©71ª Berlinale/‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, de Radu Jude.

71ª Berlinale, em análise ou melhor e o pior

Para mim a 71ª Berlinale só terminou ontem domingo 7 de Março, com o visionamento dos filmes premiados e sobretudo dos da secção Encounters, porque já tinha visto todos os da Competição. Enfim, segue um resumo do Festival de Cinema de Berlim de 2021, marcado pela pandemia e pelo virtual, mas com uma das mais impressionantes e sugestivas selecções de filmes dos últimos anos.

Houveram efectivamente muitas coisas boas nesta edição online da 71ª Berlinale. A primeira, e sei que sou um privilegiado, pois pude assistir confortavelmente no meu sofá, no meu projector e num ecrã, que não deve ser muito mais pequeno do que o dos meus  favoritos Cinema Ideal ou Nimas, em Lisboa. E tenho quase a certeza que vão passar por lá em breve vários filmes desta Berlinale 71. Não é Pedro Borges? Não é Paulo Branco? Ou melhor, não é Marta Fernandes ou António M. Costa? Vão-me perguntar se não teria sido melhor ver os filmes no grande auditório do Berlinale Palasts ou nos Cinemaxxx da Potzdammer Platz, em Berlim? Melhor era, mas não foi possível! E é pena porque as condições de som e imagem da sala grande da Berlinale — dos cinemas enfim são iguais aos do UCI-El Corte Inglés? — é excepcional e as cadeiras são bastante confortáveis. E sobretudo tenho saudades — a saudade é um sentimento muito português — dos meus amigos e companheiros internacionais, com quem convivo e falamos dos filmes, há mais de 20 anos; é verdade que sempre a correr entre sessões e as refeições rápidas — que saudades tenho das bratwurst, acompanhadas por um copo de glühwein — no meio de todos os eventos do festival. De qualquer, modo para mim o ritmo desta 71ª Berlinale, não foi muito diferente, se fosse presencial. Talvez tenha sido até mais intenso, porque os habituais 11 dias, transformaram-se em uma semana. Continuei a acordar às 7h da manhã — dormia 6 horas — para começar a ver filmes e a escrever as minhas crónicas diárias — quase sempre me recusei a fazer aquelas entrevistas de grupo, que nos propõem nos festivais, portanto não tenho esse problema — entre refeições quase sempre a correr e as pausas para um café ou descansar. A verdade, é que não tive de suportar o frio e a escuridão do inverno às quatro horas da tarde, na Potsdamer Platz — graças, às minhas janelas desta luminosa Lisboa — e consegui organizar mais e melhor, a minha programação de filmes: estavam disponíveis 24 horas por dia, no Media Service da Berlinale, numa plataforma que funcionou na perfeição, sem um único problema. Isto, sem precisar de ir para as filas das sessões, pelo menos meia-hora antes, para conseguir um bom lugar e com a visibilidade que mais gosto: atrás e de lado! Podem mesmo dizer que estas restrições são um pouco contra-natura para os festivais de cinema? É verdade são mesmo, como serão aliás para outras tantas coisas na nossa vida, daqui para a frente e pelo menos nos próximos tempos! Porém, acho que nada será com antes para os festivais de cinema; como também muitas coisas serão diferentes em relação ao nosso ‘consumo’ de filmes, no mais que inevitável regresso às (boas) salas de cinema, que vão trazer-nos, certamente outro tipo de opções e alternativas de programação.

VÊ VIDEO DE ‘BAD LUCK BANGING OR LONNY PORN’

Poder-se-ia dizer também que as restrições da pandemia eram um enorme contratempo para os diretores do festival, Carlo Chatrian e Mariette Rissenbeek? No seu segundo ano de mandato — o ano passado conseguiram realizar a Berlinale por uma unha-negra, antes do confinamento — e depois da sua discreta estreia em 2020, parecia perdida a oportunidade de consolidarem e afirmarem, a sua nova liderança artístico-financeira, depois das mais de duas décadas de Dieter Kosslick. Para quem tivesse dúvidas, a verdade é que eles, o conseguiram tranquilamente, sem o brilho das passadeiras vermelhas e das estrelas, sem os flashs dos fotógrafos, sem os grandes ecrãs de cinema — espera-se que tudo isto venha a acontecer no tão aguardado Berlinale Summer Festival, em julho, para o público berlinense — sem as habituais e movimentadas conferências de imprensa e sem correrias; e sobretudo sem aquele frio de rachar (e às vezes neve) de Berlim, em fevereiro, que torna às vezes o festival muito cansativo e deprimente — æ se os filmes não ajudam ainda pior — pelo menos para nós latinos. A dupla da direcção tornou possível, e em tempos muito difíceis, fazer uma edição virtual, mais modesta é um facto, mas também mais equilibrada e sobretudo, num modelo triunfante, pois a Berlinale não perdeu as suas características de festival de (mais) vanguarda, no contexto Europeu. Nesta 71ª Berlinale, competiram ou foram apresentadas, as últimas novidades da produção de cinema de 2020 em tempos de pandemia, que vai ter muita dificuldade em reequilibra-se, como todos os outros sectores de actividade; mesmo assim estrearam-se muitos filmes extraordinários, deslumbrantes, alguns mesmo soberbos, que conseguiram prender-me — e espero que também aos meus companheiros — ao sofá cá de casa, numa das mais poderosas selecções dos últimos anos.

VÊ TRAILER DE ‘I’AM YOUR MAN’

Na competição — cerca de 15 filmes, apenas um pouco menor do que o habitual — não estavam cineastas-autores de renome, mas alguns dos novos realizadores e outros já relativamente consagrados, que participaram nas secções competitivas, ofereceram-nos filmes de uma qualidade muito consistente, que despertaram muita vontade de os ver e muita curiosidade como irão funcionar nas salas ou nas plataformas de streaming; e as vezes até nos proporcionaram um certo deslumbramento como a nova obra da francesa Céline Sciamma (‘Petite Maman’), que ficou infelizmente muito esquecida quanto a prémios. Mas já lá vamos! Pode-se até dizer que aquele lado sombrio e — às vezes excessivamente — militante e activista da Berlinale, foi menos carregado por uma enorme e luminosa diversidade, sem os excessos do politicamente correcto, às vezes confesso um bocadinho hipócritas e irritantes. Excepção, e é bastante discutível, o gesto político que rodeou, a decisão de dar os Prémios de Interpretação Principal e Secundário, sem género definido (respectivamente Maren Eggert em ‘I’m Your Man’, de Maria Schrader e Lilla Kizlinger em Forest – I See You Everywhere’, de Bence Fliegauf).  Ainda estamos a tempo de discutir esta questão! Para terminar, os prémios dados pelos jurados, todos realizadores premiados (Ildikó Enyedi, Nadav Lapid, Adina Pintilie, Mohammad Rasoulof, Gianfranco Rosi e Jasmila Žbanić), com um Urso de Ouro em edições anteriores da Berlinale, também me pareceram bastante equilibrados, beneficiando alguns filmes e esquecendo outros, mesmo que entre eles estejam alguns dos meus favoritos. Mas isso é a vida do festivais!

UMA SELECÇÃO (ONLINE) IMPRESSIONANTE

O filme que ganhou o Urso de Ouro foi ‘Bad Luck Banging or Lonny Porn’, do romeno Radu Jude. Começa de uma forma surpreendente, como se fosse um filme pornográfico caseiro e hard core. Depois transforma-se numa espécie de viagem sobre os símbolos, questões e imagens do nosso tempo. Filmado durante a pandemia, tem um tema central muito forte e de uma enorme actualidade: o bullying sexual na internet. Um homem e uma mulher vulgares, fazem sexo impulsivamente em casa, usando máscaras e filmando ao mesmo tempo com recurso ao telemóvel. Por um lapso, o video tornou-se viral e a mulher, apesar da máscara, acaba facilmente identificada nas redes sociais e num site porno. O problema é que eesa mulher é uma prestigiada professora, (Katia Pascariu), que apesar de estar com o marido naquelas cenas, deveria numa visão conservadora, ser um modelo de virtudes, para os seus alunos e famílias. ‘Bad Luck Banging or Loony Porn’ termina em grande estilo, numa reunião de pais, onde é julgada (e votada), a permanência ou não da nossa heroína, que se transforma numa ‘Mulher Maravilha’, criada por Radu Jude. Porém, alguns dos filmes da Competição, mantiveram-se fiéis à tradicional vertente sombria da programação da Berlinale.

VÊ TRAILER DE ‘BALLAD OF A WHITE COW’

Desta vez talvez não tão deprimente como é habitual. É o caso do austero drama iraniano Ballad of a White Cow, dirigido por Behtash Sanaeeha e Maryam Moghaddam, sobre uma mulher — interpretada pela propria co-realizadora — sobre a inevitável dependência das mulheres na sociedade iraniana, e como esta que tem de lidar com as consequências da execução à morte do seu marido inocente num crime, pelo qual foi enganosamente acusado. Outro dos meus filmes favoritos, mas também bastante duro, foi Memory Box, do casal de cineastas e artistas libaneses Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, — o primeiro filme libanês na competição da Berlinale. Trata-se de um filme que explora a importância das memórias; e que liga três gerações de mulheres (Mia, Alex, Téta), pelas memórias da guerra do Líbano, nos anos 80 e actualidade de uma Beirute, marcada pela pandemia e pela explosão no porto. Ao contrário da maioria dos filmes, sobre as guerras e as tensões no Médio Oriente, este ‘Memory Box’, é diferente porque não termina com uma nota trágica ou de violência, mas apenas com uma certa desesperança e desencanto, em relação ao futuro do Líbano. Depois belíssimo é também ‘Natural Light’, que é uma extraordinária estreia de Dénes Nagy (Urso de Prata de Melhor Realização), sobre as tropas húngaras, aliadas da Alemanha, durante a II Guerra Mundial. Além de confrontar-nos com o que significa estar do lado errado da história, é uma representação meticulosamente texturizada de lama, casca de árvore, rostos enrugados — sobretudo de Ferenc Szabó, um protagonista improvável e não-profissional— fardas sujas dos soldados e sobretudo terror e miséria. Soberbamente filmado numa paleta escura de cores e texturas, é um dos filmes que espero voltar a ver um dias destes, numa boa sala de cinema. Mais suave e divertido é  ‘I’m Your Man’, da alemã de Maria Schrader (actriz e realizadora da série de televisão ‘Unorthodox’). Esta comédia romântica de um robot pensante é uma história inverossímil, mas ao mesmo tempo filosófica, sobre uma antropóloga que aceita testar um andróide masculino, projectado como o seu parceiro perfeito. Correndo o risco de ser afastado dos prémios por ser divertido, tornou-se uma agradável prova de abertura do jurados para a comédia; também muito graças a um argumento inteligente e bem afinado, que dá as pistas perfeitas para as excelentes interpretações dos protagonistas: Maren Eggert (Urso de Prata de Melhor Actriz) e um gozado Dan Stevens, normalmente mais sério e circunspecto em ‘Downton Abbey’.

VÊ TRAILER DE ‘NATURAL LIGHT’

Bastante impetuoso é também — e acabei por não falar dele antes — é ‘Una Película de Policías’, do realizador mexicano Alonso Ruizpalacios, um documentário sobre as desventuras de dois agentes da polícia da Cidade do México. Filmado num estilo meio videoclipe, meio thriller que mostra como os agentes Teresa e Montoya    que formam um casal na vida privada — enfrentam as dificuldades do seu trabalho, coladas numa série de episódios reconstruídos, com dois actores profissionais. Em seguida e inesperadamente, Ruizpalacios puxa-nos literalmente o tapete, para nos mostrar os dois atores preparando os seus papéis e os personagens reais, comentando os seus desencantos. O filme avalia ainda de forma brilhante a realidade da lei, da polícia de rua contra os mitos dos filmes e séries de televisão mais convencionais e oferece uma visão incisiva de um dos sistemas de policiamento mais controversos do mundo. Um documentário muito habilidoso produzido pela Netflix e que estará em breve e em principio, numa plataforma perto de si! 

PEQUENAS PÉROLAS DE CINEMA

Contudo, um dos filmes mais esperados desta competição da Berlinale 71, era o da francesa Céline Sciamma (‘Retrato de Uma Rapariga em Chamas). ‘Petite Maman’ emociona-nos com uma história simples e num regresso à infância, que parece tão íntimo e tocante, que bem poderia ser a ‘nossa história’ e do nosso um amigo ou amiga secretos, que infelizmente, já não vemos há muito tempo.  Já várias vezes elogiada pelos seus sensíveis retratos de ‘mulheres grandes’, Sciamma, resolveu desta vez pegar nas ‘filhas’,  através de um discurso sobre o que é ser criança. E em ‘Petite Maman’, uma pequena maravilha de cinema, sentimo-nos novamente com se fossemos crianças, das brincadeiras, da casa na floresta, dos amigos que escondemos. O filme, fala ainda do duro processo de esvaziamento da nossa casa de infância — só quem passou por isso é que sabe quanto é triste, doloroso e nostálgico! É uma daquelas experiências sobre a qual é sempre muito difícil falar: os livros antigos de infância e os cadernos escolares, os brinquedos e jogos esquecidos, estão ali guardados no sótão ou em qualquer outro lugar e parecem que voltam a ganhar uma vida própria, como em ‘Toy Story’. Talvez seja esse o momento, em que sentimos que a nossa infância terminou e que ficamos realmente sozinhos para enfrentar o mundo e a nossa finitude. E a realizadora, lida com isso com suavidade e uma enorme destreza, num filme pequeno, mas muito grande de sentimentos e emoções. As duas protagonistas, as duas crianças, as gémeas Joséphine e Gabrielle Sanz, de 8 anos, são lindas, credíveis e absolutamente maravilhosas na sua interpretação. Dão uma lição a muitos actores. ‘Petite Maman’ é um filme silenciosamente especial e profundamente ressonante.

VÊ TRAILER DE ‘INTRODUCTION’

Mas houveram outros títulos que amei como ‘Introduction’, o regresso pelo segundo ano consecutivo à Competição, do cineasta coreano Hong Sangsoo (‘A Mulher Que Fugiu’). Agora com um filme muito simples e muito semelhante aos seus anteriores, onde explora à arte dos aforismos, mas desta vez de uma forma circular. ‘Introduction’ é mais uma pequena jóia poética e filosófica de encantar, a preto e branco, realizada entre Berlim e Seoul. Duas mães tentam lançar os seus filhos, os jovens Youngho e Juwon na vida vida adulta, mas estes decidem por eles próprios fazer a sua própria iniciação (ou introdução). Evidentemente, um pouco aos tropeções, como todos os jovens da actualidade e em todo o mundo, que querem ou têm naturalmente de sair de um ninho, para seguir os seus futuros. Mas a coisa não está fácil para os dois jovens protagonistas. No entanto, como a maioria dos sábios mestres orientais, Hong fala e aconselha-os, através do velho ator quando este diz a Youngho: ‘Por menor que seja, não há nada além do bom! Assim é a vida e a preciosidade do cinema de Hong Sangsoo.

HISTÓRIAS DO ARCO-DA-VELHA

‘Wheel of Fortune and Fantasy’, de Ryusuke Hamaguchi, segue mais ou menos o conceito do resto da obra do realizador japonês ou pelo menos dos seus dois filmes anteriores: ‘Happy Hour’ (2015) e Asako I e II (2018): a duplicação, o espelhamento de personagens femininos e incertezas em relação ao amor. Relativamente aos seu trabalhos anteriores e numa analogia literária este novo ‘Wheel of Fortune and Fantasy’, poder ser considerado como uma colectânea de três contos e o ritmo recorrente do filme amplifica esse efeito, mesmo não havendo nenhuma ligação entre as histórias e personagens. Os três episódios ou contos, são cada um deles em torno de uma mulher e por sua vez são divididos em três movimentos, como se fossem uma peça musical. O primeiro é a história de um triângulo amoroso inesperado, entre três jovens; o segundo uma armadilha de sedução fracassada entre uma aluna e um professor de literatura e também escritor de sucesso;  e o terceiro, um encontro entre duas mulheres, que resulta de um mal-entendido e que acabam por ter algo a dizer uma à outra. A fragmentação da histórias parece servir mesmo para enfatizar, em vez de minar, a narrativa primorosamente orgânica e a mise-en-scène, simples e eficaz e com poucas personagens em cena.  A maior parte da(s) ação(ões) decorre um único espaço (interior, exterior ou num táxi) e envolva apenas dois ou três atores, mas nunca ficamos com a sensação de que estamos a ver teatro-filmado. O segredo está não só na escrita do argumento, mas também na noção de uma temporalidade mais complexa, pois cada episódio flerta com o futuro, com a ficção científica, com uma Tóquio futurista e asséptica, com o tal vírus informático, que provoca o caos e também afecta os sentimentos. As cenas que presenciamos ‘Wheel of Fortune and Fantasy’, cristalizam destinos universais, marcados por escolhas, arrependimentos, decepções e coincidências de nós próprios ou de gente ou histórias que conhecemos.

VÊ TRAILER DE ‘ WHEEL OF FORTUNE AND FANTASY’

Dois dos títulos mais apreciados da competição, pelas críticas que li nos media internacionais foram ‘Mr Bachmann and His Class’, da alemã Maria Speth (Urso de Prata/Prémio Especial do Júri) e ‘What Do We See, When We Look at the Sky?’, do georgiano Alexandre Koberidze.  Mesmo não sendo dos meus favoritos têm der ser destacados pela sua diferenciação, embora ache que são demasiado longos na sua mensagem, sobretudo vistos no contexto de um festival. Talvez e já estão comprados para Portugal tenha cabeça, para os ver numa sala de cinema e com outra disponibilidade. ‘Mr Bachmann and His Class’, de Maria Speth, é um documentário muito simples sobre a figura de Dieter Bachmann, um professor que vive numa cidade industrial da Alemanha, e que lecciona na sua classe constituída por alunos adolescentes de origem turca e de outras origens de imigrantes.  Temos três horas e meia de duração — talvez demasiado tempo — para conhecermos os alunos e as motivações do professor singularmente descontraído, profissional, compreensivo e pedagógico. Uma crónica do real sobre um tipo raro que gosta realmente daquilo que faz, que naturalmente nos conquista pela sua paciência e empatia. ‘What Do We See, When We Look at the Sky?’, do georgiano Alexandre Koberidze é um filme fabulosamente imaginativo e levemente otimista. É meta-conto de fadas, excêntrico como todas as fábulas, sobre um casal cujo romance nascente é logo destruído por uma maldição que muda sua aparência. Curiosamente o filme passa-se num cenário de uma cidade, que se prepara para receber um Mundial de Futebol. Quaisquer toques de capricho e estranhas aparições como cães que gostam de jogar futebol são contrabalançados por uma elegante invenção ao nível da realização e narrativa. Pelo andar da carruagem e pelo que li este é um dos filmes que certamente marcará o cinema de arte e ensaio europeu deste ano, por causa da sua forma irresistivelmente lúdica e fora-da-caixa.

VÊ TRAILER DE ‘WHAT DO WE SEE, WHEN WE LOOK AT THE SKY’

E este filme mesmo não sendo de todo a minha praia, deu-me uma a absoluta sensação de novidade numa seleção que me deixou já na expectativa de uma Berlinale 2022, no próximo ano, que espero se realize já presencial, sem máscaras e sem limitações sanitárias. Esta semana se puder, ainda vou tentar escrever, sobre a secção competitiva Encouters, que me pareceu bastante desafiadora e sobretudo aberta a novos caminhos no cinema, esperando mesmo ver (já os vi!!) alguns desses filmes em breve, pelo menos na programação dos dois maiores festivais de cinema de Lisboa (IndieLisboa 2021 ou DocLisboa 2021).  Quanto à participação portuguesa, foi escassa, mas digna, apesar de de a maioria estar fora das secções competitivas. Só ‘Luz de Presença’ é que esteve na Berlinale Shorts. Mesmo correndo o risco de ser acusado de fazer discriminação de géneros e logo hoje, Dia Internacional das Mulheres, a minha primeira mensagem vai para as senhoras: queria endereçar os meus parabéns aos artistas portugueses, presentes na Berlinale 71, Susana Nobre, Alba Baptista, Diogo Costa Amarante e Welket Bungué. Espero que corra tudo bem para todos, e até Cannes em julho, senão até para o ano na Berlinale!

O MELHOR DA BERLINALE 71

MELHORES FILMES DA COMPETIÇÃO

‘Petite Maman’, de Céline Sciamma

‘Memory Box’, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige

‘I’am Your Man’, de Maria Schrader

‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, de Radu Jude

‘Introduction’, de Hang Sangsoo

‘Wheel of Fortune and Fantasy’, de Ryusuke Hamaguchi

‘Una Película de Policías’, de Alonso Ruizpalacios

‘Natural Light’, de Dénes Nagy

‘Ballad of a White Cow’, de Behtash Sanaeeha e Maryam Moghaddam

MELHOR ARGUMENTO

‘Wheel of Fortune and Fantasy’ de Ryusuke Hamaguchi: um tríptico japonês de histórias soberbamente elaboradas sobre adultos interagindo, num conjunto carregado de ironia e de campos emocionais bem armadilhados. (Competição)

MELHOR DESCOBERTA

‘The Girl and Spider’, de Ramon e Silvan Zürcher: uma espécie de jam session sedutora de várias personagens, repleta de uma tensão formal entre movimentos, olhares, sons, cores e detalhes, que se apoiam mutuamente como se fossem um estonteante castelo de cartas. (Encouters)

MELHOR FILME SOBRE A PANDEMIA

‘Higiène Sociale’ de Denis Côté: apesar de tudo um filme que é testemunha e ao mesmo tempo desafiadoramente livre e em relação à pandemia usando-a como a mãe da invenção quando se trata de criar formas narrativas e cinematográficas. Ou como manter as distâncias no cinema. (Encounters)

MELHORES INTERPRETAÇÕES

As pequenas gémeas de 8 anos, Joséphine e Gabrielle Sanz em ‘Petite Maman’, dão lições a muitos actores; são todas fabulosas e desconcertastes, o conjunto de interpretações dos segmentos de ‘Wheel of Fortune and Fantasy’; corajosa e desafiante a interpretação Maryam Moghaddam em ‘Ballad of a White Cow’, que é também co-realizadora do filme. O incontornável robot pensante de Dan Stevens, em ‘I’am Your Man’. (Competição)

MELHOR FILME MEIO-EXTRATERRESTRE

‘Taste’, do vietnamita Lê Bảo é uma espécie de instalação ou performance art sobre a um sobre um jogador de futebol nigeriano imigrado, que vai morar com um grupo de mulheres locais, um porco e um peixe-espada que acaba comido. Escondidos na escuridão ou melhor numa esplendorosa iluminação e realizado em grande parte com o nu dos corpos imperfeitos, este filme hipnotizante e estranho, pôr-nos a viajar como num sonho febril e que é mais um daqueles filmes que gostava de voltar a ver num ecrã grande como o de Berlim ou do Cinema São Jorge, em Lisboa. Acho que não vai ser difícil?

O PIOR DA COMPETIÇÃO

A impossibilidade de vermos na plataforma, dois filmes que estavam em competição e ambos de origem alemã (afinal só houve 13 filmes em competição para a imprensa analisar?): ‘Next Door’, a primeira longa-metragem como realizador do ‘actor multinacional’, Daniel Brühl; e ‘Fabian-Going to the Dogs’, de Dominik Graaf, baseado num dos maiores romances alemães do tempo da República de Weimar.

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

One thought on “71ª Berlinale, em análise ou melhor e o pior

  • Bom resumo desta Berlinale!

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