©Netflix

‘Blonde’, em análise

‘Blonde’, o fragmentado e experimental ensaio cinematográfico de Andrew Dominik sobre a vida de Norma Jeane (Marilyn Monroe) é tão ousado quanto polémico e cruel. Ana de Armas está extraordinária no papel da grande estrela do cinema, neste ‘biopic’ brilhante e provocador. Disponível apenas (e é pena) na Netflix.

Marilyn Monroe é um dos poucos atores ou atrizes a merecer o adjectivo icónico ou melhor de verdadeira estrela de cinema a nível global, na história do cinema e da cultura ocidental do século XX. Porém nenhuma das estreias no último Festival de Veneza, em setembro passado, foi objeto de tanta especulação e polémica como este experimental ensaio cine-biográfico ficcional — que foge completamente ao estilo dos filmes biográficos mais convencionais e épicos sobre pessoas ilustres — de Marilyn Monroe, realizado pelo australiano Andrew Dominik (‘O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford’, 2007). Têm-se aliás manifestado, muitas preocupações, com os danos à reputação de Marilyn com este ‘Blonde’ — uma verdadeira estrela ou um ‘puta’ de luxo?’ — um filme baseado no romance de Joyce Carol Oates, que estreou entretanto na Netflix, depois da auspiciosa apresentação no Lido de Veneza.

Blonde
‘Blonde’.©Netflix

No entanto, é preciso ver ‘Blonde’, como um filme semi-apócrifo, que narra uma verdade possível, sobre o idolatrado e trágico destino da actriz. Aliás como já aconteceu como ‘Spencer’ (Diana de Galles) ou ‘Jackie’ (Jackie Kennedy), ambos dirigidos pelo chileno Pablo Larraín, filmes que seguem mais ou menos a mesma linha narrativa. ‘Blonde’ começa com a jovem Norma Jeane interpretada por Lily Fisher, de 12 anos, que Dominik dirige como uma criança da era do cinema mudo: chora com a comovente franqueza de uma Jackie Coogan em ‘O Garoto de Charlot’, de Charlie Chaplin. Por sua vez a sua instável mãe (Julianne Nicholson) alimenta-lhe uma fantasia da existência de um pai ausente representado na figura de um galã de matiné (parecido aliás com Clark Gable) através de uma fotografia de um homem suave e algo sombrio, colocada por cima da cama. O primeiro casamento pré-fama de Monroe, com James Dougherty, um polícia de Los Angeles é completamente ignorado. Quando o filme nos apresenta De Armas, no papel de Marilyn, esta já é uma modelo pin-up de sucesso, disputada pelo establishment de Hollywood.

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VÊ TRAILER DE ‘BLONDE’

Uma entrevista com um produtor ou director de estúdio (talvez Joseph Michael Shenck?) termina com um estupro apressado e sem palavras. Os observadores de uma das suas audições, filmada aliás quase num close-up bergmaniano, murmuram que a sua chorosa performance não é muito diferente do que ‘observarem uma paciente mental’. Porém nas duas horas de filme há uma sequência muito forte e polémica, que traz ao de cima essa tal má reputação à figura de Marilyn, mas também ao presidente John F. Kennedy (JFK): Marilyn, já uma atriz consolidada em Hollywood, voa de Los Angeles para Nova York. Assim que o avião aterra, dois guarda-costas colocam-na num carro e a levam-na para a suite de um hotel, onde a espera o presidente JFK: ‘Estou feliz por vê-la, querida. Tem sido um dia infernal’, diz-lhe JFK, deitado em tronco-nu na cama, pondo a mão no bocal do telefone. Ele está ao telefone rebatendo alegações políticas, com um dos seus assessores. Marilyn percebe que há marcas de batom em taças de champanhe, espalhadas pelo quarto. Rapidamente percebe também ou JFK fá-la perceber que a sua vinda ao hotel, é para lhe aliviar sexualmente a grande tensão do momento. Atrapalha-se com as calças dele, mas lá cumpre o seu ‘dever patriótico’. Marilyn, brincando, refere-se a si mesma como o ‘serviço de quarto’.

Marilyn Monroe
‘Blonde’. ©Netflix

Mas a realidade é bastante mais sombria, já que Marilyn voou com um objetivo de satisfazer apenas os apetites sexuais do presidente e portanto está essencialmente sendo traficada ou usada como uma ‘puta de luxo’. Na sua tentativa de falar com o presidente de igual para igual diz-lhe: ‘Não precisa se preocupar comigo’, sorrindo humildemente, para dissipar qualquer medo ou vergonha e sem saber muito bem o que lhe pode acontecer a seguir. Isso resulta numa leve bofetada dele, empurrando-a ao mesmo tempo para baixo, na cama, para fazer um felatio ao presidente. É verdade que ‘Blonde’ ignora aspectos muito mais interessantes e positivos da carreira de Marilyn — o seu talento para a comédia, a sua perspicácia para os negócios etc. — para retratar apenas essa versão mais cinzenta da atriz, que é sensacionalmente interpretada por Ana de Armas, — numa espécie de mártir secular, que não consegue fugir à inevitabilidade do destino. Mas vê-se que é uma opção clara de Dominik, para melhor retratar no geral a contraditória vida de muitas celebridades e famosos. 

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Ana De Armas
Ana de Armas. ©Netflix

A escolha da atriz americana de origem cubana Ana De Armas também levantou de início algumas dúvidas na crítica, principalmente quando o próprio trailer confirmou que ela usaria o seu sotaque natural e não o mais corrente usado na Califórnia. Porém De Armas consegue capturar a tensão entre a impecável superficialidade de Monroe e o seu eu fragmentado interior, sempre com uma extraordinária precisão psicológica e uma real profundidade de sentimentos. Adrien Brody está também fantástico como Arthur Miller, num papel feito à sua medida, do seu olhar nostálgico e inseguro.

Blonde
A multidão cerca Marilyn/De Armas. ©Netflix

Dominik usa igualmente um vasto acervo de fotografias espontâneas e em pose de Marilyn Monroe como inspiração para cenas individuais com De Armas. Ao dar-lhes vida, é como se estivesse libertando novamente essas imagens ‘fetichizadas’,  de volta à sua natureza e ao seu valor icónico e ao mundo dos espectadores e admiradores de Marilyn. As reconstruções dos momentos clássicos do cinema são igualmente notáveis, mas nunca, nem apenas feitas por um simples prazer nostálgico ou saudosismo. Pelo contrario, ajudam a construir a narrativa e a torná-la mais eficaz: por exemplo, durante a sequência de Diamonds Are a Girl’s Best Friend, de Os Homens Preferem as Louras (‘Gentlemen Prefer Blondes’), vemos Marilyn olhando para si mesma no ecrã, como se fosse uma estranha; enquanto na filmagem de uma cena de ‘Quanto Mais Quente Melhor’ (‘Some Like It Hot’) — De Armas é ‘recolocada’ na filmagem original ao lado de Tony Curtis — tornando-se num momento para ela própria refletir sombriamente sobre uma recente perda de gravidez. O famoso momento da saia esvoaçante no set de ‘O Pecado Mora ao Lado’ (‘The Seven Year Itch’) também aparece no filme. Porém Dominik mostra o vestido lenta e sinistramente subindo e descendo repetidamente, como se fosse um clip em looping, de uma explosão de sensualidade.

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Blonde
Ana De Armas é ‘recolocada’ nos filmes originais. ©Netflix

‘Blonde’ é um filme severo e sério e sobretudo uma inteligente visão de Marilyn, quase sem uma falha ou hesitação. É uma biografia moderna, ficcionada e sobretudo desafiante para quem a vê. É pena que não tenha estreado nas salas escuras de cinema, para realmente dar aos espectadores uma outra dimensão mais onírica da magia do cinema e  desta sua grande protagonista. Funcionaria como uma espécie de sonho inquieto ou de um inebriante pesadelo, mais familiar e irreal, que os dispositivos digitais não proporcionam, mesmo que se tenha em casa um grande ecrã. Garanto-vos que sim, porque vi ‘Blonde’, numa grande e cheia sala de cinema!

JVM

Blonde, em análise
Blonde

Movie title: Blonde

Movie description: Baseado no best-seller da cinco vezes finalista do Prémio Pulitzer Joyce Carol Oates, ‘Blonde’ de Andrew Dominik é a história pessoal corajosamente reinventada do símbolo sexual mais famoso do mundo: Marilyn Monroe. O filme é um retrato fictício da modelo, atriz e cantora durante as décadas de 1950 e 1960, contado através da visão moderna da cultura das celebridades.

Date published: 7 de October de 2022

Country: EUA, 2022

Duration: 166 minutos

Director(s): Andrew Dominik

Actor(s): Ana De Armas, Adrien Brody, Lily Fisher, Julianne Nicholson,

Genre: Drama

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  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO

‘Blonde’, o extraordinário filme de Andrew Dominik torna-se num implacável e por vezes até sádico ensaio sobre o poder destrutivo da fama e luxúria. O filme aliás afronta mesmo as ‘cine-biografias’ mais convencionais, reinventando um história terrível, que imagina as mil humilhações e fatalidades sofridas por Marilyn Monroe, mais até do que os seus sucessos. É sobretudo e também um monumental interpretação da actriz cuba-americana Ana de Armas. Uma beleza!

Pros

Ana de Armas, claro, totalmente em sintonia com o estilo onírico e fortemente visual do realizador Andrew Dominik.

Cons

Algumas cenas chocantes — estupro, sexo oral forçado — que podem ou aliás já causaram alguma polémica e até repúdio.

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