Donald Sutherland morreu a 20 de junho de 2024, em Miami, aos 88 anos, depois de uma longa doença. Teria completado 91 anos a 17 de julho de 2026. Deixou perto de duas centenas de títulos entre cinema e televisão, um Óscar honorário que chegou tarde e uma curiosidade que continua a espantar: nunca foi nomeado para um Óscar competitivo.
O filho, Kiefer Sutherland, é uma das grandes estrelas da televisão e tem dois Emmys em casa.
De Gente Vulgar a Moonfall: Uma carreira de quase seis décadas

Nascido em Saint John, no Canadá, em 1935, Donald Sutherland estudou engenharia e teatro na Universidade de Toronto e seguiu depois para Londres, onde frequentou a LAMDA. Os primeiros anos foram de papéis pequenos em televisão e em filmes de terror de baixo orçamento, até que, em 1967, se destacou em “Os Doze Indomáveis”.
A década seguinte foi a de um dos rostos mais marcantes de Hollywood. Foi Hawkeye Pierce em “M*A*S*H” e Oddball em “Kelly’s Heroes”, ambos em 1970, o detetive de “Klute” ao lado de Jane Fonda, em 1971, e o pai em luto de “Aquele Inverno em veneza“, de Nicolas Roeg, em 1973.
Seguiram-se “National Lampoon’s Animal House” e “Invasion of the Body Snatchers”, ambos em 1978, e “Gente Vulgar“, em 1980. Mais tarde, marcou presença em “JFK”, “Without Limits”, “Orgulho & Preconceito“, “Ad Astra” e, já nos últimos anos, por “Mr. Harrigan’s Phone” e “Moonfall”.
O Óscar que nunca chegou e os filmes que estiveram mais perto
Donald Sutherland faz parte de uma lista restrita: a das grandes estrelas de Hollywood que nunca foram nomeadas aos prémios da Academia.
Ao longo da carreira, o ator foi reconhecido com nomeações por “M*A*S*H” (Globo de Ouro), “Aquele Inverno em Veneza” (BAFTA) e “Without Limits” (Globo de Ouro).
Contudo, a omissão mais difícil de explicar aconteceu em 1981. Nesse ano, o seu nome ficou fora da lista de nomeados para Melhor Ator, apesar de ter sido nomeado ao Globo de Ouro pelo seu trabalho em “Gente Vulgar”, de Robert Redford. Ainda assim, o filme acabou por conquistar 4 Óscares, entre eles o de Melhor Filme.
A Academia acabou por reparar a falha em novembro de 2017, quando lhe entregou um Óscar honorário nos Governors Awards. Na cerimónia, Jennifer Lawrence descreveu-o como a pessoa mais dedicada, profissional e gentil que conheceu.
Hunger Games: A saga que o apresentou às novas gerações

Para toda uma geração, Donald Sutherland é o Presidente Coriolanus Snow, o ditador de Panem na saga “Os Jogos da Fome” (“The Hunger Games”). Todavia, tal não podia ter acontecido sem a intervenção do premiado ator.
Em entrevista à GQ, o veterano explicou que não lhe tinham oferecido o papel e que o guião tinha somente uma ou duas falas. Ainda assim, o ator interessou-se pelo projeto e leu mesmo a trilogia de Suzanne Collins.
“Escrevi-lhes uma carta”, explicou, onde apontou três elementos que considerava essenciais em Snow: “as rosas são de grande importância e os olhos de Coriolanus e o sorriso”. Além disso, para Sutherland, ele era um homem brilhante que cedeu ao fascínio do poder, sempre contido e a quem nada surpreende.
Não só a carta convenceu o realizador Gary Ross a dar-lhe o papel, como levou a que novas cenas fossem escritas para dar mais importância à personagem. Em 2023, a saga regressou com “A Balada dos Pássaros e das Serpentes”, uma prequela sobre a juventude de Snow, com Tom Blyth no papel que Sutherland tornou célebre. Quando o ator morreu, Blyth agradeceu-lhe por ter dado origem a “uma das grandes personagens do cinema de todos os tempos”.
Emmy e Globos de Ouro: O reconhecimento que o cinema lhe negou chegou pela televisão
Donald Sutherland começou na televisão, com participações em séries britânicas e americanas dos anos 60, e foi nela que somou os prémios que o cinema lhe negou. Regressou em força nos anos 90, com as produções da HBO “Citizen X”, que lhe valeu o Emmy de Melhor Ator Secundário em Minissérie ou Telefilme, em 1995, e o Globo de Ouro de Melhor Ator Secundário em Série, Minissérie ou Telefilme, em 1996, e “Path to War”, que lhe deu um segundo Globo de Ouro, em 2003. Seguiram-se as séries como “Commander in Chief” (2005 a 2006) e “Dirty Sexy Money” (2007 a 2009), onde foi Nathan Templeton e Tripp Darling e que lhe renderam nomeações aos Globos de Ouro, e depois “Trust” (2018), como J. Paul Getty.
Em 2021, ganhou o Critics’ Choice Television Award de Melhor Ator Secundário em Minissérie ou Telefilme por “The Undoing” (2020). O último papel televisivo foi o do juiz Isaac Parker em “Lawmen: Bass Reeves”, a série de Taylor Sheridan, em 2023.
Kiefer Sutherland: Uma estrela em ação

Kiefer Sutherland nasceu em Londres, em 1966, filho de Donald e da atriz Shirley Douglas, e seguiu os passos do pai. Começou no cinema nos anos 80 e tornou-se famoso em filmes como “Stand by Me”, “The Lost Boys” e “A Few Good Men”, mas foi a televisão que o transformou numa estrela.
Em 2001, Kiefer estreou-se como Jack Bauer em “24”, a série em tempo real que se prolongou por oito temporadas. Depois, ainda ganhou um telefilme (“24: Redemption”) e, mais tarde, um regresso em 2014 (“24: Live Another Day”). Ao longo do percurso, o papel valeu-lhe um Globo de Ouro de Melhor Ator em Série Dramática, em 2002. Posteriormente, em 2006, ganhou dois Emmys: o de Melhor Ator Principal em Série Dramática e também o de Melhor Série Dramática, este último como produtor executivo da série.
Depois de “24”, Kiefer protagonizou “Touch”, “Designated Survivor“, onde foi o presidente americano improvisado Tom Kirkman, e “Rabbit Hole” (2023).
Donald e Kiefer Sutherland juntos também no ecrã
Donald e Kiefer Sutherland fizeram três filmes juntos. No entanto, nem sempre partilharam o ecrã. Em “Max Dugan Returns”, de 1983, e em “A Time to Kill”, de 1996, ambos fazem parte do elenco. Mas não têm cenas significativas em comum.
Só em 2015, com “Forsaken”, é que pai e filho se cruzaram mesmo no ecrã. Este western é realizado por Jon Cassar. Nele, Kiefer é um antigo pistoleiro que volta à terra natal. Depois, tenta reconciliar-se com o pai, um pastor interpretado por Donald. A ideia foi do próprio Kiefer, que trabalhou nela durante vários anos. Inclusive, Donald contou que falavam em fazer algo assim há cerca de 30 anos.

