Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Melhores Álbuns de 2019 | Shepherd in a Sheepskin Vest
5. Bill Callahan, Shepherd in a Sheepskin Vest (Drag City, 14 Junho)

Bill Callahan diz-nos que a mudança para a Califórnia limitou a sua capacidade de escrever música, o que pode explicar o hiato que encontramos entre este álbum e o anterior Dream River. Mas ao regressar a Austin a sua caneta começou a fluir novamente e é neste momento que o acompanhamos em Sheperd In a Sheepskin Vest. “And it sure feels good to be writing again”, diz-nos Bill. Ao ouvir este álbum, a sensação é de quem se encontra presente no instante em que Bill volta a pegar na caneta e começa a escrever freneticamente, quase como se escutássemos o seu pensamento ao som de uma melodia que ele arranca da guitarra. Por entre arranjos simples de guitarra, cordas e percussão, a sua voz barítona sobressai para nos falar daquilo que o rodeia naquele momento, a mulher, a morte da mãe, o nascimento do filho, a casa e o carro novo. Neste retrato de uma vida caseira, com um certo humor que conjuga com alguns conselhos paternos, Bill Callahan afirma a vida e o encontro de uma felicidade doméstica. (MS)

Melhores Álbuns de 2019 | Schlagenheim
4. Black Midi, Schlagenheim (Rough Trade, 21 Junho)

Se ainda restavam dúvidas de que os black midi, talentoso quarteto de instrumentistas britânicos, seriam a “banda revelação” do ano de 2019, todas se dissiparam após o lançamento do álbum de estreia Schlagenheim (2019). Para os black midi, estudantes na afamada BRIT School e aficionados por jazz livre e improvisação musical, a busca pelo “som ideal” encontra-se no centro de tudo. Paradoxalmente, os jovens reconhecem a carga absurdista deste objetivo e que a sua satisfação pessoal se prende unicamente com o incessante processo de investigação da teoria da arte e posterior desconstrução da música do passado. A sobrevivência da banda depende estritamente destes mesmos fatores: a manutenção de um caráter metamórfico e a incansável luta contra a estagnação criativa ou, por outras palavras, a sua “sentença de morte”. Dito isto, Schlagenheim é a exposição inaugural da mentalidade partilhada pelos guitarristas Geordie Greep e Matt Kelvi, baixista Cameron Picton e baterista Morgan Simpson, uma virtuosa parceria que tanto se arrisca a durar anos, resultado da preservação do “poder inventivo” dos envolvidos, como terminar sem aviso prévio, após um episódio de falta de inspiração de caráter fatal. Uma coisa é certa: gostos à parte, o visceral e ousado fruto da contribuição mútua de quatro indivíduos que, enquanto coletivo artístico, nascem aprisionados à música que compõem e, de forma idêntica, cessarão quando o último acorde for tocado, nunca poderia deixar de ser alvo de destaque por parte do departamento de música da Magazine.HD.

Lê Também:
Vodafone Paredes de Coura 2019 | Num dia excelente, a caçada foi dos Deerhunter

Aguardamos com expectativa o que o futuro próximo nos reserva. Por agora, vemo-nos forçados a revisitar incansavelmente as melodias vocais sui generis de Geordie Greep (um meio-termo entre o spoken-word de Brian MacMahan e o jogo de gemidos e sussurros de Mark Hollis na fase experimental dos Talk Talk); crescendos que  culminam, de modo abrupto, em serenas paisagens sonoras, esquivando-se da estrutura familiar do pós-rock; a integração de elementos math-rock, como progressões de acordes dissonantes, melodias angulares, técnica do contraponto e compassos incomuns, e ainda a soturnidade do pós-punk dos anos oitenta. Se a manutenção de qualidade da música alternativa britânica da década de 2020 ficar ao encargo dos black midi e da paixão que nutrem por esta forma de arte, assim como das bandas afiliadas à Speedy Wunderground que ainda não chegaram a despontar, então encontramo-nos em boas mãos. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Remind Me Tomorrow
3. Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow (Jagjagwuar, 18 Janeiro)

Se os dois álbuns anteriores a Remind Me Tomorrow, Tramp (2012) e Are We There (2014), já faziam parte da lista de melhores discos da década, este nosso terceiro lugar dos melhores de 2019, surge não só como uma confirmação dos (vários) talentos de composição e interpretação de Sharon Van Etten, mas também como uma perfeita e agradável evolução, plena de vitalidade e amadurecimento. Um ajuste a novos tempos, deixando para trás o que não correu bem, e acordando para novos compromissos, família e também novos receios, característicos da fase adulta da vida. Tal como referimos na nossa análise ao album é possível encontrar versões de “Seventeen”, a sua canção mais significativa, tocadas em guitarra acústica, no início de 2017, e perceber o quanto esta canção cresceu juntamente com a autora. Enquanto compunha a banda sonora de Strange Weather, foi-se fartando da guitarra e entretendo-se com o órgão CX-3 e o sintetizador Jupiter 4 (exacto) do Michael Cera. Em casa, divertu-se a tocar na bateria daquele com quem quis viver o resto da vida. Ganhou-lhe o gosto e lembrou-se de que gostava de pós-punk e electrónica, de Portishead, Suicide, Nick Cave e Bruce Springsteen. Procurou um novo produtor, John Congleton (Bill Callahan, Anna Calvi, Lucy Dacus, Kimbra, Decemberists, St. Vincent, The Walkmen, Wye Oak) e o resultado foi este magnífico Remind Me Tomorrow. Uma mudança de direcção relativamente ao esmerado e enlanguescente indie folk dos registos anteriores, que abre novas possibilidades numa estrada onde não falta espaço para crescer nem talento que o prometa. (RR)

Melhores Álbuns de 2019 | Dogrel
2. Fontaines D.C., Dogrel (Partisan, 12 Abril)

Por entre as estrelas da passada década que chegaram ao zénite, acenderam-se vários luzeiros cujo brilho azulado não tardará a encher de fulgor a década que começa. Não faltam nesta lista bandas a aliar o viço e a robustez da juventude a uma exímia habilidade musical, num e outro lado do Atlântico. Mas nenhuma delas, mesmo se não lhes falta talento poético, possui a sensibilidade literata dos Fontaines D.C. Em Dogrel, estes irlandeses forjaram um retrato de Dublin que transcende a denúncia social de muito pós-punk recente, oriundo das ilhas, e eterniza uma imagem pessoal da cidade. Com uma sonoridade bem mais diversificada do que o género para o qual os atiram, em muitos aspectos tão sapiente quão incipiente, e naquela poesia rude que dá nome ao álbum, os Fontaines D.C. contam a história dos tempos de estudante numa Dublin já desaparecida, sob a lápide da gentrificação, e da sua pobreza passada entre os miseráveis e indigentes espalhados pelos esconsos da cidade. O que comove e promete neste fresco urbano, “too real” para passar na rádio ou tocar em festas, é a interrogação existencial que lateja em cada detalhe guardado na memória e fixado num verso ou numa canção. Estes rapazes não estão aqui para mudar o mundo, mas mudarem-se a si na relação com o mundo. Não farão muito dinheiro, a Dublin de agora não será deles, mas nós é que já não somos os mesmos depois de os termos ouvido. “Is it too real for ya?” Não só não é, como queremos mais. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Titanic Rising
1. Weyes Blood, Titanic Rising (Sub Pop, 5 Abril)

Não se pode atribuir a alguém como Weyes Blood o título de artista revelação de 2019, quando ela mesma já havia editado o imenso Front Row Seat to Earth em 2016. Contudo, não haja dúvida também que este ano, onde uma década finda e outra se inicia, é também o ano de consolidação de Natalie Mering como uma das mais proeminentes cantautoras americanas. Titanic Rising é o álbum dos álbuns para a Magazine.HD, um trabalho que sintetiza “a arte pop da década de 70 com uma força contemporânea toda sua”, recheado de canções sobre desejos desfeitos, sonhos que se adaptam, ilusões que se desmoronam. A esperança, essa, nunca se evapora: “Love is calling/ it’s time to let it through/ find a love that will make you/ I dare you to try”. (DR)

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *