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Nightmare Alley | Entrevista exclusiva a Cate Blanchett

Cate Blanchett é uma das estrelas de Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas. Falamos em exclusivo com a atriz. 

Já referimos o quanto Cate Blanchett redefine o significado de femme fatale em “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas“, de Guillermo del Toro. Na pele de Lilith, é uma das três mulheres com quem se cruza Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um sonhador marginalizado que não vai parar enquanto para criar um mundo à sua própria imagem. Mas Lilith, uma psicoterapeuta cujos clientes incluem os mais poderosos nomes da alta sociedade americana, pode ser o objeto perigoso perante a força imparável de Stan.

Baseado no romance de William Lindsay Gresham, “Nightmare Alley” conta com argumento de Guillermo del Toro e Kim Morgan. E embora já tenha sido adaptado para o grande ecrã, com o filme “Beco das Almas Perdidas” de 1947 realizado por Edmund Golding, esta nova adaptação atinge um novo nível ao repensar o film noir para o século XXI, como nunca antes havia sido feito.

Carol
Cate Blanchett e Rooney Mara contracenaram juntas em “Carol” © 2015 – StudioCanal

Está é a primeira vez que Cate Blanchett trabalha com Guillermo del Toro, com quem irá trabalhar novamente para a adaptação de “Pinocchio” da Netflix cujo primeiro teaser trailer foi divulgado há alguns dias atrás.

Falar de Cate Blanchett é falar de uma das maiores estrelas do cinema internacional. Tantas vezes colocada na lista das melhores atrizes do mundo, Cate Blanchett já recebeu dois Óscares da Academia – primeiro o Óscar de Melhor Atriz Secundária por “O Aviador” (Martin Scorsese, 2004) e mais tarde com “Blue Jasmine” (Woody Allen, 2013). Além disso, foi nomeada pelos seus trabalhos em “Elizabeth”, “Diário de Um Escândalo”, “Elizabeth: A Idade de Ouro”, “I’m Not There” e claro “Carol”, onde contracenou pela primeira vez com Rooney Mara, também ela vista em “Nightmare Alley”.

interpretação de Cate Blanchett em “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” é já uma das mais comentadas do ano, que a poderá colocar novamente na corrida às estatuetas douradas. Entretanto, tem conciliado o trabalho em obras independentes de autores como Woody Allen, Terrence Malick, Todd Haynes e Richard Linklater , com filmes de grande orçamento, com os quais se sente confortável. São exemplo a trilogia de “O Senhor dos Anéis” (Peter Jackson, 2001, 2002, 2003) e “Thor: Ragnarok”. Também não é indiferente ao teatro, e tem uma longa relação com a Sydney Theatre Company, onde foi responsável pela co-direção artística entre 2008 a 2013. Conheçamos o que tem a dizer sobre o seu novo filme e sobre a sua transformação para “Nightmare Alley”.

A entrevista com Cate Blanchett contém alguns SPOILERS do enredo de “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas“, portanto aconselhamos-te a ver o filme primeiro, que já está em exibição em todas as salas de cinema do país.

MHD: O que lhe atraiu em Nightmare Alley?

Cate Blanchett: Eu não conhecia o romance em que se baseia, mas tinha visto o filme com o Tyrone Power e a Joan Blondell. Sempre adorei histórias, narrativas, imagens que decorrem num circo. Sou atraída por esse tipo de estética fora da caixa, ou seja, por histórias de marginais e forasteiros.

Nightmare Alley
Cate Blanchett e Bradley Cooper em “Nightmare Alley” | ©20th Century Studios

Mas para mim, queria trabalhar obviamente com Guillermo del Toro. Não me importaria o que me pedissem ou sequer qual a história que seria contada. Eu queria estar lá. Eu fiquei igualmente fascinada pelo quão negra é a história. O facto de sabermos que existe um anti-herói como foco. Alguém que quebra as regras e sai impune e, de alguma forma, transforma essa vitória duvidosa num manifesto sobre como é viver uma vida bem-sucedida.

Ele distorce a verdade para seus propósitos de auto-justificação. A mim coube-me interpretar a personagem que o arrasta para esse mundo, porque é a Lilith que obriga o Stan a ver quem ele realmente é. Eu pensei que estaria a correr um enorme risco – parece uma espécie de drama grego envolvente nessa estética gloriosa. Seria surreal se não aceitasse o convite do Guillermo.

Antes mesmo do Stan conhecer a Lilith, ele tem um momento de vitória. No momento em que se despede do circo, esse parece ser o seu final feliz.

Sim, mas não é suficiente. O público está habituado a ver no cinema uma personagem que falha, que pode ser bom e que se tornou mau, ou um vilão que se tornou alguém de bem. Raramente vemos alguém no centro da história que seja um homem 100% oco. Para o Stan nenhuma conquista será suficientemente boa, porque há sempre um vazio moral absoluto no seu íntimo. A vitória num momento só leva a outro desafio ainda maior. Acho que é uma coisa mesmo aterrorizante sobre a personagem que o Bradley Cooper interpreta.

Considero ser muito difícil pedir para um ator interpretar um homem oco. Ele diz: “Estou a mentir e sabes que estou a mentir. Eu sei que estás a mentir e não me importa nada.” É realmente desagradável.

Nightmare Alley
Nightmare Alley © NOS Audiovisuais

E um dos aspectos mais chocantes do “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” é quando o Ezra Grindle revela realmente quem ele é. Achei que Richard Jenkins estava impressionante naquela performance. Quando pensas que já conheceste a personagem mais sombria de todo o filme, que é quando o Stan revela até onde iria, encontras depois o Grindle e ficas surpreendido.

Com Grindle percebemos que há muita escuridão sistémica. O Guillermo e a Kim não nos levam tanto por esse caminho, mas é assustador porque sugerem algo.

Como é que descreveria a Doutora Lilith Ritter?

Ela é muito parecida com o arquétipo da femme fatale. Ela é um pouco ininteligível e ambígua, e cheia de segredos obscuros, mas suponho que a femme fatale é quase como uma sereia que, por nenhuma razão em particular, quer atrair um homem para a sua total perdição. Eu acho que a reviravolta contemporânea que foi inserida nesta história por parte do Guillermo e da Kim, tem que ver com o facto da Lilith, por causa dos seus erros e danos cometidos, quer expor o Stan para si mesmo.

Ela não quer apenas derrubá-lo, mas derrubar o sistema do qual ele tanto quer fazer parte e quer dominar.

Nightmare Alley
Cate Blanchett | ©20th Century Studios

Então há um propósito para o que ela está a fazer. Não é a destruição pela destruição. Ela quer trazer essa hipocrisia e escuridão oculta para cima, ou pelo menos atraí-la para as chamas.

Para complicar a definição da Lilith como uma femme fatale está a ideia de que ela está a fazer a coisa certa ao expor o Stan. Isso até pode torná-la na heroína da história. A Cate encontrou alguma catarse nas suas ações?

Bem, considero uma vitória estranha para a Lilith, no sentido em que as pessoas que muitas vezes tentam subir mais alto, sem dó nem piedade, nunca são realmente derrubadas. Sempre haverá mais Ezra Grindles prontos para triunfar neste sistema, que ainda está muito em vigor.

A Lilith sabe como emaranhar-se no sistema, enquanto o Stan subestima o poder dele. Ele pode safar-se ao quebrar uma ou mais regras, mas ela consegue ser esperta o suficiente para perceber que nunca ninguém pode quebrar o sistema verdadeiramente. Será que isso a torna cínica ou realista? Eu coloco a pergunta porque não sei responder. O que sei é que a Lilith sabe como atravessar o sistema, onde o Stan tem mais dificuldades. Portanto, não acho que tenha sido catártico.

Honestamente foi um processo claustrofóbico. Eu sentia-me dentro daqueles cenários surpreendentes, que era como um teste de Rorschach tridimensional, no qual não havia escapatória possível. Era como está dentro de um círculo vicioso durante as semanas em que estivemos em gravações. Era tudo um pouco art déco, com cadáveres nas paredes.

Dito isso, adorei trabalhar com o Bradley Cooper. Todas as minhas cenas eram com ele e nunca tínhamos trabalhado juntos antes. Isso foi realmente delicioso. E porque Guillermo gosta muito da Lilith, apesar da escuridão da sua história, havia uma atmosfera animada ao trabalhar com ele. Às vezes, e gosto de referir isto, filmar “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” foi como rodar um filme mudo, porque o Guillermo del Toro deu-nos rédea solta.

Num determinado momento do enredo, a Lilith mostra as cicatrizes no seu peito, embora não tenhamos muitos detalhes sobre o episódio que a deixou ferida. A Cate quis saber a verdade?

O Guillermo adora uma boa história de fundo. Ele adora personagens que têm segredos. Existem personagens que nunca são conhecidas completamente, que nunca desnuda, se é que me faço entender. De qualquer maneira, sinto que o Guillermo tem relações diretas e muitos pessoais com estas personagens. Ele investiu bastante tempo em criar cada uma das suas realidades, em aprofundá-las. O processo foi semelhante com os atores que as interpretam.

É um diálogo pouco comum, e considero que “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” torna-se uma história diferente consoante a perspectiva e o comportamento de uma determinada personagem que os espectadores estão a prestar atenção.

Nightmare Alley

Com a Lilith Ritter estaríamos a falar sobre isso. Havia um momento no argumento em que ela mostrava a sua verdadeira faceta. Eu disse: “Bem, isto é muito bom, mas porquê está a fazer isso?”. Tem muito a ver com a possibilidade dela se poder expor psicologicamente. Se alguém vai expor o seu ADN, que motivo têm para fazer isso? Pode ser excitante ou não… e eu queria entender isso.

Neste sentido, conversamos muito sobre a noção de “aberração” [geek no original], e como a Lilith poderia ter uma cicatriz física que sugeriria a escuridão no mundo de Ezra Grindle. O Guillermo del Toro ficou incrivelmente entusiasmado com a ideia da Lilith ter essas cicatrizes, e o que isso pode significar para ela, mesmo que seja apenas uma pequena alusão no filme. Esse momento do enredo surgiu das conversas com Guillermo, porque com ele nada é deixado fora da mesa.

A Cate terminou o seu trabalho no filme antes do início das restrições com a pandemia em todo o mundo. Como foi finalmente ver o filme cerca 18 meses depois da rodagem?

Foi muito estranho, embora quando penso nos últimos 18 meses, acho que posso explicar cada segundo, porque parece que o tempo não passou. Tive uma sorte brutal! Existem outras pessoas, mesmo atores, que tiveram dificuldades inacreditáveis. Para mim foi uma experiência muito estranha, pois parece que há um abismo temporal entre o momento em que terminei de filmar “Nightmare Alley” e os dias de hoje, em que está a ser lançado. Parece que foi ontem que estávamos na rodagem.

Entretanto fiz o “Pinocchio” também o Guillermo, porque mantivemos contacto o tempo inteiro. E obviamente a pós-produção de “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” foi complicada porque tudo teve que ser feito remotamente.

Fiquei triste por não poder ir à estreia do filme em Nova Iorque, mas consegui exibir o filme numa sala de cinema em Berlim, onde estava a rodar com o Todd Field. Este não é um filme que as pessoas queiram ver num ecrã de um computador. Para ver “Nightmare Alley” sinto que as pessoas querem ir ao cinema. Eu estava ansiosa por ver como é que todas aquelas coisas ganhavam vida, sobretudo o circo dos horrores. O Guillermo mostrou-me alguns excertos e mesmo durante a pré-produção mostrava-me como seria esse circo. Mas tudo muda quando vês as sequências numa sala de cinema.  E ver tudo isso pela perspectiva do Stan. Era assustador e delicioso ao mesmo tempo. Tudo isso encaixa-se no filme do Guillermo (risos).

Nightmare Alley
Nightmare Alley © Fox Searchlight Pictures

MHD: Terminemos como começamos. Como é que a Cate Blanchett descreveria a experiência com o Guillermo em todas as fases da produção?

O Guillermo é realmente muito direto e honesto e adorou ser surpreendido. Ele também é bastante prático. Ele é muito, muito aberto, mas tem um propósito claro. Ele é capaz de ouvir as sugestões mais malucas e inovadoras e contemplá-las, ao que depois responderá “Sim, isso é ótimo” ou “Não, isso não vai funcionar”. E se ele disser não, ele dirá exatamente por que não vai funcionar, então ele respeita as ideias e as contribuições de todos. E tu sabes que com o Guillermo ele não está a falar da boca para fora. Ele é bastante aberto a todas as sugestões.

Ele está atento a tudo o que possamos sugerir, que pode ir do mais estranho ao mais surpreendente. Ele tem bom gosto e foco para saber deixar algo acontecer e para alimentar-se das nossas ideias. Não há ninguém como o Guillermo del Toro. Ele é um homem com um coração enorme e é tão gentil. Direi mesmo incrivelmente generoso.

Conhece mais sobre “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” na página oficial do filme. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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