falam Sobre o Jamie
Max Harwood e Richard E. Grant em “Todos Falam Sobre o Jamie” © 20th Century Studios / Prime Video

Atenção! A entrevista ao Richard E. Grant contém alguns SPOILERS sobre o enredo de “Todos Falam Sobre o Jamie”. 

MHD: Olá Richard. Muito obrigado por esta oportunidade. A equipa MHD é bastante fã do seu trabalho, por tanto é um privilégio falar consigo. Para começar, gostaríamos de saber o que nos poderia contar sobre a sua personagem em “Todos Falam Sobre o Jamie”? 

Richard E. Grant: Olá Virgílio. Em “Todos Falam Sobre o Jamie” eu dou vida a uma ex-drag queen com pouca sorte na sua vida. É um homem carrancudo e que vive na sua loja de CDs nos subúrbios de Sheffield. Para o Hugo Battersby tudo desmoronou-se desde que o amor da sua vida faleceu nos anos 80. Nessa altura ele teve uma carreira de sucesso em Londres e portanto teremos um homem cuja vida ficou praticamente trancada num baú de memórias.

Quando na sua loja recebe a visita inesperada do jovem Jamie e ele diz que quer ser uma drag queen, quer ir ao baile de finalistas da escola de vestido, isso reacende uma chama na vida de Hugo. A sua paixão pela arte de drag renasce e traz à tona o seu instinto maternal. Será essa “drag mother” para ajudar este jovem a realizar os seus sonhos. Trata-se de um grande momento, de alguém que está a voltar a viver, que se redescobre a partir de rapaz pertencente a uma geração mais jovem. Não queria revelar muito da história mas já o fiz (risos). “Todos Falam Sobre o Jamie” acaba por ser uma história de ressurreição e amadurecimento ao mesmo tempo.

MHD: E como foi exatamente a preparação para o papel? Com certeza o Richard quis homenagear esta arte, que encanta várias pessoas no mundo inteiro. 

Richard E. Grant: A minha melhor escola foi o RuPaul (risos). Eu assisti a todas as temporadas da “RuPaul’s Drag Race” em apenas 3 semanas. Eu pensei ‘como poderei atuar como uma drag-queen?’. Nunca o fiz na vida real. Portanto, passou muito por esse lado de observação do conteúdo que existe  disponível em plataformas de streaming, televisão, etc..

Depois disso, trabalhei diretamente com um artista drag, com a minha idade, cujo nome real é David Hoyle. Ele foi absolutamente brilhante e tem um misto de tristeza, resiliência e melancolia, o que achei muito bom para me informar sobre o Hugo e sobre a sua vida. O realizador Jonathan Butterell fez-me ainda trabalhar com uma professora de canto e também com um dançarino e coreógrafo, Shaun Niles, que é dançarino de apoio e coreógrafo da Kylie Minogue. Foi quem me ensinou a andar para interpretar a minha personagem.

Não posso esquecer a maquilhagem e a peruca incríveis da Nadia Stacey, ou sequer os figurinos bastante extraordinárias e até fáceis de usar do Guy Speranza. Portanto eu realmente tive uma equipa incrível de pessoas que me ajudou a tornar na Loco Chanelle.

Todos Falam Sobre o Jamie
As drag queens que acompanham a personagem de Richard E. Grant © 20th Century Studios / Prime Video

MHD: Comparativamente a outros trabalhos sentia-se mais receoso?

Richard E. Grant: Sim, eu estava muito, muito assustado. Acredite em mim, mais assustado do que qualquer papel que já fiz. Aqui tive que interpretar alguém que os espectadores acreditam ter sido uma drag queen de sucesso há 30 anos atrás. Eu assustava-me quando via o quão críticos são os jurados do programa do RuPaul. Tenho a certeza que me irão matar e atirar aos lobos caso não tenha feito um bom trabalho. Fiquei muito assustado e ainda continuo assim.

MHD: Certamente os seus fãs irão admirar esta sua prestação. A equipa da MHD já teve oportunidade de ver “Todos Falam Sobre o Jamie” e o seu desempenho é encantador. 

Richard E. Grant: Obrigado pelo elogio.

MHD: Qual consideraria o seu momento favorito na rodagem deste filme?

Richard E. Grant

Richard E. Grant: O meu momento preferido foi sem dúvida a sequência em que conhecemos o Hugo pela primeira vez. Aí o filme faz uma viagem no tempo, numa sequência musical, em que somos transportados para os bastidores e para o passado em Sheffield da Loco Chanelle. Depois, o Hugo prepara a maquilhagem do Jamie, interpretado pelo Max Harwood, e dá-lhe coragem para ir em frente e enfrentar as pessoas que o criticam. Enquanto ouvíamos a música, foi emocionante, porque estava junto a outras drag queens, que são drag queens na realidade. Eu vivi aquele momento como personagem, como a minha personagem. Eu adorei isso, foi mesmo hilariante.

MHD: Como foi contracenar com o Max? Afinal trata-se de um estreante e o Richard tem uma carreira longa e aclamada.  

Richard E. Grant: Exatamente. O Max nunca tinha feito um filme antes. Mas ele é tão talentoso que pode cantar e dançar sem qualquer problema. Ele é tão natural e credível, forte e vulnerável. Então, aprendi muito com ele, pelo seu talento e até pelas suas fraquezas, enquanto ele se estava a  preparar. Ele conhecia incrivelmente a letra das canções. Ele sabia todos os passos de dança. Fiquei sem palavras, porque ele foi uma inspiração para um ator tão jovem, a trabalhar num filme pela primeira vez. Eu fiquei encantado!

Richard E. Grant

MHD: O Richard consegue entregar um certo toque de humor às suas personagens. Gostaria de saber qual o seu género favorito? É mesmo a comédia?

Richard E. Grant: Sim! Claro que a comédia é o meu género favorito. O que será melhor do que fazer os espectadores rirem? Eu acho isso ótimo e sendo o dom com o qual nasci é um presente conseguir partilhá-lo com outras pessoas.

MHD: De qualquer forma o Richard consegue encantar qualquer pessoa, em qualquer género. Além disso, ainda é capaz de ganhar a aclamação da crítica. Conseguiu ser nomeado ao Óscar com “Memórias de uma Falsificadora Literária” e até participar em “Loki”. Existe ainda algum sonho que queira cumprir enquanto ator? Com quem gostaria de trabalhar no futuro?

Richard E. Grant: Oh meu Deus! Existem tantas coisas que ainda gostava de fazer e tantas pessoas com as quais gostaria de trabalhar. Não posso deixar de passar a oportunidade para dizer que eu adorava fazer um filme com o Quentin Tarantino, mas infelizmente ele irá reformar-se. Existe uma longa lista de atores com quem quero contracenar no futuro. Enfim, estou apenas grato. Com 64 anos, sinto-me feliz por ainda conseguir bons projetos para fazer. Estou extremamente grato.

Richard E. Grant
Richard E. Grant tem uma participação especial na série “Loki” da Marvel Studios © Marvel Studios

MHD: Uma última pergunta. Acha que o filme será capaz de unir as audiências? 

Richard E. Grant: Eu espero bem que sim. O passado da minha personagem, em flashback, e ao som dos Frankie Goes to Hollywood é realmente tocante. Vê-lo a perder a pessoa que mais ama por causa da SIDA, num tempo em que a doença era demasiado associada aos homossexuais. É talvez a sequência mais emocionante do filme, e tenho a certeza que os espectadores irão sentir a dor da minha personagem.

Além do mais não nos esqueçamos que enfrentamos a pandemia COVID-19, e portanto muitas pessoas perderam os seus entes queridos e amigos. Eu acho que um filme tão inclusivo como “Todos Falam Sobre o Jamie” tem que ser visto em família. É uma história para todas as pessoas, independentemente da sua sexualidade, da sua preferência de género ou da sua etnia. Todos são bem vindos e, como tal, espero sinceramente que a obra seja um sucesso por todas essas razões.

MHD: Obrigado Richard. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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