Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Hand Habits - Placeholder Cover
Melhores Álbuns de 2019 | Placeholder
20. Hand Habits, placeholder (Saddle Creek, 1 Março)

Acompanhada principalmente por guitarra e percussão, a voz de Meg Duffy progride calmamente ao longo de placeholder. Passeamos e perdemo-nos por entre as suas inflexões de voz e emotivas melodias. Mas quando escutamos o que diz e começamos a entrar na sua narrativa, esfuma-se a aparente tranquilidade. Em placeholder, Meg afirma contar-nos histórias reais, descrevendo-nos uma pessoa com quem esteve em tempos, chegando mesmo a interpelá-la. Mas depois de acompanhar cada faixa múltiplas vezes, apercebemo-nos de que estas “histórias reais” não são mais do que um pano de fundo, para que Meg Duffy possa pôr em causa a mutabilidade do ser humano, interrogando-se sobre se podem realmente ocorrer mudanças verdadeiras e permanentes ou se, permanecemos eternamente num estado intermediário (“placeholder”), em constante mudança para ser algo novo. Duffy interroga o “you” a quem se dirige, interroga-nos a nós e interroga-se a si mesma, compulsivamente, parecendo ansiar por encontrar aquela clareza que lhe trará a calma e o repouso. Contudo, a única certeza atingida é a de que quanto mais se interroga, maior a dúvida que nasce em si. (MS)

Charly Bliss - Young Enough
Melhores Álbuns de 2019 | Young Enough
19. Charly Bliss, Young Enough (Barsuk, 10 Maio)

Young Enough faz jus ao seu nome, tanto à energia explosiva da fase da vida indicada pelo adjectivo, quanto ao teor dubitativo do advérbio: jovem o suficiente, jovem quanto baste, jovem ainda? Em lirismo e sonoridade, este é um álbum que habita a angustiada fronteira entre a adolescência e a idade adulta. De um lado, o vigor impaciente, a ilusão inocente e o desejo desmedido de entrega amorosa, conclamados pelo bombo retumbante e pelas guitarras pós-punk ora céleres, ora distorcidas, mas sempre melódicas e eufóricas. Do outro lado, a narrativa do esboroar-se do primeiro sério amor, do desgosto incrédulo diante dos destroços e da poeira a que tudo se reduziu (“it’s gonna break my heart to see it blown to bits”), ficando só as dúvidas sobre o futuro (“I don’t know what’s coming for me after 24”).

Lê Também:
Mês em Música | Playlist de Maio 2019

Tudo parece “a universe in mourning” e as melodias pop apenas tornam mais excruciante, por contraste, este retrato de devastação que culmina na pungente “Hurt Me”. No meio da mágoa, da frustração, do conflito, Eva Hendricks delineia mil e uma metáforas para tornar vívida, tão vívida quanto a sente, a intensidade da dor infligida. Só para, atravessando a turbulência do combate, em jeito de comovente pedido, a sua voz atingir como flecha o cerne do outro, até ao desejo que ele próprio esqueceu: “You don’t wanna hurt me, baby”. Neste verso lancinante é posta a nu, em carne viva, a nossa impotência diante do mal que fazemos sem querer e do bem que almejamos sem lá chegar, num álbum onde lampeja, carnal e idiossincrático, o talento poético de Eva Hendricks. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | I Am Easy to Find
18. The National, I Am Not Easy to Find (4AD, 17 Maio)

I Am Not Easy to Find é o oitavo álbum da, provavelmente, banda alternativa mais influente do nosso tempo. Brooklyn, os gémeos Dessner, os gémeos Devendorf e Matt Berninger estão por trás, ou de alguma forma relacionados, e em apoio a centenas dos melhores projetos musicais de que falamos nestas páginas há já alguns anos. Sintomático pois o nascimento deste belo álbum, em parte banda sonora da curta art-house de 25 mins realizada por Mike Mills, e que explica a melhor imagem de capa até agora dos The National, com a icónica Alicia Vikander como protagonista. Da colaboração de Matt Berninger resultou uma épica e algo caótica compilação de belas músicas, em tons intimistas e mais variados que o habitual. A abertura à comunidade artística dos The National é desta feita mais ampla ainda, e ao longo dos 64 minutos e 18 variadas faixas, temos não só a colaboração do Brooklyn Youth Chorus, como ainda Gail Ann Dorsey, Eve Owen, Diane Sorel, Mina Tindle, Lisa Hannigan, Sharon Van Etten e Kate Stables. ‘Where Is Her Head’, uma das melhores músicas até hoje da banda, celestialmente interpretada por Eve Owen, é talvez aquela que melhor representa esta partilha e abertura. Sem a solidez estilística e conceptual de Alligator, Boxer ou Trouble Will Find MeI Am Not Easy to Find é sobretudo uma festa para os sentidos e a auto-determinação da banda enquanto animadores culturais de eleição. (RR)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Purple Mountains
17. Purple Mountains, Purple Mountains (Drag City, 12 Julho)

Na nossa lista “Os 25 Melhores Álbuns de 2019”, a distinção de álbuns de estúdio que relatam experiências pessoais e a sempiterna busca por uma “força de salvação” fidedigna é um dado recorrente. Nesta veia, o disco epónimo Purple Mountains (2019) representa a última entrada no diário do músico e poeta David Berman e uma manifestação franca da ausência de motivos para viver. Todavia, se há quem considere que a vida é a “grande obra-de-arte”, há também quem opte por colocar a arte ao serviço da vida. Purple Mountains não deve ser assimilado como uma carta de despedida, mas sim como uma súplica por ajuda que terá sido vítima de interpretação leviana.

No seio do disco detetamos uma genuína vontade de David Berman de juntar forças para sonhar, lutar e contemplar a beleza do mundo durante mais um dia, elemento espelhado na instrumentação “Americana”. Se o timbre da harmónica reveste as letras fúnebres de tons quentes e reminiscentes de um fim de tarde a apreciar o pôr-do-sol, sentado na berma de uma estrada deserta, esta mesma preferência pela sonoridade heartland rock, género de música caracterizado por uma conotação redentora e esperançosa, denota a forte convicção de que a música rock possui uma finalidade social e comunitária e não apenas de entretenimento de uma audiência. Purple Mountains eleva este ethos a uma posição de destaque. “Nights That Won’t Happen” evidencia a débil condição psicológica de David Berman e o peso que o falecimento da mãe e o divórcio de Cassie Berman, após vinte anos de comunhão, tiveram no seu bem-estar pessoal e na visão do mundo. Conjuntamente, deixa a nu o fatal enamoramento do cantautor com a morte (“The dead know what they’re doing when they leave this world behind”) e uma tentativa de encontrar compreensão e apoio no corpo social e sobretudo no seu íntimo (“And when the dying’s finally done and the suffering subsides/ All the suffering gets done by the ones we leave behind”). Uma tentativa minuciosamente redigida, eternamente retentora do coração amargurado de David Berman e do seu “grito” final, frouxo, mas ainda assim autêntico.

Purple Mountains deve ser revisitado desta forma: um artefacto fabricado com mestria e um exemplo notável do poder da arte enquanto forma de expressão. No entanto, sempre com ponderação e maturidade, já que a decisão de David Berman de retornar ao mundo da música, mais de uma década depois do lançamento de Lookout Mountain, Lookout Sea (2009), para divulgar aquele que viria a ser o seu trabalho derradeiro, não pode ser encarada de ânimo leve por parte da comunidade ouvinte. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019 | Oh My God
16. Kevin Morby, Oh My God (Dead Oceans, 26 Abril)

Um álbum para ser escutado no silêncio acima das nuvens ou na pacificidade de um santuário. Oh My God, o quinto álbum de originais de Kevin Morby, é composto por canções espirituosas, de linguagem religiosa e sonoridades que mesclam o gospel com o rock’n’roll e que encerra com um hino Dylanesco, “O Behold”, candidata a canção mais depressiva do ano. Neste registo, Morby oferece o seu álbum mais maduro até à data, onde cada composição parece estar no lugar certo e revela fragmentos de uma jornada profundamente introspetiva que, pedagogicamente, é também capaz de guiar quem o escuta no caminho da luz, do conforto. É o álbum feel-good do ano. (DR)

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *