"Apocalypse Now: Final Cut" (2019), um dos filmes exibidos nos Screenings Funchal © Zoetrope

Screenings Funchal dos Cinemas NOS | Entrevista Exclusiva a Pedro Pão

Tivemos o privilégio de entrevistar Pedro Pão, programador dos Screenings Funchal projeto único e parceiro dos Cinemas NOS.

Talvez estes não sejam os melhores dias para falarmos sobre as iniciativas que fazem a diferença no panorama cinematográfico português. Apesar da possibilidade de abertura das salas de cinemas a partir de 1 de junho – desde que reunidas todas as medidas de saúde pública  -, não poderemos negar que as salas ainda estão fechadas e que 2020 não será um ano fácil nem para a arte, nem para a distribuição de filmes.

Por isso, quisemos saber como poderão os Screenings Funchal adaptar-se à nova realidade. Para quem nunca ouviu falar desta pequena grande iniciativa, os Screenings Funchal nasceram em 2017, e, desde então, dão a conhecer ao público madeirense um conjunto de filmes independentes, que habitualmente não estreiam nas salas comerciais do Funchal. Se em junho de 2017, faziam-se 2 sessões do mesmo filme por mês, em outubro desse mesmo ano e devido à forte adesão, passou a ser 1 filme cada sábado, exibido pelas 21 horas no Fórum Madeira.

Neste centro comercial, localizado numa zona privilegiada do Funchal rodeada de vários hotéis e de apartamentos, encontramos os Cinemas NOS, que os Screenings têm parceria desde o início.

Screenings Funchal
Da esquerda para a direita: “Sinónimos”, “Guerra Fria” e “Vitalina Varela”, filmes que já passaram pelos Screenings Funchal © SBS Films / Opus Film / Optec

Para discutir os efeitos da pandemia do COVID-19 no cinema, reunimo-nos com Pedro Pão, um dos responsáveis pelo nascimento dos Screenings Funchal e também ele curador deste projeto, que nos revela o seu amor pela sétima arte e a sua força de vontade em mostrar ao público madeirense o que de melhor é feito no cinema de autor dos distintos cantos do mundo.

Pelos Screenings, já passaram filmes como “Parasitas”, (Boon Jo Ho, 2019), “Sinónimos” ( Nadav Lapid, 2019)”, “Apocalypse Now: The Final Cut” (Francis F. Coppola, 2019), “Santiago, Itália” (Nanni Moretti, 2019), “Guerra Fria” ( Pawel Pawlikowski, 2018), “A Portuguesa” (Rita Azevedo Gomes, 2018), “Terra Franca” (Leonor Teles, 2018), “Verão 1993” (Carla Simón, 2017) ou a versão restaurada de “Vem e Vê” (E. Klimov, 1985). Todos eles dando voz ao slogan do projeto de “um cinema à parte“.

Com os Screenings […] pretendíamos alcançar um modelo de exibição adaptado ao público da região, trazendo regularidade o que faltava à cidade do Funchal.

Antes falarmos dos Screenings Funchal é preciso contextualizarmos sobre a importância da sétima arte na Madeira. Como nos conta Pedro Pão, durante muitos anos a Madeira teve a sorte de contar com filmes alternativos, algo possível pela panóplia de salas existentes, sobretudo na década de 80 e 90. Porém, com o início dos anos 2000 e em resultado da concorrência pesada da televisão e até do VHS, muitos dos cinemas conhecidos dos madeirenses fecharam as portas –  o Funchal conta apenas com 13 salas de cinema comercias (6 da NOS e 7 da Cineplace). Portanto, não será exagerado afirmar que o cinema independente que as gerações mais velhas conhecem, está ausente do vocabulário cultural da maioria dos jovens madeirenses crescidos nos inícios do século XXI.

Pode parecer estranho, mas esta geração acabou por ser a menos privilegiada em termos do acesso ao cinema de autor (português, europeu, americano, etc.) e do seu visionamento em sala de cinema. Portanto, os Screenings Funchal, acompanhados pela eclosão de novos festivais (Madeira Fantastic Film Fest, Madeira Film Festival, Filmes no Terraço, entre outros) e da rodagem de filmes e séries nacionais na RAM, inauguraram uma nova era de destaque do cinema na Madeira, permitindo quebrar uma barreira cultural de alguns anos.

De forma muito bem estruturada por Pedro Pão e pelos Cinemas NOS, os Screenings Funchal têm promovido os novos autores e, com isso, as mais peculiares representações de sujeitos em imagens em movimento junto dos espectadores madeirenses.

Cinemas NOS
Cinemas NOS © NOS

MHD: Como está a ser gerida a crise económica, e obviamente cultural, provocada pela pandemia COVID-19 em relação à iniciativa dos Screenings Funchal?

PP: A situação pela qual estamos a passar é obviamente trágica na sua globalidade e o setor cultural está inserido nessa lógica de adaptação a uma situação de pressão violenta. A forma como o Screenings Funchal opera, pelo menos de forma direta, poupa-nos em grande medida a esses constrangimentos. Não quero com isto dizer que estamos completamente alheios aos mesmos, nem que não poderemos eventualmente ser afetados por eles, mas creio ser importante frisar que no grande esquema das coisas (terríveis) com que o setor está a lidar, os nossos problemas não passam de pequenos constrangimentos. De forma indireta, é claro que fomos lesados, tivemos de cancelar a Masterclass dedicada ao António Macedo em parceria com o Madeira Fantastic Film Fest, para a qual houve investimento financeiro da nossa parte. Suspendemos a organização de um cine-concerto que estaríamos perto de conseguir levar a bom porto, e claro que a suspensão das nossas sessões principais foi um transtorno…

A Academia Portuguesa de Cinema (APC) divulgou resultados de um inquérito aos seus associados onde conclui que cerca de 80% dos profissionais de cinema e audiovisual ficaram sem qualquer tipo de rendimento. Terrível para um setor que emprega mais de 20.000 profissionais, desde atores, realizadores, guionistas, argumentistas, técnicos de luz e som, e outros.

MHD: Numa região ultra-periférica como a Madeira, pode o cinema sobreviver tendo em conta que se trata de uma atividade maioritamente realizada em espaços fechados?

PP: O cinema no geral irá certamente adaptar-se e não me parece que a sua sobrevivência esteja em risco, o que me parece essencial abordar e refletir é se as pessoas e algumas atividades e espaços do setor sobreviverão. E essa reflexão já devia ter sido feita há muito tempo, o que devia estar a ser agora delineado são os apoios cruciais para conseguir minimizar as perdas sofridas: evitar perdas de postos de trabalho e adaptar-se a uma nova realidade, que não sabemos quanto tempo terá de vigorar.
O crítico de cinema do Público, Jorge Mourinha, publicou um interessante artigo, onde descreve toda uma série de mecanismos despoletados devido ao encerramento das salas, desde estúdios a estrear filmes em VOD, a uma enorme adesão a plataformas de streaming.

Lê Também:
Grandes filmes que nunca chegaram aos cinemas portugueses

Esta última é um bom indicador de que o cinema (da perspetiva do espectador) mantém a sua procura. Não concordo, no entanto, com a ideia de que “nada será como antes”. Creio que pessoas e os seus hábitos são consideravelmente elásticos. Por isso, sou bastante céptico em relação aos artigos que todos os dias surgem a anunciar o fim do capitalismo ou as mudanças radicais nas atividades, que estão a abrir caminho para a nossa própria extinção.

Em relação ao cinema como evento realizado num espaço fechado, as coisas complicam. É normal que qualquer exibidor ao estrear um filme queira uma sala cheia. E parece-me evidente que isso, embora desejado, não poderá ser permitido por tempo indeterminado.

No entanto, em relação aos Screenings Funchal, no que diz respeito aos Cinemas NOS, estou absolutamente tranquilo em relação ao que será preparado no espaço e em relação ao que será exigido pelas autoridades de saúde. Tenho a certeza de que já têm delineado estratégias de adequação dos espaços para a reabertura. Quem frequenta os Cinemas NOS sabe perfeitamente que antes mesmo das primeiras restrições, estes já se tinham reorganizado de forma incrível, e implementado medidas de distanciamento entre espectadores (entre outros procedimentos de desinfeção). Esta prontidão é importantíssima, pois fortalece os laços de confiança com os clientes. A nível nacional verificaram-se as mesmas diligências, por exemplo no Cinema Ideal em Lisboa e o Cinema Trindade no Porto.

Screenings Funchal
Pedro Pão © Ana Mendonça / Screenings Funchal

MHD: Acredita, portanto, que continuaremos a ir ao cinema?

PP: Tomando como garantidas as diligências da parte dos exibidores, a grande questão será: quando é que as pessoas, que vão regularmente ao cinema, terão confiança em voltar? Aqui, talvez seja importante pensar nas faixas etárias.  Creio que é razoável presumir que o cinema dirigido a um público mais jovem atingirá uma “regularidade pandémica” consideravelmente mais depressa que, por exemplo, as nossas sessões, onde os espectadores situam-se em faixas etárias superiores, o que poderá criar alguns obstáculos adicionais. No entanto, é demasiado cedo para extrapolações e as pessoas precisam de tempo para refletirem sobre estes assuntos.

Penso que essa confiança regressará mais cedo do que, por exemplo, para frequentar um festival de música de verão onde escapam ao controlo variáveis importantes, e onde tenho sérias dúvidas acerca da probabilidade de se realizarem sem ter sido encontrada uma vacina ou tratamento eficaz. Acredito também que o bom trabalho do Governo Português irá continuar a refletir-se na fase de reabertura faseada geral, a ser feita de forma inteligente e bem-sucedida. Não quero desvalorizar as dificuldades gerais da reabertura das salas, onde sei perfeitamente que muitas terão graves dificuldades em fazê-lo devido aos efeitos devastadores que a pandemia trouxe.

MHD: O que nos diz sobre a forma como a pandemia está a afetar outros eventos culturais e cinematográficos sejam estes de pequena ou grande magnitude?

PP: Está tudo a ser afectado de forma terrível, com grandes e pequenos festivais internacionais e nacionais cancelados ou adiados. Enquanto alguns optam pela solução de migração dos mesmos para eventos online como o Madeira Fantastic Film Fest, outros tentam procurar novas datas como é o caso do IndieLisboa, mas o grande problema aqui é a impossibilidade de prever o que acontecerá a curto/médio prazo. Essa incerteza é assustadora e paralisante.

Em muitos artigos científicos é apresentado como provável um ressurgimento do vírus no mês de julho, com um pico estimado em agosto/setembro. Tendo isto em conta, não é nada fácil tentar estimar temporalmente a estabilização da situação, de forma a planear reagendamentos de eventos.

MHD: Como surgiu a ideia para os Screenings Funchal? E como nasceu a parceria com os Cinemas NOS?

PP: Esta iniciativa surgiu da vontade que partilhava com a Elsa Gouveia, responsável pela criação do Madeira Film Festival, enquanto trabalhávamos juntos nesse festival. Incomodava-nos que as exibições de cinema de qualidade no Funchal estivessem restritas praticamente à semana do festival.

O que nós queríamos era mais regularidade nas exibições de cinema de autor e independente, que a maior parte das vezes fica de fora do circuito comercial da RAM. Através da experiência e contactos adquiridos no trabalho com o festival, pretendíamos alcançar um modelo de exibição adaptado ao público da região, trazendo regularidade o que faltava à cidade do Funchal. Era imperativo que certos filmes estreassem também na RAM e eventualmente que se pudesse alargar o leque de oferta para incluir ciclos, antestreias, palestras e outros eventos associados.

A Região Autónoma da Madeira tem uma riquíssima ligação com os primórdios do cinema.

Cinema na Madeira
“O Fauno das Montanhas”, um dos primeiros filmes fantásticos portugueses foi feito na Madeira © Empresa Cinegráfica Atlântida

MHD: Na Região Autónoma da Madeira sempre existiu alguma dificuldade em divulgar cinema independente e alternativo. Além disso, sempre pareceram ser poucos os espectadores interessados num cinema “diferente” e não-comercial. Com os Screenings Funchal a situação parece ter mudado. Pensa ter existido alguma razão em particular?

PP: Não concordo que sempre tenham havido poucos espectadores interessados neste tipo de cinema, muito pelo contrário. A RAM tem uma riquíssima ligação com os primórdios do cinema. Manuel Luiz Vieira com a Empresa Cinegráfica Atlântida, produziu três filmes que se constituíram como obras de referência no panorama do cinema português: “Calúnia” (1925-1926), “O Fauno das Montanhas” (1926) e “Indigestão” (1926). De salientar que “O Fauno”…, foi um dos primeiros filmes nacionais do género fantástico. Numa fase posterior sempre houve grande adesão a este tipo de sessões desde, pelo menos, as sessões do Cine-Fórum. Foram um marco na sociedade e cultura cinematográfica da região e embora o pico de atividade tenha sido na década de 80, não tenho dúvidas de que esse trabalho influenciou, de uma forma ou de outra tudo, o que posteriormente foi feito na RAM de divulgação cinematográfica.

Creio que seria correcto afirmar que se perderam hábitos de ida ao cinema, e isso deveu-se em grande parte a um hiato de cerca de 15 anos na realização de sessões regulares deste tipo de cinema na cidade do Funchal. A nossa estratégia desde o início foi trabalhar para recuperar esses hábitos, e ao mesmo tempo, tentar criá-los em quem nunca os teve. E, de certa forma, creio termos sido bem sucedidos. Cativamos espectadores que frequentavam as exibições do Cine-Fórum e conseguimos fazer com que pessoas que iam ao cinema 2-3 vezes por ano, passassem a ir 2-4 vezes por mês.

Continuamos a fazer um grande esforço na divulgação local das sessões, e os nossos parceiros ajudam-nos imenso, e temos bom feedback de quem não é consumidor habitual deste tipo de cinema, mesmo quando os filmes exibidos fogem às narrativas convencionais e apresentam linguagens cinematográficas que exigem mais do espectador.

O que me parece ser o meu grande insucesso, que creio ser comum a quem se dedica a este tipo de exibições, é não ter ainda conseguido captar com a regularidade desejada um público mais jovem. É visível que temos esse público, especialmente quando as obras exibidas abordam, por exemplo, a temática de direitos humanos e LGBTI. Isso é curioso porque permite supor que talvez essa faixa etária privilegie uma relação com o cinema que lhes permita a obtenção de informação fidedigna e no caso do segundo, suponho que uma celebração da atual representatividade de género no grande ecrã, o que me parece ser muito importante e inspirador. O ideal para mim seria conseguir que as camadas mais jovens cultivassem um interesse mais abrangente, mas infelizmente estamos limitados às ações que podemos realizar nesse sentido. Felizmente, acredito que iniciativas, como o Plano Nacional de Cinema, terão impacto bastante grande, a médio-longo prazo, nessas camadas.

MHD: Existe alguma discussão prévia com a NOS?

PP: A programação é a da minha inteira responsabilidade. Uma das coisas que ficaram definidas desde o início e sem nenhuma objeção, foi a nossa total liberdade curatorial que era essencial para os nossos objectivos de promoção da cultura cinematográfica da RAM. Nem fazia sentido ser de outra forma. A NOS além de ter noção da qualidade do nosso trabalho, está perfeitamente ciente das vantagens da nossa proximidade com o meio cultural da RAM. Grande parte da razão do nosso sucesso e da variedade de eventos que temos desenvolvido, está relacionada com o facto de não sermos uma iniciativa independente que se limita a usufruir de um espaço físico, mas um projeto desenvolvido em conjunto com os Cinemas NOS, cujos resultados dessa sinergia são visíveis.

MHD: Como têm sido escolhidos os filmes da programação e dos diferentes ciclos selecionados?

PP: Tento que os filmes tenham não só a pertinência da proximidade do seu lançamento, mas também que comuniquem com determinado momento que estejamos a viver.  Um exemplo disso, seria a nossa programação suspensa de março que se iria focar direta e indiretamente em conflitos bélicos e suas consequências. Tanto o “Uma Vida Alemã” como o “Para Sama” integraram a 2ª Mostra de Cinema Casa da Imprensa | Ideal – Séc.XX – Guerra, História, Memória. Acho muito importante lembrar estas datas com trabalhos que nos ponham a pensar no futuro sem perder o passado de vista. Temos também estreias e, em março, conseguimos exibir em antestreia nacional o maravilhoso “Retrato de Uma Rapariga em Chamas”.

Retrato da Rapariga em Chamas
“Retrato da Rapariga em Chamas”, um últimos filmes a ser exibido nos Screenings Funchal © Midas

MHD: Com que tipo de apoios financeiros e institucionais conta a iniciativa dos Screenings Funchal?

PP: O que nos faz falta são apoios financeiros. Temos uma rede de parceiros que nos dá um apoio incalculável, no entanto a insularidade tem um custo muito elevado, e não conseguimos trazer convidados e organizar eventos com a frequência que gostaríamos devido a esses custos. Pensamos em convidar o Tiago Guedes para apresentar o “Tristeza e Alegria na Vida das Girafas” mas a sessão teve de ser a 14 de Dezembro, e não nos podemos dar ao luxo de ter convidados à RAM em determinadas alturas. E é pena porque, muitas vezes, os realizadores mostram-se muito interessados não só a vir, mas a participar em mais algum workshop ou palestra.

O Edgar Pêra quando esteve cá recolheu imagens em alguns pontos da RAM que irão constar no seu próximo filme “KINORAMA – Beyond the Walls of Cinema”. Outro deles foi o Seamus Murphy (“A Dog Called Money”) que só não veio porque, entretanto, anteciparam-lhe as filmagens do próximo filme (que também foram suspensas). A viagem do Reino Unido do Seamus Murphy iria ser cerca de 4 vezes mais barata que uma eventual passagem para o Tiago Guedes de Lisboa em Dezembro.
Estávamos em vias de conseguir um apoio que iria ser muito importante nesse sentido e que nos iria permitir dar um salto qualitativo importante na oferta, no entanto pelas óbvias razões de força maior, teremos de aguardar mais algum tempo. Estou, no entanto, muito optimista de que em pouco tempo teremos condições para oferecermos mais a cada sessão.

MHD: Que outros filmes já passaram pelo Screenings Funchal? E quais aqueles que tiveram mais sucesso ao nível do número de espectadores?

PP: Eu não associo a ideia de “sucesso” ao número elevado de espectadores. Acho que são duas coisas distintas, que felizmente por vezes ocorrem em simultâneo. Um exemplo disso foi o “Santiago, Itália” do Nani Moretti, onde tivemos apenas 50 espectadores, mas logo após a sessão vários grupos de pessoas reuniram-se, donde resultou um intercâmbio muito agradável. Outro exemplo foi a exibição da cópia restaurada do “Vem e Vê”, onde cerca de 40 pessoas que estavam na sala saíram todas em silêncio absoluto. Para mim é este tipo de reação que define o sucesso de uma sessão. Temos claro casos onde a procura é muito elevada e as reações são as melhores possíveis, como o “Parasitas” do Bong Joon-ho que no nosso arranque em outubro deu uma sala quase cheia. Temos a sorte de conseguir ambos com frequência.

É sempre excelente quando conseguimos filme de realizadores lendários que eu estimo particularmente, como o Jim Jarmusch (“Paterson”), o Terrence Malick (“Música a Música”), a Claire Denis (“O Meu Belo Sol Interior” e “High Life”), o Hirokazu Koreeda (“O Terceiro Assassinato”; “Shoplifters”) ou o Woody Allen (“Roda Gigante”). Pelo Screenings já passaram mais de 70 filmes de mais de 30 países.

Cinema Português
“A Portuguesa” © Medeia Filmes

MHD: A exibição de cinema português acontece com alguma regularidade?  

PP: Sempre que possível o cinema português tem o destaque máximo. Eu incluiria o Edgar Pêra (“O Espectador Espantado, 3D”; “Caminhos Magnétykos, 3D”, “O Homem-Pykante – Diálogos com Pimenta e Lisbon Revisited, 3D”) e o Pedro Costa (“Cavalo Dinheiro” e “Vitalina Varela”) nos ciclos de “lendários muito estimados”. E é importante que o cinema português, de uma riqueza incalculável, comece a ser reconhecido cá dentro como tal. Tenho feito por isso.

Só para mencionar algumas destas preciosidades, exibimos o “Terra Franca” (Leonor Teles), “A Portuguesa” (Rita Azevedo Gomes), “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” (João Salaviza e Renée Nader Messora), “A Árvore” (André Gil Mata), “Hotel Império” (Ivo Ferreira), “Hálito Azul” (Rodrigo Areias), o divertidíssimo “Technoboss” (João Nicolau). Obras que muitas das vezes tiveram pouca procura no nosso país enquanto eram premiados por todo o lugar onde passavam.

Estou também atento a filmes de realizadores emergentes como o dinamarquês Gustav Möller (“O Culpado”), e o ucraniano Myroslav Slaboshpytskyi (“A Tribo”). No cinema de género, que sempre me atraiu bastante e que faz parte da estratégia para cativar o público mais jovem, tenho tentado trazer algumas obras de certa forma inovadores. Uma das carreiras que sigo muito atentamente é da dupla Justin Benson e Aaron Moorhead dos quais exibimos “O Interminável”, e por exemplo “Mandy”, do Panos Cosmatos. E falando de cinema inovador, não posso deixar de falar no catálogo da Cinema Bold com o qual delicio-me frequentemente e de onde já exibimos muitos títulos.

MHD: Existem planos para os Screenings Funchal saírem da capital da região autónoma e percorrerem as restantes cidades e concelhos da ilha?

PP: Isso é algo no qual temos muito interesse e abertura. Temos feito parcerias muito interessantes no Funchal, que já nos permitiu exibir filmes no Museu de História Natural do Funchal ou fazer uma sessão ao ar livre no Fractal Funchal Fest. E isso é muito desafiante porque, a nível da programação, permite alguma criatividade adicional na adaptação ao espaço e a um público alvo consideravelmente distinto. Em fevereiro, tínhamos apresentado uma proposta bastante ambiciosa com data prevista para o final do ano e que seria para realizar fora do Funchal, com exibições, convidados e palestras, mas com tudo o que está a acontecer é muito pouco provável que se venha a realizar este ano.

MHD: Poderia contar-nos um pouco sobre o seu percurso profissional até dedicar-se aos Screenings Funchal?

PP: Esta é pergunta cuja resposta é invariavelmente maçadora e, alguns inquiridos consoante a sua queda para a auto-promoção, tentam compensar contando histórias improváveis e pouco credíveis de como quando eram bebés só se acalmavam se lhes pusessem a ver um filme de Ingmar Bergman!

Creio que tive um percurso pessoal e profissional normal, onde tive oportunidade e privilégio de poder estudar e de ter quem me apoiasse a tal. Tive igual sorte em ter acesso a muitas coisas e pessoas que me enriqueceram culturalmente numa fase da vida onde isso é muito importante. Com o Screenings Funchal, tenho o privilégio de continuar a trabalhar diretamente com pessoas maravilhosas, que nutrem uma paixão pelo cinema e pelo que fazem a que é impossível ficar indiferente e com as quais aprendo imenso. Algumas delas tenho a sorte de poder considerar amigos.

MHD: Que filmes tem visto durante a quarentena? E que mensagem de esperança gostaria de passar aos espectadores do Screenings Funchal e cinéfilos portugueses?

PP: Além de estar a aproveitar vários títulos que têm sido generosamente partilhados por vários realizadores, tenho-me dedicado a algumas coisas da minha coleção que geralmente ficam para trás, como os extras da edição especial blu-ray do delirante “One Cut Of The Dead” do Shinichirô Ueda. Sendo um adepto fiel da Cinema Bold, estou a seguir religiosamente os lançamentos semanais previstos para a plataforma de streaming Filmin.

Muitos destes lançamentos iam ser exibidos no Screenings Funchal, e espero ainda conseguir exibir alguns, como é o maravilhoso “Monos” de Alejandro Landes e o “Salve Satanás?” da Penny Lane. Tenho aproveitado as promoções generosas dos packs de filmes da Spamflix de onde já vi por exemplo o “John Dies At The End”.

Screenings Funchal
“Monos”, de Alejandro Landes, um dos filmes que estavam programados para a iniciativa © Stela Cine

Estou também a ver alguns dos filmes que me faltavam do Werner Herzog: “La Soufrière” (curta-metragem – 1976), “Heart of Glass” (1977). Este é um realizador que me tem feito bastante companhia nesta quarentena, porque além dos filmes que me escaparam (dos mais de 70), tenho seguido o realizador em paralelo pela forma literária, primeiro com o seu diário da famosa viagem a pé de Munique a Paris em pleno inverno, publicado pela Tinta da China intitulado “Caminhar no Gelo”, e agora com o “Sinais de Vida – Werner Herzog e o Cinema” publicado pelas Edições 70 e o IndieLisboa. Assim que o Screenings voltar, um dos filmes a ser exibido o mais rapidamente possível será o seu novo filme “Family Romance, LLC”.

Se tivesse de escolher um filme que durante esta quarentena me tivesse puxado verdadeiramente o tapete (no melhor sentido possível), seria o “Funeral Parade of Roses” (1969) do Toshio Matsumoto. E deixo a dica que está em pré-venda (data prevista 18 de Maio), uma edição em blu-ray (limitada a 3.000 unidades) pelo British Film Institute (adquirir aqui!)

MHD: Em nome da nossa equipa obrigado por estar envolvido em projetos de cinema na Madeira e que, honestamente, fazem o que há muito a região precisava.

PP: Espero que a minha entrevista tenha sido esperançosa, e acrescento apenas que os desafios com que teremos de enfrentar no processo de desconfinamento serão maiores que aqueles com que temos vindo a aprender a lidar, e vamos precisar de um grande espírito de entre-ajuda e de civismo. Nada que não esteja ao nosso alcance.

Grande parte dos filmes referidos por Pedro Pão poderão ser encontrados em DVD na FNAC, Amazon Espanha ou para aluguer na Filmin Portugal: “Monos” está disponível aqui. “Salve Satanás?” está disponível aqui. “Vitalina Varela” também está disponível aqui. Procura também qualquer um dos filmes referidos no catálogo na Prime Video.

👇Se precisares de ajuda, deixa o teu comentário em baixo que iremos ajudar-te a encontrares o filme referido por Pedro Pão que também queiras assistir.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

Virgílio Jesus has 1234 posts and counting. See all posts by Virgílio Jesus

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *