Al Pacino em “O Irlandês” © Netflix

O Irlandês e a evolução dos efeitos especiais no cinema atual

“O Irlandês” de Martin Scorsese é um dos mais recentes filmes a apostar tudo no desenvolvimento das novas tecnologias na sétima arte.

2019 fecha mais um ciclo na evolução dos efeitos especiais no cinema, ao mesmo tempo, que pisca o olho para aquilo que veremos num futuro próximo ao nível das imagens digitalmente criadas. Como sabemos, os efeitos especiais tiveram um papel crucial ao longo deste ano, daí que a Magazine.HD tenha decidido comentar os grandes inovadores tecnológicos do cinema atual. “Captain Marvel”, de Anna Boden & Ryan Fleck, “Vingadores: Endgame”, de Anthony Russo e Joe Russo, “Projeto Gemini”, de Ang Lee e, por último “O Irlandês”, de Martin Scorsese têm sido os filmes mais comentados nos últimos meses neste domínio, os dois últimos por investirem na tecnologia vanguardista do rejuvenescimento dos atores. Mas, quando e como é que surge esta obsessão pelos efeitos especiais e visuais no cinema atual?

O Irlandês
Robert De Niro rejuvenescido em “O Irlandês” © Netflix

Mais humano do que o humano, assim nos fez crer Ridley Scott com “Blade Runner” em 1982, e é até aí recuamos. Estamos numa década em que os avanços tecnológicos começavam a ganhar ainda mais força no cinema norte-americano, sobretudo pelo surgimento da tecnologia de computação gráfica (computer-generated imagery, habitualmente conhecida como CGI). Ao longo dos anos 80, foram surgindo obras que inovavam sobretudo pelos efeitos visuais. “E.T. – O Extra-Terrestre” (1982), “Tron” (1982), “Os Caça-Fantasmas” (1984), “O Regresso ao Futuro” (1985), a trilogia “Indiana Jones” (1981; 1984; 1989) e “O Exterminador Implacável” (1984) são apenas alguns dos exemplos que quase todos nós já tivemos oportunidade de assistir.

Já na década seguinte, surgiria um dos mais importantes filmes para a história (e aposta dos estúdios norte-americanos) nos efeitos especiais. Falamos precisamente d’“O Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento” (1991). Com ele, James Cameron apresentava, pela primeira vez, um dos efeitos especiais mais extraordinários, que deixaria espectadores em todo o mundo boquiabertos e completamente rendidos. Falamos do robô de metal T-1000 (interpretado pelo ator Robert Patrick), capaz de se regenerar.

Partes dos efeitos ainda foram produzidos sem a utilização da computação gráfica, mas os efeitos da metamorfose da personagem foram realmente gerados nos computadores da Industrial Light & Magic (ILM), empresa norte-americana revolucionária neste campo. Em baixo, podes assistir ao capítulo do programa Hollywood FX Masters, apresentado por Christopher Reeve, o mítico Super-Homem.

Os efeitos visuais de Exterminador Implacável 2

Já passaram quase 30 anos desde que foram apresentados esses efeitos, hoje vistos com alguma normalidade pela geração de jovens dos anos 2000, confrontada dia a dia com imagens e grafismos tecnologicamente desenvolvidos, não só aqueles vistos no grande ecrã. Mesmo assim, é importante mencionar esta trajetória dos efeitos especiais no cinema atual, que resultaria em transformações não só ao nível das imagens, mas também na forma como a história é contada. A imagem, no cinema de hoje, já não precisa de ser uma imagem visível ou a chamada imagem real, mas pode ser uma imagem “especial”, a dita imagem virtual, que só existe pela evolução dos códigos de computação gráfica nos anos 80.

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Atualmente, falar dos cineastas dessa geração, como James Cameron, Steven Spielberg, George Lucas, Robert Zemeckis pode ser visto como algo antiquado, mas é certo que entre tantos novos cineastas são eles que continuam a fazer a diferença e a propor inovações tecnológicas no cinema de hoje.

James Cameron, por exemplo, tem apostado milhões de dólares na tecnologia de captura de movimento e do seu mundo “Avatar”, cujas sequelas estão planeadas para os anos de 2021, 2023, 2025, 2027… Apesar dos efeitos visuais não serem um mero adereço, “Avatar” figura como filme importante no debate proposto por Cameron entre a tecnologia e a natureza. Nesse filme, a humanidade usa a tecnologia para extrair um mineral precioso de Pandora, e embora a atividade seja benéfica para a nossa espécie, ela ameaça a existência do povo azul Na’vi e causa danos às plantas e animais da região.

Avanços Tecnológicos no cinema
Sam Worthington em “Avatar” (2009) © Twentieth Century Fox

Mesmo que atualmente isolado sobre o desenvolvimento das sequelas de “Avatar”, não poderemos esquecer que James Cameron foi também responsável pela reconstrução do magnífico e épico navio Titanic (tragicamente desaparecido em 1912), num filme que consagrou Leonardo DiCaprio e Kate Winslet como estrelas de cinema. Para “Titanic”, Cameron não apenas utilizou sofisticados efeitos especiais gerados por computador, como também construiu enormes cenários para aumentar o realismo, além de ter arriscado a vida ao mergulhar no oceano Atlântico para capturar os destroços do verdadeiro Titanic e a partir daí mostrar aos espectadores um tesouro desaparecido.

No mesmo nível de James Cameron poderemos encontrar Robert Zemeckis, também ele inovador na tecnologia de captura de movimento com filmes como “Polar Express” (2004). A obra mítica sobre o Natal, também lançou o formato moderno do 3D digital, que o realizador continuaria a apostar em filmes com imagens subtilmente alteradas como “Decisão de Risco” (2012) e “The Walk – O Desafio” (2015). O mesmo fez antes Martin Scorsese com “A Invenção de Hugo” (2011), onde a tecnologia 3D foi levada aos seus limites, utilizando-a como dispositivo narrativo para contar os primórdios do cinema na cidade de Paris, em especial reenviando-nos para a magia dos filmes de Georges Méliès.

Asa Butterfield em “A Invenção de Hugo” (2011) © GK Films

Tudo isto para dizer que os principais cineastas e inovadores tecnológicos do cinema atual começaram também a confrontar o espectador com o peso da História e da memória, no sentido em que aquilo que antes obteve importância arquitectónica e artística, e que seria depois destruído, pode renascer no cinema. Se por um lado, alguns cineastas têm utilizado os efeitos especiais para reconstruir cidades inteiras, por outro, vários artistas procuraram explorar mais a metamorfosear os corpos dos atores do ponto de vista digital (em todos os seus limites!).

A captura de movimento, também designada motion capture ou performance-capture, tem sido privilegiada nesta lógica, uma vez que permite gravar os diferentes movimentos dos atores e utilizá-los depois para criar personagens digitais. Esta tecnologia que visa a naturalidade e fluidez dos movimentos corporais e faciais, foi desenvolvida pelos estúdios da Walt Disney aquando da produção das  suas animações clássicas, no entanto, só seria aprimorada no início do século XXI com os filmes de “O Senhor dos Anéis” (2001; 2002; 2003). A partir daí, a captura do movimento do ator já não precisava de ser feita longe da ação fílmica e acontece no centro da ação, dando à personagem essa dimensão de carne e osso e tanto se procurava.

É isso que vemos com Gollum, King Kong ou Caesar, icónicas personagens interpretadas por Andy Serkis, mas convém não esquecermos Thanos (um surpreendente Josh Brolin),  o vilão dos últimos dois filmes de “Avengers” da Marvel, ou a protagonista meio humana, meio andróide do recente “Alita: Anjo de Combate”, interpretada por Rosa Salazar.

Assista a seguir a um vídeo que reúne os principais trabalhos da Weta Digital, a maior empresa neozelandesa de efeitos visuais, que não tem parado de apostar na técnica da captura de movimento no cinema e na televisão.

 “O Irlandês” e outros efeitos especiais no cinema em 2019

Nas palavras de James Cameron, esta “pura forma de criação” começou a influenciar um outra inovação tecnológica do cinema contemporâneo: o rejuvenescimento dos atores. A técnica de de-aging, possibilitada pela edição digital da imagem ou pelo recurso às técnicas do CGI, começou a crescer nos últimos anos e parece ter vindo para ficar. Durante a maior parte da história do cinema, fazer o ator parecer mais jovem foi algo alcançado através de esforços mais práticos, como a maquilhagem e o guarda-roupa. No entanto, em meados dos anos 2000 as coisas começaram a mudar. A tecnologia permitiu os grandes estúdios de Hollywood experimentar os efeitos visuais para reverter o relógio natural dos atores nos seus filmes.

A inovação surgiu, curiosamente num filme de super-heróis (que Martin Scorsese não é certamente fã): “X-Men: O Confronto Final” (Brett Ratner, 2006). Numa das suas cenas de flashback, as personagens Professor X e Magneto, interpretadas por Patrick Stewart e Ian McKellen respetivamente, foram rejuvenescidas com base em fotos de quando eram mais novos. Os seus narizes e as suas orelhas foram encolhidos e as suas rugas faciais foram suavizadas. Mesmo passada uma década, as imagens continuam a ser credíveis para os espectadores. A maioria dessa tecnologia de-aging foi conseguida pela Lola Visual Effects, consagrada pela suas parcerias, quase exclusivas, com a Marvel Studios e com a série X-Men.

Este filme em particular fez nascer a obsessão por caras jovens de atores mais velhos e a técnica voltaria a ser utilizada no extraordinário caso de Brad Pitt em “O Estranho Caso de Benjamin Button” (David Fincher, 2008). Na última década, o rejuvenescimento ganhou maior destaque com Orlando Bloom em “The Hobbit: A Desolação de Smaug” (2013),  Arnold Schwarzenegger em “Terminator Genisys” (2015), Carrie Fisher e Peter Cushing em “Rogue One: Uma História de Star Wars” (2016), Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, e Laurence Fishburne em “O Homem-Formiga e a Vespa” (2018), Samuel L. Jackson e Clark Gregg em “Captain Marvel” (2019), para não falar de “Vingadores: Endgame”, que no total conta com mais de 200 planos (algo que não deves ter pensado!) e que parecem levar a alteração da idade dos atores na desportiva e com muita, mesmo muita, normalidade.

Efeitos especiais no cinema
Arnold Schwarzenegger em “Terminator Genisys” (2015) © Paramount Pictures

O problema surge quando os filmes que apostam nestes efeitos visuais de rejuvenescimento dos atores são constantemente promovidos precisamente por essas suas imagens especiais e visuais. Talvez porque revolucionam demasiado, os seus responsáveis e distribuidoras esquecem-se que é sempre uma boa história que marca a diferença e o que mais importa para os espectadores.

Foi isso que aconteceu há menos de dois meses com “Projeto Gemini”, um completo fracasso de bilheteiras, mesmo com a sua tecnologia tão inovadora. O filme em que Will Smith interpreta um agente secreto perseguido pelo seu clone mais jovem (interpretado também pelo próprio Will Smith rejuvenescido), teve um orçamento de 138 milhões de dólares, e só obteve pouco mais de 170 milhões, além de terem sido gastos aproximadamente 100 milhões de dólares. Para a obra, Ang Lee (“A Vida de Pi”) gravou nas designadas câmaras ARRI Alexa, à velocidade de 120 frames por segundo (FPS), com resolução 4K das câmaras 3D de última geração, promovido como “3D+”.

Os efeitos especiais de “Projeto Gemini” podem ser conhecidos com detalhe no vídeo abaixo, mas é desde já importante referir que todos os movimentos e expressões de Will Smith, embora cem porcento digitais,  são baseadas no repertório de imagens e vídeos de trabalhos prévios do ator, como por exemplo, “O Príncipe de Bel-Air”, série de culto dos anos 90, entre outros.

Efeitos especiais de rejuvenescimento de Projeto Gemini

Além do envelhecimento da narrativa, os retoques cosméticos digitais também estão a ganhar destaque no cinema atual. Martin Scorsese numa recente entrevista à publicação britânica “Sight & Sound” disse que a tecnologia CGI para o rejuvenescimento de atores poderia substituir as horas perdidas na sala de maquilhagem. Além disso, para Scorsese, os VFX de rejuvenescimento dos atores, permitem ao realizador e ao intérprete um melhor controlo da performance, que a maquilhagem e as próteses de silicone, porque já não há limitação das expressões faciais do ator. Foi isso que Martin Scorsese fez com “O Irlandês”, a estreia desta semana na Netflix.

O filme segue Frank Sheeran, personagem de Robert DeNiro, e das várias pessoas com quem se cruzou na sua vida ao longo de quatro décadas. Martin Scorsese não quis passar, no entanto, por um intenso processo de casting de atores que pudessem interpretar a versão jovens de De Niro, ou de Al Pacino e Joe Pesci que estão também no filme. Tudo, porque a obra convoca épocas pelas quais o realizador e os seus atores passaram. Scorsese não queria gente distante dessa década. Trabalhar nos efeitos especiais de “O Irlandês”, foi um trabalho que envolveu Pablo Helman, especialista da Industrial Light & Magic (ILM) e o diretor de fotografia do filme Rodrigo Prieto – que já havia colaborado com Scorsese em “O Lobo de Wall Street” (2013). Ambos reuniram-se com Scorsese para determinar se a tecnologia do rejuvenescimento seria ou não possível para este drama.

O Irlandês
Jimmy Hoffa (Al Pacino) no Senado. © Netflix

Apesar de um pouco conservadores e cautelosos quando nos toca abordar o rejuvenescimento dos atores no cinema, vale a pena dizer que os limites desta tecnologia até beneficiam “O Irlandês”. Pela aura classicista que envolve os seus atores (Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci são nomes de peso do Novo Cinema de Hollywood, hoje entendido como clássico), o espectador nunca perde a ideia que estamos a ver as recordações angustiantes de um velho homem a confrontar a morte e a olhar para trás no tempo. É como se entrássemos na mente de Frank Sheeran e, através dela, observássemos aquilo que ele imagina de si, ou melhor, do indivíduo que foi noutra época. Daí que a estranheza que envolve a audiência diz respeito ao intuito temático do próprio filme. Este é um filme sobre a morte, sobre a velhice, sobre um Robert DeNiro, um Al Pacino e um Joe Pesci, que jamais voltarão a ser novos, e os atores sabem bem disso.

Mas o que acontecerá quando os estúdios de efeitos especiais puderem alcançar um realismo contínuo com o rejuvenescimento dos atores? Será que o público, e os próprios produtores de cinema irão preferir a ilusão em vez da realidade? Uma eventual resposta teremos com o filme “Finding Jack”, que chegará aos cinemas no início da próxima década. Nesta obra, James Dean (1931 – 1955) será trazido do mundo dos mortos mais de 60 anos depois do seu falecimento, tudo graças ao CGI. Os realizadores Anton Ernst e Tati Golykh, que obtiveram os direitos de imagem do ator para a adaptação do romance de Gareth Crocker, apresentarão James Dean num papel secundário importante, e o seu corpo será criado com recurso a imagens e fotos de arquivo.

James Dean
James Dean em “Fúria de Viver” (1955), um dos seus últimos filmes © Sunset Boulevard

Ironicamente, a companhia responsável pelos delirantes efeitos visuais desta produção, a Worldwide XR detém os direitos de 400 celebridades já falecidas, que poderão regressar digitalmente não só no cinema, mas nas diferentes formas de media existentes. Será que veremos Christopher Reeve (1952 – 2o04) levantar voo de novo como o poderoso Super-Homem? Ou será que Ingrid Bergman (1915 – 1982) a protagonista de um remake de “Casablanca” nos dias de hoje? Será esta obsessão uma nova forma de fazer cinema ou uma nova forma de fazer êxitos de box-office? Será que a tecnologia irá melhorar ao longo do tempo ou terá sempre os seus limites?

Enfim, os efeitos visuais criados por CGI no cinema atual, mostram bem que as imagens deixaram de ser reconfiguração de velhas práticas cinematográficas de ilusão, e incluem agora novos modelos de compreensão, não só do cinema como do mundo: um mundo evidentemente mais digital e mais virtual onde se tem vindo a construir um entretenimento no domínio do pós-humano.

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