Beatriz Batarda é a Tânia, 'a mãe do portugueses' em Great Yarmouth. | ©70SSIFF

Great Yarmouth: Provisional Figures | Um Grande Filme Português Que Estreia Esta Semana

Depois da antestreia na competição do Festival de San Sebastián em 2022, chega finalmente às nossas salas de cinema, um dos mais auspiciosos filmes portugueses desta temporada: ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’, de Marco Martins, um ‘thriller’ sobre a imigração ilegal portuguesa no Reino Unido, com uma interpretação ‘do outro mundo’, de Beatriz Batarda, como protagonista. Estreia na próxima quinta, 16 de Março.

‘Great Yarmouth: Provisional Figures’, de Marco Martins (‘São Jorge’) é um filme feito à medida de Beatriz Batarda, e um verdadeiro ‘festival’ do que é encarnar o papel da controversa Tânia: uma imigrante portuguesa, esforçada em aprender um inglês fluente, que para ela é fundamental para obter a nacionalidade britânica, ao mesmo tempo que exerce a sua actividade de intermediária de mão-de-obra. Batarda é efectivamente a ‘great’ protagonista de mais um drama do cinema nacional, sobre a imigração portuguesa no Reino Unido, depois de ‘Listen’ de Ana Rocha de Sousa. Porém, o novo filme Marco Martins, é bastante mais ambicioso quanto mais não seja porque conta com a maior e mais completa actriz portuguesa da actualidade, tanto no teatro como no cinema. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ é uma obra infinitamente mais intrigante, que teve como base uma peça de ‘teatro experimental’ (ou de um workshop) com o mesmo título, encenada e estreada em Inglaterra em 2018. O resultado deste ‘work-in-progress’, que foi interrompido durante os confinamentos, provocados pela pandemia de COVID-19,  resultou num filme negro, incómodo, duro, que denuncia a xenofobia social, cada vez mais presente no Reino Unido e que decerta maneira acabou por dar origem ao Brexit. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ é um retrato realista, sórdido e desesperançado, sobre o tráfico humano de mão-de-obra, num mundo desumanizado e global, onde as pessoas, são tratadas como mera mercadoria e sem escrúpulos.

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VÊ TRAILER DE ‘GREAT YARMOUTH: PROVISIONAL FIGURES’

Porém, em vez de se cingir à história de uma comunidade, o filme de Marco Martins, parte do geral para o individual — do grupo de imigrantes recém-chegado a Great Yarmouth, para os conflitos pessoais da sua protagonista — e começa precisamente três meses antes do Brexit: Tânia (Beatriz Batarda), é uma portuguesa (aparentemente) casada com um rude inglês (Kris Hitchen, vimo-lo em Passamos Por Cá, o ultimo filme de Ken Loach, em 2019), que é proprietário de um hotel abandonado na cidade costeira de Great Yarmouth (Norfolk County, Grã-Bretanha). Trata-se de uma localidade que foi outrora um importante centro turístico, e que entretanto transformou-se num local de destino de trabalhadores-imigrantes ilegais (ou ‘provisional figures’, isto é pessoas à espera da legalização) oriundos de Portugal. Tânia, que é chamada de ‘a Mãe dos portugueses’, e o seu braço-direito (Romeu Runa), um tratador de galgos de corrida, funcionam como uma espécie de intermediários, que se dedicam a fornecer mão-de-obra barata a um matadouro de aves, nas redondezas desse ex-balneário turístico. Entretanto, Tânia sonha que, com o tempo, com as economias que vai fazendo à custa da exploração dos trabalhadores portugueses e também desviando do marido, parte do dinheiro que ganha, vai conseguir transformar o velho e degradado hotel — onde abriga em péssimas condições, esses imigrantes que trabalham no matadouro — num alojamento turístico para idosos reformados. Porém, os seus planos viram-se do avesso quando um homem (Nuno Lopes) e a sua cunhada (Rita Cabaço) chegam à localidade de Great Yarmouth, para trabalhar e à procura do irmão dele, de quem não têm notícias há bastante tempo.

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Great Yarmouth: Provisional Figures
©70SSSIFF | Great Yarmouth: Provisional Figures, de Marco Martins

Marco Martins parece encarar a narrativa como uma incursão no realismo social (britânico), à boa maneira de Ken Loach ou Mike Leigh, com um olhar incrédulo e um espírito de denúncia dos factos. Contudo, com um tom que vai do drama social ao thriller, o realizador português, vai ajudando-nos a seguir, um grupo de controversas personagens, sempre com uma câmara muito envolvente e próxima dos rostos, questionando os seus comportamentos e acções através dos pouquíssimos diálogos; e ao mesmo tempo, mostrando-nos as suas figuras marcadas pela dureza, as suas diversas fisionomias e sensibilidades. Pouco a pouco vai conseguindo conectar-nos, com todos os protagonistas, a um nível muito profundo, evitando cenas paradas e longos diálogos, apesar de quase sempre vazios e banais. Todavia, no centro do drama está Tânia (Beatriz Batarda), que só com os seus olhares e uma dicção tão delicada quanto ferida, numa mistura de inglês com português, consegue  representar o tom geral do filme e a sua mensagem: uma obra que nos revela a infecção destes lugares de exploração das pessoas e as falsas esperanças desses imigrantes, que vão morrendo aos poucos num matadouro de perus, uma espécie de lugar de fuga em decomposição, em troca de umas poucas migalhas de pão ou de um futuro melhor. O mundo da ornitologia é usada como metáfora por uma estranha personagem solitária, que funciona como uma espécie de narrador, deste duro ensaio sobre a natureza humana, contrastando-a com as espécies selvagens que vivem nos pântanos e os perus criados a fermento, que vão para o matadouro. Martins coloca os animais, no mesmo plano da cadeia alimentar, quase ao lado dessa comunidade de trabalhadores-imigrantes portugueses ilegais, um grupo de pessoas que são usadas, massacradas e consumidas como se fossem aves de abate.

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Great Yarmouth: Provisional Figures
©70SSIFF | Beatriz Batarda é o rosto e o tom deste novo e duro filme de Marco Martins.

A belíssima fotografia escurecida de João Ribeiro, segue um estilo de naturalismo sujo e realista, mostrando-nos tanto a imundície e humidade dos quartos do decadente hotel, como um matadouro cheio de sangue, vísceras e dejetos; também esse um contraste com imundície do espírito humano, que transforma os homens em predadores de outros homens. A atmosfera é desagradável e o fedor quase chega à cadeira do espectador. Nem os momentos de amor e um sensual e romântico karaoke de Tânia num bar, estão livres de sujeira, desespero e desilusão de vida. ‘Great Yarmouth: Provisional Figures’ pode ser um filme desconfortável e demasiado figurativo, mas acima de tudo é uma obra notável, arrasadora e honesta, que se vai transformar decerto num dos filmes mais polémicos e interessantes da filmografia portuguesa dos últimos anos. Trata-se sobretudo de um trabalho que usa uma incrível estética, que dá destaque à espantosa expressividade e vocalização da grande actriz que é Beatriz Batarda, muito bem apoiada por Nuno Lopes, como seu co-protagonista, mas num papel sem tanta relevância. 

JVM



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