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Mean Girls, a Crítica: a comédia adolescente de Tina Fey já não é assim tão “fetch”

Exatamente 20 anos depois da estreia da comédia adolescente “Mean Girls”, que em português recebeu a temível tradução “Giras e Terríveis”, regressamos ao mundo dos grupos estudantis criado por Tina Fey. Desta vez preservamos o título original na distribuição nacional. Quanto à alma deste filme juvenil de culto, não a encontramos em parte alguma. 

Grande ressalva número um: o mais recente remake do filme “Mean Girls” tem dois grandes objectivos. Adaptar a história original para uma nova geração (Z) e levar dos palcos da Broadway para as salas de cinema a versão musical desta história. Ora, bem sabemos que quaisquer impressões acerca de cinema, cultura pop e entretenimento são sempre subjectivas. Mas neste caso, a minha subjectividade é gritante. Como Millennial, com 11 anos de idade aquando da estreia do filme original, enquadro-me numa demográfica específica para esta estreia – aquela que a verá por pura nostalgia e saudades de uma das histórias juvenis mais divertidas, irónicas e capazes de persistir no zeitgeist.

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UM JOGO DE COMPARAÇÕES COM MEAN GIRLS (2004) EM CONSTANTE 1.º PLANO

Mean girls
Lindsay Lohan, Amanda Seyfried, Rachel McAdams e Lacey Chabert em “Mean Girls – Giras e Terríveis”” (2004) |©Paramount Pictures

Para esta demográfica, qualquer nova versão do filme, seja o terrível “Mean Girls 2” de que nos recusamos a falar, e que nem sequer contou com o envolvimento de Tina Fey, ou este novo remake, sofrerá com o peso da constante comparação frenética. Já para a nova faixa etária que poderá descobrir a história, as piadas estarão a ser ouvidas pela primeira vez e tudo poderá, potencialmente, ser novidade. Contudo, perante a incessante repetição de propriedades intelectuais, não deixamos de nos questionar: acrescenta-se de facto algo ao original? Estariam as novas gerações mais bem servidas com a longa-metragem de 2004?

Não é que a versão de 2024 seja desprovida de humor. Certas adições ao argumento acabam por dar o ar da sua graça. E, na realidade, a história de Fey brilha muito mais quando não tenta homenagear incessantemente o filme de 2004. Pois durante a esmagadora maioria desta narrativa adolescente longa de mais (na marca de 1h52), são-nos atirados dezenas de “callbacks” ou piscar de olhos à versão protagonizada por Lindsay Lohan. De um cameo especial à repetição de frases icónicas como “You Go Glen Coco” (Força, Glen Coco), “She doesn’t even go here” (Ela nem sequer anda aqui), “On Wednesdays we wear pink” (Às quartas vestimos rosa) ou “On October 3rd he asked me what day it was” (No dia 3 de outubro perguntou-me que dia era), há uma ênfase particular para o regresso a tudo o que tornou o primeiro filme num símbolo de cultura pop.




Porém, como nos diz o ditado inglês ““Lightning never strikes the same place twice” (o mesmo raio nunca cai duas vezes no mesmo sítio), as piadas estão temporalmente conectadas à versão original desta criação cinematográfica. Um verdadeiro remake criaria novas piadas, em vez de fazer constante alusão ao “fetch”, “groove” e a todos os outros elementos já conhecidos. “Mean Girls” (2024) torna-se auto-referencial com grande frequência, faltando apenas nomear o filme original pelo nome.

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Como se se tratasse simultaneamente de um remake e de uma sequela, um “requel” ou “requela”, à semelhança do termo parodiado por “Scream” de 2022, este novo “Mean Girls” mantém a esmagadora maioria das personagens originais de 2004, com novos intérpretes, claro está mas continua com Tina Fey como Ms. Norbury e Tim Meadows como Mr. Duvall. Acaba-se, com este regresso isolado, a elevar Duvall e Norbury à categoria de viajantes no tempo. Enquanto Cady, Gretchen, Karen, Regina, Damien, Janis e companhia se mantêm na adolescência, as personagens de Fey e Meadows vêem evolução nas suas respectivas linhas narrativas. Desta forma, uma certa sensação fantasmagórica instala-se.

BREVE ATUALIZAÇÃO NA VERSÃO DE 2024

Tina Fey Lorne Michaels 2024
©Paramount Pictures/ NOS Audiovisuais

Cady (Angourie Rice) continua a vir de África, com a sua mãe, desta vez interpretada por Jenna Fischer (“The Office”), para descobrir que a verdadeira selva é antes o palco do liceu nos Estados Unidos, onde os grupos se multiplicam e onde navegar a adolescência não é senão um jogo de popularidade. Por lá conhece, no seu primeiro dia, os afáveis Damian (Jaquel Spivey) e Janis (Auli’i Cravalho, a voz de “Moana”). Como a nova miúda na escola, Cady é um mistério e acaba por atrair a atenção do grupo mais emblemático da escola, “As Plásticas”. Karen Shetty (Avantika), Gretchen Wieners (Bebe Wood) e Regina George (Reneé Rapp). No Secundário, Cady, uma miúda inocente e que foi criada só com a mãe, rapidamente aprende o que são jogos de intrigas, provando de forma irónica que o mau comportamento adquirido em grupo com facilidade pode desvirtuar até a mais virtuosa das pessoas.




Nesta atualização, “As Plásticas” não chegam ao mesmo nível de endeusamento por parte dos pares, refletindo a cultura de fragmentação e de frágeis noções de popularidade que se afirmam. Além disso, o grande segredo de “Janis”, a sua queerness, também é modificado de forma ligeira para que o ciúme e insegurança sejam a locomoção principal para os jogos de vingança em curso. Tirando outras brevíssimas mudanças, o facto desta versão ser um musical é mesmo o que a distingue.

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Recentemente, os musicais têm sido muito mal recebidos no mercado interno norte-americano. Desta forma, é frequente que filmes sejam promovidos com alusões quase nulas à sua natureza cantante e dançante. Aconteceu com “Wonka”, ainda no último mês, e agora com “Mean Girls”. Quiçá um erro, pois esta é a verdadeira razão de existência da nova interpretação. Produzido pelo ‘chefão’ do programa de sketches “Saturday Night Live”, Lorne Micheals, também produtor deste longa, o musical original chegou ao teatro em 2017 e à Broadway em 2008 com escrita de Tina Fey, letras das canções por Nell Benjamin e música por Jeff Richmond. Foi exatamente Reneé Rapp uma das intérpretes de Regina George nesta versão de palco, recuperando aqui este papel.

O CASTING PERFEITO – RENEÉ RAPP NÃO DEIXA REGINA GEORGE FICAR MAL

Mean Girls Paramount Pictures 2024
Reneé Rapp destaca-se como Regina George no novo “Mean GIrls” |© Paramount Pictures/ NOS Audiovisuais

Uma estrela pop em ascensão e um poderio na série “The Sex Lives of College Girls” (de Mindy Kaling), Reneé Rapp é a grande estrela inequívoca desta nova versão e a razão pela qual vale sequer a pena ver o filme. Aliás, teria sido interessante um argumento muito mais removido do original e centrado antes na antagonista da história, que sempre foi a mais enigmática entre as demais. Ao contrário das restantes figuras, que vivem na sombra do original, Rapp dá o seu cunho pessoal a Regina e em nada perde quando comparada à interpretação de Rachel McAdams.




Não sendo os números musicais memoráveis, longe disso, são os de Regina, como a sua apresentação inicial ou a sua performance na festa de Halloween, que ficam connosco, mesmo que por breves instantes. Destaque também para a canção “Apex Predator”, não interpretada por Regina mas sobre esta e a qual contribuiu para o humor sarcástico sobre dinâmicas de liceu. Se achamos que “Mean Girls (2024)” precisava mesmo de existir? Nem por isso, este “universo cinematográfico” está saturado como tantos outros. Se tivermos de elogiar algo? Sem dúvida Rapp.

“Mean Girls”, na sua versão musical, chegou às salas de cinema nacionais a 11 de janeiro de 2024 pela mão da NOS Audiovisuais. 

Mean Girls, a Crítica
Poster Mean Girls versão 2024

Movie title: Mean Girls

Movie description: Da mente cómica de Tina Fey, chega-nos uma nova versão do clássico moderno MEAN GIRLS. A nova aluna Cady Heron (Angourie Rice) é recebida no topo da cadeia alimentar social, pelo grupo de elite das raparigas mais populares, apelidadas de “As Plásticas”, e que é liderado pela abelha mestra da intriga, Regina George (Reneé Rapp) e as suas lacaias Gretchen (Bebe Wood) e Karen (Avantika). Mas quando Cady comete o terrível erro de se apaixonar pelo ex-namorado de Regina, Aaron Samuels (Christopher Briney), fica de imediato na mira de Regina. No entanto, determinada a derrubar a predadora e líder do grupo, Cady, com a ajuda dos seus amigos excluídos Janis (Auli’i Cravalho) e Damian (Jaquel Spivey), acaba por ter de aprender que o melhor é ser fiel a si própria, tudo isto enquanto tenta sobreviver à selva mais cruel de todas: o liceu.

Date published: 15 de January de 2024

Country: EUA

Duration: 1h52m

Author: Tina Fey

Director(s): Samantha Jayne, Arturo Perez Jr.

Actor(s): Reneé Rapp, Angourie Rice, Auli'i Cravalho, Tina Fey,

Genre: Comédia, Musica

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  • Maggie Silva - 55
55

CONCLUSÃO

Em 2024  “Mean Girls” apresenta uma nova versão, o musical de palco existente desde 2017. Este twist poderia ser suficiente para mudar as regras do jogo, mas Tina Fey mantém o argumento demasiado próximo do original e é incapaz de não se perder no jogo de comparações.

Pros

  • Reneé Rapp é uma excelente Regina George;
  • Certas componentes da atualização do argumento permitem a identificação por parte da geração mais jovem.

Cons

  • “Mean Girls” (2024) não descola do original e presta-lhe homenagem a cada segundo.
  • Novos intérpretes habitam os papéis de forma parcial, com uma clara sombra do passado.
  • Os números musicais são aceitáveis, mas tudo menos estrondosos.
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