Paul Artreides (Timothée Chalamet)/©Warner Bros. Portugal

Duna, em análise (2)

A primeira parte de ’Duna’, de Denis Villeneuve, um dos filmes mais aguardados do ano, é uma espécie de ‘Guerra nas Estrelas’ ou melhor uma ‘Guerra dos Tronos’, em versão space opera de ficção científica. Trata-se de um filme espectacular exuberante, mas que não consegue expressar da melhor maneira a já de si, complexa e alucinante obra  do escritor Frank Herbert.

O romance Duna, de Frank Herbert (1920-1986), publicado em 1965 (em Portugal, creio que uns anos mais tarde em 3 volumes, pela Livros do Brasil, Colecção Obras Primas da Ficção Científica) conseguiu na altura tornar-se no livro mais vendido e lido da história da literatura de ficção científica. Era um sinal dos tempos, pois vivia-se a era hippie, das drogas alucinogénias e da Guerra do Vietname. O livro de certa maneira alimenta essa ideia, pegando nesses movimentos de contestação, já o filme de Denis Villeneuve procura afincadamente recuperar e fazer um paralelismo, com os tempos em que vivemos. Naturalmente, o livro ficou logo debaixo de olho de vários produtores e realizadores de Hollywood, para uma possível adaptação ao cinema, já que um best seller literário é quase uma garantia de um sucesso de bilheteira. Porém, da afirmação das sagas de ficção científica, como Guerra das Estrelas ou Star Trek-Caminho das Estrelas, a obra de Frank Herbert ficou logo com o estigma de uma difícil adaptação, em parte por causa do complexo universo criado pelo escritor, que deixou de fora as tecnologias, ou melhor robôs, computadores e naves espaciais, apostando mais em contar uma história mais cerebral e filosófica, sobre uma civilização que desenvolveu determinadas aptidões físicas e mentais, que a tornam algo superior do ponto de vista intelectual, mas não tanto de ponto de vista bélico e supremacia. Em vez de grandes aventuras e combates espaciais, os temas do livro de Herbert giram à volta de metáforas sobre a condição humana, e os dilemas morais e éticos da civilização universal. Na verdade, depois da razoável sequela Blade Runner, 2049, o realizador franco-canadiano Denis Villeneuve, parecia ser a pessoa indicada para tornar Duna um verdadeiro blockbuster e um sucesso de bilheteira pós-pandémico. E em parte conseguiu-o, — os números de bilheteira, em Portugal no primeiro fim-de-semana de estreia, são muito interessantes — resolver algumas das dificuldades da obra de Herbert, combinando entretenimento com reflexões filosóficas; o resultado é um filme-espectáculo na linha de Guerra nas Estrelas, interminável e longo (e ainda agora vai na primeira parte), mas bem-feito, que tem dividido opiniões. Mas voltemos ao principio, já que a adaptação de Dune ao cinema há muito que se tornou num grande desafio para vários cineastas. 

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De facto e até agora, as várias adaptações de Duna ao cinema não têm sido fáceis de agradar aos espectadores, nem têm sido propriamente grandes sucessos de bilheteira: primeiro foi a tentativa ou melhor a megalómana adaptação do realizador franco-chileno Alejandro Jodorowsky, em 1973, que acabou por não resultar por falta de recursos financeiros e técnicos. O projeto resume-se ao excelente (mas demasiado centrado para um público cinéfilo) documentário Duna de Jodorowsky, de Frank Pavich (2013), — creio que inédito em Portugal — afinal sobre aquilo que poderia ter sido o filme, do realizador e autor de culto de BD e curiosamente com um universo próximo do de Herbert. Em 1984, David Lynch, que continua a rejeitar a autoria da sua curiosa e na altura surpreendente versão de Duna, (com Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Patrick Stewart, Sting, Sean Young e outros actores que tanto amamos, e que estreou precisamente no ‘1984: O futuro é já hoje? [ciclo de cinema de ficção científica] da Fundação Calouste Gulbenkian e Cinemateca Portuguesa) por não ter feito o corte final, imposto pelo produtor Dino De Laurentiis, que viu a longa-metragem demasiado longa e pouco comercial. Apesar do talento de Lynch, da sua visão surreal e quase shakespeariana, este seu projecto acabou também por não combinar nem com os cânones do blockbuster de ficção cientifica e nem agradar às grandes audiências. Foi um fiasco de bilheteira! Porém Duna de Lynch conseguiu sintetizar a história do primeiro livro num único filme. O próprio Frank Herbert disse publicamente que gostou da versão de David Lynch por ser bastante fiel ao livro, apesar de algumas dúvidas, sobre as suas escolhas, como sempre, algo surrealistas. Também a partir dos livros ‘Dunes Series’ foi criada a ‘Duna’ (1976), de Frank Herbert, uma adaptação do Canal Sci-Fi em 2003, transformada numa minissérie que teve um relativo sucesso e até ganhou dois Emmy. Herbert morreu em 1986 e torna-se impossível avaliar se gostaria ou não desta versão de Denis Villeneuve?

Duna
A exuberância de ‘Duna’, também no guarda-roupa/©Warner Bros

Agora, a primeira (e talvez a mais acertada) decisão de Denis Villeneuve, tenha sido dividir a história do primeiro volume de ‘Duna’ em duas partes, procurando explicar melhor esse complexo mundo de trágicas relações de poder, (e guardar o resto para um segundo filme) construído por Herbert, que neste sentido se assemelha um pouco a Guerra dos Tronos, ou melhor aO Senhor dos Anéis, escrito também em 3 volumes. Neste primeiro filme (um longo episódio de 2h35), Villeneuve, Jon Spaihts e Eric Roth, todos responsáveis pelo argumento adaptado, começam a história através da narração da jovem Chani (Zendaya), a personagem que procura explicar a importância estratégica do planeta Arrakis, um lugar onde tem origem a chamada especiaria (um recurso equivalente ao petróleo), uma substância que permitia as viagens interplanetárias. O jovem talentoso e brilhante Paul Artreides (Timothée Chalamet), vive atormentado pelos seus sonhos, que parecem determinar um destino, do qual não vai conseguir fugir, que é tornar-se uma espécie de Messias (com Neo de Matrix), algo que está acima da sua compreensão. Paul é uma espécie de príncipe, que tem de viajar para Arrakis, para garantir a perenidade da sua família e do seu povo. Enquanto isso, forças malévolas fazem explodir um conflito pela exclusividade na exploração deste valioso recurso: a especiaria. Na verdade, a longa-metragem procura a sua actualidade recorrendo implicitamente aos temas da ecologia, declínio dos impérios, heroísmo, religião, messianismo, islamismo, budismo e ainda às fortes influências da ‘psicologia jungiana’ (Carl Jung), que curiosamente, já estavam presentes na obra de Frank Herbert. Apesar da trama se passar num futuro bastante longínquo e improvável, Denis Villeneuve procura envolver o espectador num complexo jogo político marcado pelas traições, violência e ainda algumas histórias da mitologia greco-latina, — também elas implícitas no romance de Herbert — num paralelo com a atualidade, um mundo movido por guerras e interesses comerciais globais ou das grandes potências. Ou remeter para um futuro da Humanidade demasiado opressivo, trágico e feudal. 

Duna
‘Duna’ é um universo trágico e psicológico.©Warner Bros. Portugal

‘Duna’ de Denis Villeneuve é sobretudo um espetáculo visual com muitos efeitos especiais, com uma excelente sonorização, fotografia e um notável guarda-roupa, e muito mais exuberante que Sicario: Guerra de Cartéis (2015), O Primeiro Encontro (2016) e até de ‘Blade Runner 2049’ (2017). Tal como o seu filme anterior, também  ‘Duna’ é servido por um banda sonora de Hans Zimmer, excelente mas aqui talvez demasiado arrebatadora, para esta epopeia galáctica de personagens messiânicas, profundas, de cariz psicológico e trágico. Os silêncios e as pausas talvez fossem necessárias para um olhar mais profundo para as personagens. Na verdade, não era necessário ser fiel à obra de Herbert —  um romance recheado de diálogos internos — mas o texto e o discurso das personagens é o mais importante e envolvente, quase como no teatro ou nos dramas psicológicos. E isso continua a marcar indelevelmente o projecto, com uma história que tem dimensão para uma série de televisão de pelo menos 3 temporadas. Villeneuve sempre se destacou por ser um realizador muito competente, que dá muita atenção aos detalhes, à gramática da linguagem cinematográfica, aos movimentos e posicionamentos de câmara, à fotografia (aqui demasiado cinzenta e muito mais escura do que a de David Lynch). Contudo, a sua esforçada e competente realização não é suficientemente expressiva, para uma total compreensão da trama e das muitas personagens que interagem umas com as outras, com figuras que nem sempre possuem uma fisionomia humana e de estranhos nomes. É preciso tirar um curso ou ler muito para se compreender realmente o filme! Este ‘Duna’ é decerto uma versão que agrada  muito aos entusiastas do género, mas para quem não está familiarizado com este universo é uma longa-metragem que se torna demasiado fastidiosa e incompreensível. A espectaculosidade torna-se um tanto vazia. Pese embora ter sido muito bem interpretado por um elenco de estrelas (Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Jason Momoa, Zendaya, entre outros), e realizado por um cineasta competente como Denis Villeneuve, que tem procurado demonstrar que não existem obras literárias – por mais complexas que sejam, (como o conto Story of Your Life’, de Ted Chiang, publicado na antologia Starlight 2’, em 1999 e que deu origem a O Primeiro Encontro), impossíveis de chegar aos ecrãs.  Difícil às vezes é concretizá-las da melhor forma e rentabiliza-las como investimento, técnico e financeiro, fazer arte e agradar aos espectadores e à crítica. 

Duna, em análise
Dune

Movie title: Dune

Date published: 25 de October de 2021

Director(s): Denis Villeneuve

Actor(s): Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Jason Momoa, Zendaya

Genre: Drama/Ficção Científica, 2021, 155 min

  • José Vieira Mendes - 60
  • Maggie Silva - 86
  • Inês Serra - 87
  • Virgilio Jesus - 100
  • Rui Ribeiro - 90
  • Manuel São Bento - 80
  • Cláudio Alves - 65
81

CONCLUSÃO:

‘Dune’, de Denis Villeneuve, é um filme espectacular, que vai certamente agradar aos conhecedores do género.  Para os leigos e para compreender este complexo universo é preciso quase um estudo detalhado das personagens e das suas interacções. Porém, apesar de se passar num futuro longínquo, o projecto aborda indirectamente temas actuais como a defesa do ambiente, o declínio dos impérios, heroísmo, religião, messianismo, budismo, islamismo e regressa as influências da psicologia junguiana e da mitologia dos deuses, que já estavam presentes na obra de Frank Herbert. No fundo, trata-se de uma metáfora sobre o poder e o mundo actual que funciona à custa de guerras e interesses comerciais globais. Em vez de petróleo ou gás natural, no filme o recurso escasso é a especiaria.  

O MELHOR: O fabuloso elenco que não tem muitas chances para mostrar o seu enorme talento devido à dispersão da história;

O PIOR: A rebarbativa banda sonora de Hanns Zimmer que é boa mas não é a mais apropriada para um universo complexo, intimo e psicológico da história a partir do romance de Frank Herbert.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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