Estranha Forma de Vida. © Big Pictures Filmes

Crítica | Estranha Forma de Vida: Almodóvar Brinca aos Cowboys

Estreada em pleno Festival de Cannes 2023, a curta-metragem ’Estranha Forma de Vida’, o último filme de Pedro Almodóvar, é um western cheio de estilo, com Pedro Pascal, Ethan Hawke e o português José Condessa. O filme chega às salas de cinema a 12 de Outubro.

Antes de se lançar na sua próxima longa-metragem, o premiado e mundialmente ovacionado realizador espanhol Pedro Almodóvar, levou surpreendentemente ao último Festival de Cannes, esta curta-metragem, rodada em inglês nos estúdios de Tabernas em Almería — vale a pena visitá-los — de pouco mais de meia hora, intitulada  ‘Esta Estranha Forma de Vida’ — remete-nos logo para o fado de  Amália Rodrigues — que na verdade além ser um western ao estilo mais clássico, é também um filme antológico sobre toda a sua obra. 

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Estranha Forma de Vida
Ethan Hawke e Pedro Pascal, a dupla de protagonistas ex-amigos agora em lados opostos.© Big Pictures Filmes.

Já em Cannes, a crítica espanhola, em alguns dos seus textos, fazia referência a algo que à primeira vista passa de certo modo despercebido ao espectador: em ‘Dor e Glória’ (2019), talvez o filme mais autobiográfico de Almodóvar, o personagem do realizador em crise de idade e de criação, interpretado por Antonio Banderas, mantinha no seu Mac, um documento em Word chamado ‘Extraña Forma de Vida’, uma espécie de base de argumento para um novo filme. Efectivamente, nem a câmara, que faz uma passagem muito rápida pelo ecrã do computador, nem a história se fixaram muito neste pormenor.

No entanto, quer dizer, que já existia essa história sobre o desejo e de como há quem consiga viver, virando-lhe as costas, enquanto outros o anseiam, a intenção de abordar este tema, que aliás atravessa toda a obra de Almodóvar. Porém, desta vez o realizador espanhol quis ser mais ousado ao transportar esta ideia do desejo, para o ambiente de um filme de cowboys ou melhor de pistoleiros do Oeste americano. Com o seu habitual estilo brincalhão e irónico, o realizador mergulha neste estilo saindo da sua habitual zona de conforto, localizado quase sempre entre o pós-modernismo espanhol da década de 80 e a actualidade. O facto é que, os arquétipos do género western clássico de Hollywood, — mais até do que dos western spaghetti, que têm localizações onde este foi rodado estão neste filme, todos meticulosamente estudados e executados com um extraordinário rigor e com referências a ‘Duelo ao Sol’, ‘Johnny Guitar’, ‘Fort Apache’ e outros grandes filmes e êxitos do technicolor.

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VÊ TRAILER DE ‘ESTRANHA FORMA DE VIDA’


O que é curioso ainda, é como é possível, que ao mesmo tempo, todo o seu universo cinematográfico, esteja reunido numa velha cidade do oeste (ou num rancho) e estranhamente, ambos os territórios — os seus e os do western — convivam com absoluta naturalidade, dando também a ‘Estranha Forma de Vida’, esse tal carácter de filme antológico. Após 25 anos sem se verem, o fazendeiro Silva (Pedro Pascal) vai até a casa do seu velho amigo, o xerife Jake (Ethan Hawke). Na manhã seguinte, após o encontro, Jake duvida dos verdadeiros motivos desta visita, que facilmente se percebem, remete para um passado tenebroso e para uma história de amor e desejo da juventude de ambos, apesar de estarem agora, em campos opostos. À partida, ‘Estranha Forma de Vida’, pode até trazer-nos referência a ‘Brokeback Mountain, filme sobre a história de amor de dois cowboys realizado por Ang Lee. Porém este filme de Almodóvar é bem diferente, já que são dois ex-pistoleiros que trabalharam juntos na juventude, estando o drama presente focado num terceiro personagem: o filho de Silva, que é o verdadeiro motivo da visita do pai ao seu ex-mais que amigo Jake e portanto o cerne da história.

Os objetivos de Silva colidem continuamente com a atitude de Jake, estabelecendo uma luta contínua no seu desejo de finalmente atingir seus objetivos. Ao contrário do filme de Ang Lee, aqui há muito mais ação e mais tensão dramática, resolvida de forma muito hábil e brilhante num argumento, com os excelentes diálogos, à medida claro, de Almodóvar. Já não é também a primeira vez que Almodóvar concebe uma história de um reencontro de ex-amantes, referenciados em campos opostos e neste caso 25 anos depois. Até a pergunta que o personagem de Ethan Hawke faz ao outro: ‘Porque voltaste?’ foi exactamente a mesma colocada por Eusebio Poncela em ‘A Lei do Desejo’ (1987) e a mesma posta a Asier Etxeandia, quando em ‘Dor e Glória’ (2019), bate à porta do alter-ego de Almodóvar; o desespero de Pedro Pascal, que se recusa a aceitar a rejeição do amante é também muito semelhante ao de Carmen Maura em ‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’ (1988) e de Marisa Paredes em ‘A Flor do Meu Segredo’ (1995). Em ‘Ata-me’(1989), Victoria Abril é presa pelo amante — aliás como neste filme — e existem muitos outros exemplos de referências a filmes anteriores do realizador, neste ‘Estranha Forma de Vida’.

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Estranha Forma de Vida.
José Condessa têm aqui mais uma grande oportunidade para se internacionalizar. © Big Pictures Filmes

A verdade é que tudo parece caber harmoniosamente, naquela cidade com cowboys vestidos a rigor, mas com muito estilo, pelo designer belga Anthony Vaccarello — o actual director criativo da Yves Saint Laurent — através de uma meticulosa encenação, diálogos fabulosos e uma milimétrica composição de imagem. É surpreendente, porque este último aspecto é também uma novidade no cinema de Almodóvar, quando coloca a câmara ao ar livre e deixa o horizonte vermelho do deserto de Tabernas, fazer o seu papel. As interpretações dos protagonistas, são obviamente notáveis, sobretudo de Ethan Hawke, mas também nas pequenas aparições como a do português José Condessa — num papel que decerto e aliado ao sucesso de ‘Rabo de Peixe’, lhe vai abrir muitas portas internacionais — que faz de Pascal, enquanto jovem.

Em ‘Estranha Forma de Vida’, que segundo o realizador o tema da Amália serviu apenas de inspiração criativa e título, há ainda uma curiosa homenagem a Sergio Leone: um duelo a três. O realizador da trilogia dos Dólares [“Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por Mais Alguns Dólares” (1965) e “O Bom, o Mau e o Vilão” (1965)] e de ‘Aconteceu no Oeste’ (1968), nunca se preocupou muito, que o deserto de Tabernas não se parecesse com o do Arizona, porque o seu jogo cinematográfico, tinham sempre algo de diferente dos clássicos de Hollywood, como por exemplo ‘O Homem Que Matou Liberty Valance’ (1962), de John Ford. Almodóvar, desta vez parece divertir-se muito, sendo o mais clássico dos clássicos do western, porém, permanecendo ele próprio como autor, aliás como sempre, apesar de insistir repetir alguns dos seus inúmeros clichés e as muitas marcas do seu cinema. Ao filme segue-se, como aliás tal como ‘A Voz Humana’, a curta-metragem anterior com Tilda Swinton, uma entrevista com Pedro Almodóvar.


Crítica | Estranha Forma de Vida: Almodóvar a Brincar aos Cowboys

Movie title: Extraña Forma de Vida

Movie description: Um homem cavalga pelo deserto que o separa de Bitter Creek. Vem para visitar o xerife Jake (Hawke). Vinte e cinco anos antes, tanto o xerife Jake quanto Silva (Pascal), o rancheiro que cavalga para encontrá-lo, trabalharam juntos como pistoleiros contratados. Silva chega a pretexto de reencontrar seu amigo da juventude, e na verdade começam por comemorar o reencontro, mas na manhã seguinte o xerife Jake diz-lhe que o motivo de sua viagem não é certamente a lembrança da sua antiga amizade...

Date published: 8 de October de 2023

Country: Espanha

Duration: 31 min

Director(s): Pedro Almodóvar

Actor(s): Ethan Hawke, Pedro Pascal, Manu Ríos, Pedro Casablanc, Jason Fernández, José Condessa, George Steane, Sara Sálamo

Genre: Ficção, 2023,

  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO:

‘Estranha Forma de Vida’, é uma espécie de Pedro Almodóvar de ontem, hoje e sempre. É uma curta-metragem, com muita pena nossa, talvez demasiado curta, onde o todo torna-se num excelente enigma cinematográfico, que começa no argumento, diálogos, interpretações dos protagonistas, tensão dramática, e termina num final melodramático. Não sendo uma obra-prima do cinema, é talvez uma das obras mais completas de Almodóvar, que vai muito além de uma suposta homenagem ao western clássico. É um pequeno filme, um exercício de estilo, que transcende-se para ascender, a um melodrama sobre a vingança e as paixões humanas, apesar de tudo, na linha dos filmes anteriores do realizador. É um filme, para desfrutar da combinação de dois mundos cinematográficos: o de Almodóvar e o do western clássico à Hollywood, sendo ao mesmo tempo uma obra que combina com maestria vários géneros do cinema, de uma forma condensada e em apenas trinta minutos. 

JVM

Pros

Efectivamente Ethan Hawke, que tem uma uma interpretação bastante mais convincente do que Pascal, bem como a extraordinária sequência final ao som da música do eterno cúmplice da ‘estética almodovariana’: Alberto Iglesias.

Cons

É mesmo o facto de ser um filme muito curto, apetecia, mais, embora o início seja um pouco lírico e demasiado cheio de floreados, do estilo western, algo que retarda um pouco uma verdadeira imersão nesta história de desejo incontrolável e vingança.

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