'Cannes Confidentiel' | foto de José Vieira Mendes

74º Festival de Cannes: ‘Cannes Confidencial’

O jornalista Xavier Monnier leva-nos a descobrir os mistérios e os bastidores do Festival de Cannes, com o livro, ‘Cannes Confidentiel—sexe drogues et cinéma’. Porém não revela assim tantos factos escabrosos.  Apesar de alguns abusos financeiros, influências, casos de drogas, escândalos sexuais, festas extravagantes, segredos da alcova. Porém, nada parece ser capaz de arranhar esse grande símbolo do cinema mundial.

Começo por dizer que o leitor não se deve deixar enganar pelo apelativo título do livro: Cannes Confidentiel—sexe, drogues et cinéma, que é manifestamente sensacionalista, para aquilo que é dito nele. Foi pensado claro, para vender no decorrer desta 74ª edição do Festival de Cannes e já estava em destaque nas estantes das livrarias, poucos dias antes da abertura oficial de Cannes 74. A investigação conduzida por Xavier Monnier, jornalista e co-fundador do site Bakchich.info, mostra algo que está longe do glamour e das lantejoulas e da passadeira vermelha, das estrelas. Explora em primeiro lugar uma boa parte do funcionamento interno do maior festival de cinema do mundo. Pouca gente sabe, mas o Festival de Cannes é sobretudo fruto da política cultural e audiovisual parisiense. Neste seu livro ‘Cannes Confidential—sexe, drogues et cinéma’ (ed. Robert Laffont, 2021), Monnier explica-nos entre muitas outras coisas, que se passa na sede da Associação Francesa do Festival Internacional de Cinema de Cannes. Trata-se de uma associação com um conselho de administração muito fechado, que reúne o mundo do cinema francês e todas as instituições públicas participantes no Festival, incluindo os vários ministérios. O jornalista descreve curiosas e complexas questões, mas que são digamos, normais, num mundo onde há prestígio, poder e muita vaidade em jogo: como por exemplo as turbulentas relações entre Gilles Jacob, o ex-presidente do festival e as diferentes cúpulas do Estado — ele exerceu várias funções no festival de 1977 até 2018 —, que foram mudando de cor ao longo dos tempos; as tensões com ex-presidente Nicolas Sarkozy e, a escolha de Pierre Lescure por François Hollande para sucedê-lo na presidência do Festival. É interessante ler na investigação de Monnier, como no seio da organização do Festival de Cannes, apesar dos muitos abraços (e beijos na passadeira vermelha), toda a gente tem muitos ciúmes, uns dos outros, há muitas intrigas e todos procuram colocar os seus interesses, acima de tudo.

Cannes Confidentiel
©ROBERT LAFFONT

As relações entre o festival e a cidade de Cannes, também não são propriamente fáceis. Essa tensão existe, porque por um lado há um festival que vem de Paris e que torna Cannes famosa e muito falada no mundo inteiro; e por outro lado a população de Cannes, sente-se um pouco despojada da sua cidade’, dizia Xavier Monnier, numa das várias entrevistas que li do autor, a propósito do lançamento do livro. Esta questão sente-se é verdade, no ambiente da cidade: é um bom negócio, mas deve ser igualmente, uma grande chatice para os habitantes, que a vê Cannes, invadida, por milhares de pessoas, que fazem lixo, ruído e agitação. Mesmo para quem está habituado, a viver essencialmente do turismo de veraneio e dos vários eventos, não tão mediáticos (mas alguns não menos importantes até para a economia mundial), ao longo do ano. Segundo o jornalista, também os lugares, acesso às cerimónias oficiais ou apresentações, são muito disputados. E por vezes distribuídos a personalidades que não têm nada a ver com a festa do cinema: o procurador, o presidente do tribunal, magistrados, polícias, enfim uma enorme quantidade de personalidades apenas decorativas: ‘É mais um ou menos extensiva essa relação clientelista para manter um bom relacionamento, explica o jornalista. Com a polícia, porque, isso evita que o festival, tenha por exemplo que pagar pelo trabalho extra de policiamento das zonas mais exclusivas e das chegadas das viaturas com as estrelas à passadeira vermelha. É uma forma de compensação’, com outra qualquer. Para aqueles que não têm a sorte de ter lugares nestas sessões, existe há vários anos uma espécie de mercado negro paralelo. Um lugar na cerimónia de abertura, que é só para convidados, pode custar no mercado negro, entre 3000€ a 6000€; ou mesmo 10.000€, para o caso de uma projeção como a de Era uma vez … em Hollywood’, o último filme de Quentin Tarantino. Para Xavier Monnier, ‘este não é um festival aberto ao público. E para se conseguir lugares tem de se pedir à organização. Há, portanto, uma versão soft de mercado negro, em frente à escadaria do Palácio. No início dos anos 2000, esse mercado era alimentado em parte por pessoas dentro da organização do festival, agora a versão mais hard, parece que começou a desenvolver-se, nas plataformas da internet.

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foto de José Vieira Mendes

Contudo, isto são pequenos fait divers sem muita importância, no contexto do festival comparados com outros. A verdade, é que a questão, do sexo e drogas, que dá o título ao livro, está também reduzida ao mínimo, nas revelações do livro e quase nada que já não se saiba. Esta questão é logo abordada no prólogo do livro (para despachar a questão) e com uma referência à edição de 2018, quando o Festival de Cannes ficou marcado pelo famoso manifesto pela paridade de género, assinado por 82 mulheres-representantes das várias profissões do cinema (atrizes, realizadores, produtores, distribuidores, agentes, etc.) no sentido de denunciarem a flagrante desigualdade de sexos na indústria cinematográfica; o autor conta ainda para reforçar esta ideia, com a recente ampliação das vozes femininas contra o assédio e abusos sexuais, (nomeadamente após o caso Weinstein (Harvey) e o movimento #MeToo), que revelaram também algumas destas facetas nos bastidores das festividades de Cannes. Mas nada de novo e aparentemente demasiado escandaloso, ou que já não soubéssemos pela voz de Asia Argento e do seu discurso, aliás uma referência no livro. As reivindicações feministas da manifestação, foram imediatamente apoiadas pelas principais representantes do festival, — inclusive pelo próprio Thierry Frémaux, director-artístico — até num incisivo comunicado de imprensa. Porém, esse apoio foi fruto de vários compromissos e de posições estratégicas, uma espécie de acto de contrição, que caracterizam a sua identidade e a sua história maioritariamente masculina, como Festival, este ano apadrinhado pela activista-feminista, a actriz Jodie Foster.

Festival de Cannes
Jodie Foster, convidada especial e Palma de Ouro de Carreira. | Cortesia de Festival de Cannes, © DR

A partir da consulta aos arquivos e da realização de inúmeras entrevistas com membros da administração do Festival e de alguns dos seus colaboradores, Xavier Monnier oferece-nos ainda razoável um inventário sobre alguns dos pequenos mistérios dos bastidores do Festival de Cannes ao longo das suas 74 edições. Traça com detalhes as diferentes etapas que estiveram na origem da criação do Festival. Destaca que o Festival de Cannes nasceu logo, sob o signo da polémica. A abortada organização da sua primeira edição em 1939, procurava, opor-se ao Festival de Cinema de Veneza e à sua orientação fascista. Só no período do pós-guerra é que essas tensões acalmaram e foi num espírito de colaboração e solidariedade, que o Festival de Cinema de Cannes, exibição os seus primeiros filmes,  em 1946. A 1.ª edição do Festival de Cannes realizou-se de 20 de setembro a 5 de outubro. Vinte e um países — dando mais ênfase à criatividade do que à competitividade — apresentaram filmes no ‘Primeiro Festival Internacional de Cinema de Cannes’, que se realizou no antigo Casino de Cannes, na Croisette. Apenas um ano após o fim da  II Guerra Mundial, a maior parte das longas-metragens apresentadas, eram sobre a guerra. Durante o primeiro festival, o júri era composto por um representante por país, tendo como presidente do júri o historiador francês Georges Huisman. Depois de um pouco de história, Xavier Monnier explica como se faz a complexa engenharia financeira e administrativa do evento. É evidente que o permanente envolvimento de diferentes órgãos e entidades, de diferentes quadrantes políticos, na implementação de cada edição, dá origem a lutas de poder, chantagens e influências, que podem questionar a legitimidade de certas opções de programação e selecção de filmes. Monnier consegue aludir mesmo, à existência, por vezes de determinados preconceitos, algo duvidosos em relação a filmes ou realizadores: por exemplo a exclusão de Lars von Trier, em 2011, após as suas observações sobre Hitler; e depois o seu regresso à Croisette em 2018 para apresentar The House that Jack Built’, como uma espécie de ‘volta que estás perdoado’. Ao optar por dar a palavra aos membros das várias comissões de seleção e gestão (incluindo a Thierry Frémaux), Monnier proporciona-nos assim, um interessante reverso dos escândalos, privados ou públicos, que contribuíram para a fama do Festival de Cannes. Porém, o autor, não revela casos demasiado escabrosos ou polémicos, mas antes explica como a gestão de um evento desta natureza, pode envolver a presença de posturas, às vezes contraditórias e curiosas concessões, nem sempre muito correctas do ponto de vista ético ou de coerência.

Festivais de Cinema
Thierry Frémaux, director-artístico do Festival de Cannes. | ©José Vieira Mendes

As relações do festival com o cinema norte-americano e com as plataformas de streaming, por exemplo, são também motivo de discussão. Se Cannes encontra no cinema norte-americano, uma forma de atrair multidões, com muitas estrelas e glamour, entretanto os produtores de Hollywood parecem cada vez menos inclinados a arriscar o destino comercial de seus filmes em França, — estão de certo modo a preferir o Festival de Veneza — submetendo-os ao julgamento da crítica internacional, mais radical e sobretudo a francesa, antes de os filmes serem lançados, nos cinemas europeus. E dá o exemplo do que aconteceu com Han Solo: A Star Wars Story‘, que em 2018 foi bastante massacrado pela imprensa e Cannes. Não é que não merecesse, mas….E agora existem também as guerras entre os distribuidores franceses e a plataforma de streaming da Netflix, que é encabeçada pelo Festival de Cannes, que depende muito deles e não aceita qualquer filme na competição que não tenha primazia para uma posterior estreia nas salas de cinema francesas. Em última análise, a densidade desta rede de influências e os paradoxos que Monnier procura revelar em Cannes Confidentiel—sexe, drogues et cinéma’, é um projeto tão interessante quanto louvável, mas que poderia ter beneficiado ainda mais, de uma maior  investigação, do uso de fontes e testemunhos — distribuidores, produtores, realizadores, agentes, jornalistas, etc. — envolvidos na realização e participação no evento. No entanto, é um documento importante, que sai fora do habitual contexto de escrita em causa propria e auto-complacente de outros livros jápiblicados. Isto a obra de Monnier, acaba por contrabalançar com outros livros existentes no mercado, escritos sobre o Festival de Cannes: Selection Officielle: Journal’, de Thierry Fremaux (2017) — o tal onde é revelado porque é que as As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, não foi selecionado, em 2015, acabando por ser apresentado na Quinzena dos Realizadores — , Dictionnaire Amoureux du Festival de Cannes’, de Gilles Jacob e Alain Bouldouyre (2018, agora numa edição de bolso), Ces années-là, de Pierre Lescure e Thierry Fremaux, (2017), entre outros. Resumindo, não se fiem demasiado no título, masCannes Confidentiel—sexe, drogues et cinéma’, é um livro tão cativante quanto fascinante, feito ao ritmo de uma investigação e por isso bastante acessível e fácil de ler, para que domina o francês. Senão está aqui o essencial dele…. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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