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Grand Tour: Em Busca do Amor Perdido plena Croisette

Em ‘Grand Tour’, o realizador português Miguel Gomes marcou a sua primeira presença na Competição Oficial de Cannes com (mais) uma sedutora história em contexto colonial (agora à inglesa) através de uma viagem pelo oriente da Birmânia a Saigão, passando por Xangai, em busca de um amor perdido.

“Grand Tour” de Miguel Gomes, estreou hoje na Competição Oficial do Festival de Cannes 2024, com grande expectativa pelo menos do pequeno grupo de jornalistas que estamos a cobrir o festival e efetivamente não desiludiu de todo, embora tenha dividido bastante a crítica internacional. Dêem uma volta pelas críticas na net.

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“Grand Tour”, trata-se em primeiro lugar de um diário de viagem, talvez menos experimental e sofisticado, mas igualmente atemporal, na linha de “Tabu”, isto é num contexto colonial. Mas em vez de usar como cenário a ‘África portuguesa’, usa o oriente e personagens de origem inglesa.

Com um discurso lento e pausado típico dos roteiros e da literatura de viagens, “Grand Tour” é impulsionado pela misteriosa e perfeita combinação que cria entre imagens documentais ‘exóticas’, a narração ininterrupta e as cenas com os atores na sua grande maioria concebidas em estúdio. E, para isso, facilitando as coisas usa preto e branco baço e granulado e a neblina húmida, para moldar as imagens que acompanham realmente a história de amor (de base) algo abstrata, sobre uma relação indescritível entre tempo e memória.

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Gran Tour de Miguel Gomes, no Festival de Cannes

Neste caso, trata-se também de uma história de aventuras, inspirada nos velhos romances coloniais ingleses que eram predominantes utilizados como argumentos na era do cinema mudo e nos primeiros tempos de Hollywood.

Mas como um romance de um amor perdido, exige fortes protagonistas, Gomes escolheu uma dupla de atores (Gonçalo Waddington e Crista Alfaiate), convencionalmente atraentes e com quem costuma trabalhar, para encarnar os dois personagens que na verdade nunca se encontram, mas que se projetam no romance.

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O primeiro desses personagens é Edward (Gonçalo Waddington), um funcionário público do Império Britânico. Vamos encontrá-lo na Birmânia no final de 1917, onde recebe um telegrama da noiva Molly (Crista Alfaiate) que não vê há sete anos; finalmente parece ter chegado (pelo menos para ela) a hora de se casarem e Molly em princípio chegará a Rangum no dia seguinte.

Edward impulsivamente e sem qualquer razão aparentemente racional, decide partir antes que Molly chegue, apanhando o primeiro comboio para qualquer lugar. Porém esse comboio descarrila, mas ele emerge dos destroços com um sorriso no rosto, liberto do estrangulamento de uma história da qual conseguiu escapar a tempo.




A partir daí, Edward viaja por vários países do oriente, num percurso que percorre as ruas de Hanói, as montanhas do Japão e sobe o rio Yangtze, na China, entre outros pontos de interesse, muito bem marcados na viagem que leva a crer que a sua fuga não se fez apenas para fugir ao casamento.

Mesmo assim, o ‘noivo fugitivo’ não consegue apreciar a ironia de ser guiado por um homem com três esposas ou a beleza e o esplendor dos fogos de artifício da véspera do Ano Novo, em Saigão. Curiosamente Miguel Gomes corta esta sequência para imagens atuais do mesmo evento mas a cores, o que o torna o efeito mais espetacular, mas menos emocionante.

Edward não parece estar interessado em pensar na poética da sua condição de homem livre. Pelo contrário vai ficando cada vez mais azedo e desanimado e para piorar a situação, uma nova e alegre carta, revela-lhe que a sua destemida noiva vai segui-lo para onde quer que ele vá.

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Depois, na segunda hora do filme, entra Molly (uma alegre e sorridente Crista Alfaiate) e nunca mais vimos o Edward. Passamos a seguir Molly, enquanto esta persegue tenazmente os passos do seu noivo, porém sofre vários ataques de riso (muito esquisitos, aliás) e defende-se dos avanços de um colono solitário e com mau feitio, há muito radicado no oriente. e que está disposto a casar-se com ela logo naquele momento.

Tão tonta quanto Edward está abatido, ambos os noivos parecem ter sido mais felizes enquanto perseguiam o passado, do que enquanto procuravam escapar dele.

Contudo Miguel Gomes não parece disposto a explorar muitos, as emoções de Molly ou de Edward e o filme não cria na verdade qualquer conexão sentimental entre os seus dois personagens. Indiferente aos sentimentos de Molly e Edward, o filme acaba por prestar mais atenção às paisagens e ambientes em que cada um dos amantes está focado em desfrutar individualmente.

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É por isso que “Grand Tour”, parece um pouco vazio de ideias, negando-nos qualquer visão das mentes dos seus personagens, por exemplo em relação ao mundo colonial que estão a explorar nas suas viagens sentimentais. Waddington e Alfaiate parecem nunca ter saído dos limites do estúdio português, concebido especialmente para o filme e nesse aspecto muito com decors perfeitos à época e aos ambientes, onde efetivamente algumas cenas (sobretudo interiores), foram filmadas. As rodagens realizaram-se entre 2020 e 2022 e as primeiras foram com o percurso do personagem Waddington.




Miguel Gomes — que foi forçado a dirigir grande parte delas remotamente por causa da pandemia — consegue genialmente suavizar as diferenças entre os dois mundos, o de época e o atual, filmando-os num deslumbrante tom monocromático e utilizando o formato de 16 mm, que aliás já tinha usado em “Tabu”.

Esta mistura de imagens de estúdio e exteriores mais ou menos comuns numa viagem e numa aventura, reflete a influência dos grandes clássicos da era de Ouro de Hollywood, com os quais “Grand Tour” procura assemelhar-se.

Este efeito contraria deliberadamente essa sobreposição de imagens, chamando mais atenção para a desconexão entre a ideia de ‘Oriente’ no cinema ocidental e a realidade atual de vida, nesses países, como aliás insistentemente é mostrado: a longa sequência do caótico trânsito de motos, o zumbido do trânsito, a sequência de Molly (que nunca se vê), com a ‘médium’, que está vestida e de relógio como na atualidade.

Nenhum esforço de efeitos especiais foi realizado para fazer coincidir imagens das filmagens de época em estúdio e as da viagem na atualidade. E neste caso, ainda bem. “Grand Tour” é mais um belo exercício de estilo de Miguel Gomes, mas longe de ser um dos seus melhores filmes.

Festival de Cannes em direto:

Vale a sua primeira presença na Competição Oficial. Mesmo assim há esperança no que diz respeito a aspectos técnicos e talvez possa vir daí um prémio de contribuição artística.

Grand Tour, em análise

Movie title: Grand Tour

Movie description: "Grand Tour" do realizador português Miguel Gomes é um filme, passado na Ásia em 1917, que retrata o desencontro de dois noivos a partir da antiga Birmânia e por um périplo que, um e outro realizam, vão para tentar (pelo menos para um deles) um reencontro.

Country: Portugal, Itália, França, Alemanha, Japão, China

Director(s): Miguel Gomes

Actor(s): Gonçalo Waddington, Crista Alfaiate, Cláudio da Silva

Genre: Drama, História

  • José Vieira Mendes - 70
70

Prós e Contras

O melhor: Miguel Gomes consegue genialmente suavizar as diferenças entre os dois mundos, o de época e o actual, filmando-os num deslumbrante tom monocromático e utilizando o formato de 16 mm.

O pior: “Grand Tour”, parece um pouco vazio de ideias negando-nos qualquer visão das mentes e pensamento dos seus personagens, por exemplo em relação ao mundo colonial que estão a explorar nas suas viagens sentimentais.

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