Foto do filme "Thelma e Louise" de Ridley Scott. estreado em 1991. ©MGM Studios

A 79.ª edição do Festival de Cannes 2026 arranca amanhã com Pierre Salvadori, Park Chan-wook no júri, Barbra Streisand e Peter Jackson homenageados, “Velocidade Furiosa” a queimar pneus à meia-noite e Portugal entre Coetzee, rios, pirilampos e realidade virtual. A Croisette volta a fingir que o mundo todo cabe num  grande ecrã de cinema.

A 79.ª edição do Festival de Cannes 2026 arranca esta terça-feira, 12 de maio, e até dia 23 o cinema mundial volta a mudar-se para a Croisette, essa avenida onde, durante onze dias, tudo parece mais importante, mais caro, mais urgente e ligeiramente mais ridículo. Há limusinas, seguranças, jornalistas, produtores a vender projectos ainda invisíveis, críticos à procura do bilhete electrónico e estrelas que passam muito depressa.

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Festival de Cannes 2026
Foto de Roland Neveu, no set de Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991) © MGM Studios / Design gráfico © Hartland Villa

O cartaz e o imaginário desta edição convocam “Thelma and Louise”, de Ridley Scott, exibido fora de competição em Cannes em 1991 e que regressa agora num Sessão Especial. A imagem continua poderosa: duas mulheres ao volante, a liberdade como fuga, o abismo como recusa de obediência. Mas o Festival de Cannes 2026 não pode ser apenas nostalgia bem fotografada. O festival parece antes perguntar o que resta hoje dessa vontade de escapar: escapar ao cinema transformado em conteúdo, ao algoritmo que decide gostos, à inteligência artificial que imita emoções como quem falsifica uma assinatura, à ideia de que a arte deve ser domesticada para caber numa estratégia de mercado. Cannes continua a ser isto, mas também uma grande feira onde se vendem filmes, um templo onde se canonizam cineastas-autores e ao mesmo tempo uma passadeira vermelha onde tanto se fala de guerras e misérias, como se veste de luxo  e jóias emprestadas. É contraditório? Muito. Mas também é isso que torna Cannes diferente dos outros festivais.

Pierre Salvadori abre a porta pela comédia

O filme de abertura será “La Vénus électrique”, do realizador francês Pierre Salvadori, apresentado em antestreia mundial no Grand Théâtre Lumière, depois naturalmente da cerimónia conduzida pela actriz franco-maliniana Eye Haïdara. A escolha é curiosa e até saudável: Cannes não abre com um colosso americano, nem com um drama político de maxilar cerrado, mas com uma comédia romanesca francesa, de época, assinada por um cineasta que sempre percebeu que o riso pode ser uma forma muito séria de pensar e de se manifestar. Salvadori aventura-se pela Paris do início do século XX, entre espectáculos populares, espiritismo, ilusão, mentira e falsos semblantes. Há nele uma herança evidente da comédia sofisticada americana — Lubitsch, Wilder, Blake Edwards — mas sem pose de aluno aplicado. Salvadori gosta de personagens frágeis, trapaceiras, sentimentais e um pouco partidas, gente que mente porque a verdade dá imenso trabalho e raramente vem com boa luz. O elenco junta Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche, Vimala Pons e Gustave Kervern. Ou seja, Cannes abre com cinema francês, mas não com cinema francês engomado. Abre a rir. E talvez seja uma boa ideia: antes de onze dias de traumas familiares, guerras, culpas históricas e conferências de imprensa graves e além disso convém lembrar que o cinema também sabe e consegue respirar, no meio de tanto mal no mundo.

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Festival de Cannes 2026
Thierry Frémaux voltou a fazer aquilo que sabe melhor. ©FranceTV

Actrizes, autores e candidatos naturais

Marion Cotillard e Virginie Efira são dois rostos fortes desta edição. Fotografadas por Anton Corbijn para a “Madame Figaro”, numa evocação livre de “Thelma and Louise”, surgem como símbolos de uma actriz contemporânea que já não quer apenas ser musa, vítima ou decoração de prestígio. Cotillard apresenta “Karma”, de Guillaume Canet, fora de competição, e “Roma Elastica”, de Bertrand Mandico, em sessão da meia-noite. Efira chega ainda mais carregada: está em “Histórias Paralelas”, de Asghar Farhadi, e “Soudain”, de Ryūsuke Hamaguchi, ambos em competição.A corrida à Palma de Ouro traz nomes pesados: Pedro Almodóvar traz “Amarga Navidad”, que em Portugal deverá chamar-se “Natal Amargo”, mais uma promessa de melodrama, autoficção, família, ferida e maquilhagem emocional. James Gray regressa com “Paper Tiger”, thriller familiar e criminal com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller. Farhadi filma em França com Efira, Isabelle Huppert, Vincent Cassel, Pierre Niney e Catherine Deneuve, um elenco que parece uma cimeira diplomática onde alguém vai mentir antes da sobremesa. Hamaguchi, no seu primeiro filme em francês, volta a apostar na conversa como arma de precisão. Nos seus filmes, ouvir alguém pode ser mais perigoso do que uma perseguição num automóvel vermelho.

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Festival de Cannes 2026
“La Vénus électrique” a abrir o festival, Cannes 2026 transforma uma ausência num manifesto. © Guy Ferrandis

Também há guerra, claro. Cannes gosta de lembrar que o mundo arde enquanto a Croisette discute se ténis de luxo contam como elegância ou desmazelo na passadeira vermelha. László Nemes traz “Moulin”, sobre Jean Moulin; Antonin Baudry apresenta “La Bataille de Gaulle: L’âge de fer”; Lukas Dhont surge com “Coward”, sobre soldados da Grande Guerra; Emmanuel Marre mergulha na França de Vichy com “Notre Salut”. Há ainda “Hope”, de Na Hong-jin, “Minotaur”, de Andrei Zviaguintsev, “Fjord”, de Cristian Mungiu, “Sheep in the Box”, de Hirokazu Kore-eda, e uma forte presença espanhola com Almodóvar, Rodrigo Sorogoyen e a dupla Javier Calvo/Javier Ambrossi. Em resumo: há dor, culpa, memória e famílias destruídas para todos os horários.

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Portugal não entra pela porta principal, mas entra bem

Portugal não está na competição principal de longas, mas aparece em várias frentes interessantes. “Aquí”, de Tiago Guedes, baseado na “Trilogia de Jesus”, de J. M. Coetzee, integra a Cannes Première. Não é uma divisão de sobras, nem uma arrecadação de filmes rejeitados: é uma montra de prestígio. O filme, produzido por Paulo Branco, promete ser uma proposta longa, literária, filosófica e estranha, sobre família, diferença, afecto e uma criança que não se deixa moldar pelo mundo.Nas curtas, há uma presença particularmente relevante. “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, de Daniel Soares, está na Competição Oficial de Curtas-Metragens e terá estreia mundial. O realizador regressa a Cannes depois de, em 2024, ter recebido uma Menção Honrosa à Palma de Ouro de Curta-Metragem com “Bad for a Moment”. A nova curta parte de uma imagem inquietante: adolescentes flutuam rio abaixo, fingindo estar mortos para as redes sociais, até que um deles vai à deriva. A partir daí, o filme toca na juventude, na precariedade, na invisibilidade social e nessa grande especialidade contemporânea: comunicar muito e olhar pouco.

VÊ TRAILER DE “LA VÉNUS ÉLECTRIQUE”

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Na La Cinef, dedicada a filmes de escolas, surge “Onde Nascem os Pirilampos”, de Clara Vieira, da Escola Superior de Teatro e Cinema. Um grupo de adolescentes acampa, dois jovens tentam perceber o que são um para o outro e um enxame de pirilampos conduz os corpos para a floresta. Há desejo, ansiedade climática, espiritualidade e medo do futuro. É uma curta de escola, mas também uma pequena luz no escuro e, no cinema português, às vezes um pirilampo, vale mais que um projector.E há ainda “Lúcido”, do artista multidisciplinar Vier, na Competição Imersiva, também em estreia mundial e uma novidade na programação das secções. É uma experiência interactiva de animação em realidade virtual sobre Gil, que aprende, com a ajuda do namorado, a controlar os seus sonhos. Obra queer, tecnológica e onírica, surge no momento certo ou seja quando também o Festival de Cannes 2026 discute as questões da inteligência artificial, que insiste que a tecnologia pode imitar sentimentos; senti-los é outra conversa.

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Streisand, Jackson, Vin Diesel e o júri da faca afiada

As Palmas de Ouro Honorárias do Festival de Cannes 2026 distinguem este ano Barbra Streisand e Peter Jackson. Streisand é cantora, actriz, realizadora, produtora, estrela absoluta e dona de uma carreira que conquistou o EGOT — Emmy, Grammy, Óscar e Tony — com uma rapidez quase ofensiva. De “Funny Girl” a “O Nosso Amor de Ontem”, passando por “Yentl”, fez aquilo que Hollywood durante décadas tolerou melhor nos homens: tomou decisões, ocupou espaço, dirigiu, produziu, cantou, interpretou e mandou.

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Aqui de Tiago Guedes
“Aqui”, do realizador português Tiago Guedes, na Cannes Première. ©Alfama Films/Divulgação

Peter Jackson é outro tipo de mito: o rapaz do gore que virou senhor dos anéis. Cannes conhece-o desde os tempos em que tentava vender “Bad Taste — Carne Humana Precisa-se” no Marché du Film. Depois vieram “Feebles, os Terríveis”, “Morte Cerebral”, “Amizade Sem Limites”, “Agarrem-me Esses Fantasmas”, “King Kong” e “O Senhor dos Anéis”, trilogia que transformou Tolkien em religião cinematográfica global e provou que o blockbuster também pode nascer de uma obsessão artesanal e profundamente cinéfila. A isto junta-se a sessão da meia-noite de “Velocidade Furiosa, 25 anos depois do primeiro filme. O mesmo Cannes que canoniza autores e debate geopolítica vai cheirar a pneu queimado e ouvir Vin Diesel pronunciar “família” como se estivesse a recitar tragédia grega numa garagem. Mas Cannes sempre viveu entre a capela e o circo. E, convenhamos, sem circo o cinema ficava muito mal-disposto.

Barbra Streisand em "Não Há Culpa Nem Desculpa!"
© 2012 – Paramount Pictures

A Palma será decidida por um júri presidido por Park Chan-wook, acompanhado por Demi Moore, Ruth Negga, Laura Wandel, Chloé Zhao, Diego Céspedes, Isaach De Bankolé, Paul Laverty e Stellan Skarsgård. Com Park ao volante, espera-se beleza, crueldade, desejo e talvez uma reviravolta moral servida com faca na mão e polvo vivo no prato. A decisão final será, como sempre, uma mistura de gosto, política, paixões sinceras, humores de sala e essa ciência oculta que transforma uns filmes em vencedores e outros em “injustamente esquecidos”. O Festival de Cannes 2026 promete exactamente o que deve prometer: estrelas, autores, guerra, vaidade, escândalos, homenagens, portugueses, motores, pirilampos e a velha fé no abismo. Durante onze dias, fingiremos que o cinema ainda manda no mundo. E talvez, no fundo, seja por isso que continuamos a ir.

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