O Corcunda de Notre Dame © Walt Disney Pictures

Catedral de Notre Dame | Os filmes mais memoráveis

Um mês depois do incêndio que destruiu grande parte de Notre Dame, decidimos reunir um conjunto de filmes imperdíveis sobre a representação da catedral no cinema. No dia 15 de abril, Paris e o mundo choraram pela Catedral de Notre Dame. Choraram a quase total destruição de um dos monumentos arquitetónicos mais emblemáticos da história da Humanidade, aquele que era o monumento mais visitado da Europa, e até um dos mais visitados do Mundo. Eram cerca de 15 milhões de turistas que todos os anos visitavam a catedral gótica.

O incêndio destruiu o pináculo, a designada flecha de Notre Dame, uma torre de 93 metros, que foi em tempos uma das construções mais altas da cidade de Paris. Além disso, no edifício histórico da Catedral de Notre Dame foram também destruídos o teto e as rosáceas da catedral. Entre as relíquias que sobreviveram ao incêndio destaque para a coroa de espinhos de Jesus Cristo. Mesmo assim, não conseguimos imaginar tamanhas perdas para a cultura, nem para a arte.

Notre Dame
Incêndio na Catedral de Notre Dame (15/04/2019)

Para relembrarmos a magnificência perdida e morta da Catedral de Notre Dame, a equipa da MHD juntou-se para escolher os melhores filmes sobre o monumento. Com 856 anos, é mais do que normal que a Catedral de Notre Dame tenha aparecido no cinema por muitas vezes. Aliás Paris, como berço do edifício, foi também o berço do cinema, graças aos irmãos Lumière.

Das adaptações da obra “O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo publicada em 1831, aos restantes filmes em que a Catedral de Notre Dame aparece em plano mais secundário, existem muitos, mas mesmo muitos projetos que trespassam a grandiosidade de Notre Dame, a catedral de Nossa Senhora, mãe de Jesus. E para começar este artigo tão especial, nada melhor uma das citações parafraseadas da obra de Victor Hugo, “Nossa Senhora de Paris“.

Grandes edifícios, como grandes montanhas, são obra de séculos (…) O artista, o indivíduo, é apagado por estas grandes massas, que carecem do nome do seu autor; a inteligência humana está lá resumida e totalizada.

Enfim, momento agora de reconstrução e de reflexão sobre a importância de edifícios como este no espaço social, no imaginário e no cinema. Conheçamos então os melhores filmes sobre a Catedral de Notre Dame, que celebram um monumento que nunca mais será o mesmo, e que no fundo celebram os ideias parisienses e franceses!




“Notre Dame de Paris” (Albert Capellani, 1911)

Notre Dame
Notre Dame de Paris

O cinema nem tinha 20 anos de existência oficial, quando a Pathé, a conhecida distribuidora francesa, produziu o primeiro filme inspirado na obra de Victor Hugo “Nossa Senhora de Paris”. Com apenas 36 minutos, esta ‘curta-metragem’ de 1911 foi protagonizada por Henry Krauss, como Quasimodo, e Stacia Napierkowska, como Esmeralda.

A cópia principal do filme é considerado perdida. Mesmo assim existe uma versão online (ver aqui!) que não é a cópia principal. O mais destacado na época sobre o filme nem tinha a ver com a Catedral de Notre Dame, mas sim com a dança de Stacia Napierkowska. A atriz e bailarina chegou mesmo a ser presa porque a sua dança era considerada indecente na época. Vejamos as outras adaptações de “O Corcunda de Notre Dame” e de que modo representam a famosa catedral de Nossa Senhora.




“Nossa Senhora de Paris” (Wallace Worsley, 1923)

Notre Dame
Nossa Senhora de Paris

Em 1923 foi realizada a primeira versão americana de “The Hunchback of Notre Dame”(Wallace Worsley, 1923). Lançado pela Universal, esta versão foi considerada a sua jóia do ano de 1923, além de ser sido o filme mudo de maior sucesso do estúdio, ao angariar 3,5 milhões de dólares.

O êxito em torno do filme foi a prova de que Notre Dame começava também a entrar no imaginário dos espectadores americanos, muito graças aos grandes cenários do filme que recriavam a cidade de Paris do século XVI.

O ator protagonista, Lon Chaney foi ainda elevado ao estatuto de estrela em Hollywood depois do seu desempenho como Quasimodo. Na verdade, pela dificuldade em criar efeitos especiais na época, Chaney usou todos os dias durante os longos três meses de rodagem do filme uma desconfortável corcunda de gesso que contava com uns impressionantes 9 quilos, além de uma prótese de rosto e olhos falsos.

Curiosamente em “The Hunchback of Notre Dame” não vemos a verdadeira catedral, uma vez que todos os detalhes de produção e os estrondosos cenários foram construídos dentro dos estúdios da Universal.




“Um Americano em Paris” (Vincente Minnelli, 1951)

Notre Dame
“Um Americano em Paris” com Notre Dame como pano de fundo

Notre Dame não foi mostrada apenas nas adaptações de “Nossa Senhora de Paris”. A majestosa catedral foi também pano de fundo de vários filmes americanos do cinema clássico, entre os quais “Um Americano em Paris” faz parte. Este filme sobre um americano em Paris, segue o soldado Jerry Mulligan (Gene Kelly) que decide ficar em Paris quando a II Guerra Mundial acaba e tentar vingar-se no mundo artístico como pintor. Divide um modesto apartamento com Adam Cook (Oscar Levant) que, por seu lado, tenta fazer carreira na música.

Mas a trama começa a complicar-se quando Jerry tem de decidir entre o patrocínio de uma sofisticada mulher americana, Milo Roberts (Nina Foch), e o fascínio pela jovem francesa Lise Bouvier (Leslie Caron). Para agravar o dilema, Lise está noiva do seu amigo Henri (Georges Guétary), o célebre actor do “music-hall”. As imagens de Notre Dame em “Um Americano em Paris”, de Vincente Minnelli são curtas, mas não deixa de fazer-nos levar pela magnitude do edifício.

Destaque neste filme obviamente para a sequência de 17 minutos de dança, no final do filme, que demorou mais de um mês a filmar.




“Nossa Senhora de Paris” (Jean Delannoy, 1956)

Nossa Senhora de Paris
Gina Lollobrigida

Protagonizado pelo ator Anthony Quinn e pela estrela italiana Gina Lollobrigida, “Nossa Senhora de Paris” é um filme franco-italiano e mais uma das adaptações do romance de Victor Hugo. Esta foi a primeira versão do romance a ser adaptada ao grande ecrã completamente a cores, e das poucas a ter um final completamente distinto da obra. As críticas ao filme no seu ano de estreia foram bastante severas, mas hoje ainda existem muitos admiradores desta obra, restaurada em 2006.

Como era tradicional para a época, os protagonistas desta história são os únicos atores a falar em inglês, o restante elenco era composto por atores franceses e por isso as suas vozes foram todas dobradas para inglês.

Importa destacar que a interpretação de Anthony Quinn como corcunda de Notre Dame é mais humana e menos horrorífica das adaptações prévias, vendo desde logo pela sua caracterização menos assustadora.




“Charade” (1963)

Notre Dame
Cary Grant e Audrey Hepburn

Filme americano realizado por Stanley Donen, “Charade” é protagonizado por Cary Grant, naquele que seria o seu penúltimo papel, e por Audrey Hepburn. Em Paris seguimos Regina Lambert que está prestes a divorciar-se do seu marido, quando descobre que ele foi misteriosamente assassinado durante uma viagem de comboio, depois de ter roubado 250 mil dólares que entretanto desapareceu. Regina é entretanto ajudada por Peter Joshua, que aparentemente pode também ter interesses no dinheiro desaparecido.

“Charada” foi considerado pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema como um fabuloso “divertimento”, inspirado em Hitchcock. Esta é uma história de jogo de simulações e romance, mas que é também notável exercício de suspense, não indigno do mestre. Curiosamente o filme ficou conhecido como “o melhor filme de Hitchcock que não foi realizado por Hitchcock”.




“The Hunchback of Notre Dame” (Michael Tuchner e Alan Hume, 1982)

Notre Dame
Anthony Hopkins irreconhecível em “The Hunchback of Notre Dame”

Outra adaptação de “Notre-Dame de Paris” de Victor Hugo, mas desta vez para televisão, “The Hunchback of Notre Dame” é um telefilme de 1982 que recupera a história do romance gótico.  A realização é de Michael Tuchner e Alan Hume e no elenco contam-se os nomes de Anthony Hopkins, Derek Jacobi, Lesley-Anne Down e John Gielgud.

Ao contrário do normal, o telefilme apresentou um final completamente distinto do romance. Não só Esmeralda sobrevive como também beija o corcunda e agradece a sua bondade, antes de fugir com o poeta Gringoire.

Outros acontecimentos também são distintos, mas vale a pena ler a obra e ver o filme para compreender as diferenças. De resto o filme mantém o suspense e desperta o medo no espectador pelo aspeto da personagem de Quasimodo, interpreta por um irreconhecível Anthony Hopkins, que uma vez mais prova a razão de ser considerado um dos melhores atores da história do cinema.




“O Corcunda de Notre Dame” (Gary Trousdale & Kirk Wise, 1996)

Não mencionar a versão do “O Corcunda de Notre Dame” da Walt Disney Pictures de 1996 é quase como ir a Paris e não ver a Catedral de Notre Dame! Belo, inteligente e adulto “O Corcunda de Notre Dame” da Disney foi a 34ª longa-metragem da Disney e o sétimo filme produzido e lançado durante o movimento designado Renascimento da Disney. O filme teve realização de Gary Trousdale e Kirk Wise contado com as vozes de Tom Hulce, Demi Moore, Tony Jay, Kevin Kline e Mary Wickes no seu último papel para o cinema.

O Corcunda de Notre Dame é considerado um dos filmes mais negros da Disney, uma vez que a sua narrativa explora temas adultos como o infanticídio, a vaidade, a condenação, o genocídio e o pecado. Contudo, o filme não deixou de conquistar as audiências da época e rendeu 325 milhões de dólares em todo o mundo, tornando-se o quinto filme rapidamente mais rentável do ano de 1996.

Catedral de Notre Dame
O Corcunda de Notre Dame (1996)

Para acrescentar ao êxito chegaram as tão merecidas nomeações aos Óscares da Academia, nomeadamente para a música escrita e composta por Alan Menken, com canções de Menken e letra de Stephen Schwartz. O resultado mais tarde foi uma adaptação ao teatro que esteve em cena desde 1999 até 2002. Mais tarde, em 2002, Disney lançou uma sequela em vídeo “O Corcunda de Notre Dame II”.

De facto, “O Corcunda de Notre Dame” continua a ser um o filme mais memorável sobre a representação de Notre Dame no cinema, sendo para muitos um dos melhores filmes da Walt Disney Pictures. A história já todos conhecem. Em Paris, durante a Idade Média, vive Quasimodo (Tom Hulce), um corcunda que mora enclausurado desde a infância nos porões da catedral de Notre Dame. Até que, um dia, Quasimodo decide sair da escuridão em que vive e conhece Esmeralda (Demi Moore), uma bela cigana por quem se apaixona. Mas para conseguir concretizar seu amor Quasimodo terá antes que enfrentar o poderoso Claude Frollo (Tony Jay) e seu fiel ajudante Febo (Kevin Kline).




“Antes do Anoitecer” (Richard Linklater, 2004)

De todos os filmes sobre a Catedral de Notre Dame, “Antes do Anoitecer” (2004) acaba por ser o filme mais memorável no sentido em que previu a destruição do edifício. Coincidência ou força do destino, em “Antes do Anoitecer” as personagens de Ethan Hawke e de Julie Delpy, Jesse e Celine, falam sobre a catedral durante um passeio de barco no Sena.

Horas depois do incêndio de Notre Dame, foram vários os meios de comunicação a noticiar o facto peculiar deste filme, como é possível ver na imagem em baixo.

Catedral de Notre Dame
A previsão da destruição de Notre Dame em “Before Sunset”

Mas “Antes do Anoitecer” não é um filme sobre a Catedral de Notre Dame, mas sim da referência da cidade de Paris como a cidade do romantismo e do romance. Afinal é em Paris que dois seres humanos que outrora passaram 24 horas juntos na Áustria, e percebem que continuam apaixonados um pelo outro. “Antes do Anoitecer” desenrola-se nove anos depois de Jesse e Celine se encontrarem pela primeira vez,  voltando a reunir-se pela ocasião especial do lançamento do livro de Jesse.




“Meia-Noite em Paris” (Woody Allen, 2011)

Notre Dame
Owen Wilson e Carla Bruni por detrás da Catedral de Notre Dame

Em “Meia-Noite em Paris”, a Catedral de Notre Dame surge na sequência em que as personagens de Owen Wilson e de Carla Bruni conversam, e esta lhe lê o livro de memórias da personagem de Adriana (personagem de Marion Cotillard). Mas mesmo que o filme não seja sobre a catedral reflete bem os ideias artísticos consolidados na cidade pólo cultural do mundo ocidental.

Realizado por Woody Allen, num dos filmes da sua carreira que integrou o conjunto dos seus filmes filmados pela Europa, em “Meia-Noite em Paris” seguimos Gil e Inez (Owen Wilson e Rachel McAdams), noivos e de visita a Paris. De casamento marcado, eles têm ainda algumas dificuldades em acertar agulhas no que diz respeito à vida em comum. Uma noite, embriagado pela beleza da cidade (e algum vinho), Gil perde-se na cidade e vive a mais extraordinária experiência da sua vida num encontro com personagens que ele julgava existir apenas nos livros e que o farão reformular toda a sua existência social, familiar e até pessoal.




“Ratatui” (2007)

Notre Dame
Ratatui

“Ratatui” (Brad Bird, 2007) é um filme sobre a Catedral de Notre Dame, mas é um filme sobre Paris e sobre a possibilidade dos sonhos se concretizarem em Paris. Afinal na cidade das luzes e dos sonhos um rato pode cozinhar e ser, aliás, o melhor cozinheiro do mundo.

Em “Ratatui” seguimos o rato chamado Remy e quer ser um magnífico chefe de cozinha mesmo contra a vontade da sua família e o maior problema do mundo: ser uma profissão em que os ratos são um alvo a abater. Quando o destino o leva até Paris, Remy vai parar ao sítio dos seus sonhos: um restaurante famosíssimo graças ao seu chefe, Auguste Gusteau. Apesar de todos os perigos por ser um convidado indesejado na cozinha de um dos restaurantes mais chiques de Paris, Remy cria uma parceria inesperada com Linguini, o rapaz do lixo, que, por acaso, descobre os talentos secretos de Remy.

A Catedral de Notre Dame entra no filme por uns curtos segundos, apenas quando Skinner, um dos vilões da história, espia Linguini na tentativa de cruzar-se com o rato Remy (ver imagem).




“The Walk – O Desafio” (Robert Zemeckis, 2015)

Notre Dame
Phillipe Petit em The Walk – O Desafio

Em “The Walk – O Desafio”, Robert Zemeckis filma a história verídica de Phillipe Petit, o funambulista francês que atravessou ilegalmente as torres gémeas do World Trade Center, em 1974. Mesmo assim, a imagem que vemos acima, retirada do filme, é do momento em que Phillipe Petit interpretado por Joseph Gordon-Levitt atravessa também ilegalmente as duas torres da Catedral de Notre Dame.

Depois de muito treino, e de aperfeiçoar a sua técnica, Phillipe Petit realizou um acto de equilibrismo na catedral de Notre Dame a 26 de junho em 1971. Com a ajuda de um amigo, colocou o cabo entre as torres durante a madrugada e realizou a travessia nas primeiras horas da manhã, a uns impressionantes 68 metros de altura.

Embora o filme tenha sido bem recebido pelas críticas, poucos ainda falam dele. Mesmo assim “The Walk-O Desafio” é um hino à magnificência dos edifícios mais belos do mundo criados pelo ser humano, sejam as Torres Gémeas do World Trade Center desaparecidos nas circunstâncias que todos conhecemos, seja à Catedral de Notre Dame que desde há um mês já não é a mesma de outrora. Um filme para ver e sentir o espectáculo e a ousadia de um homem que foi contra tudo e contra todos para unir o que jamais poderá ser separado: a arte arquitetónica.

Menções honrosas para outros tantos filmes em que a Catedral de Notre Dame é protagonista: “Os Aristogatos” (Wolfgang Reitherman, 1970), “O Fabuloso Destino de Amélie” ( Jean-Pierre Jeunet, 2001), “Van Helsing” (2004), “Missão: Impossível – Fallout”.

Não há como negar o poder da Catedral de Notre Dame no cinema! Qual é o teu filme favorito em que a Notre Dame aparece?

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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