© 2021 Cross City Films Limited/Courtesy of Netflix

Óscares 2022 | Quantos prémios merece O Poder do Cão?

Os Óscares 2022 são entregues no dia 27 de março. Vamos analisar as 12 nomeações de “O Poder do Cão” e perceber quantas estatuetas pode vencer.

Será que é desta que Jane Campion vence o Óscar de Melhor Realizador? Será “O Poder do Cão” a primeira produção da Netflix a ganhar o Óscar de Melhor Filme? Nestes dias tão decisivos queremos saber quais são as chances de “O Poder do Cão” triunfar na 94ª edição dos prémios da Academia que ocorrerá no próximo domingo (dia 27 de março) e conta com transmissão em direto assegurada pela MHD.

O Poder do Cão
© 2021 Cross City Films Limited/Courtesy of Netflix

Neste artigo, analisaremos em pormenor cada uma das nomeações deste western inspirado no romance semibiográfico de Thomas Savage, publicado em 1967. Pelo que temos visto durante a temporada de prémios 2021/2022, “O Poder do Cão” tem recebido aclamação generalizada, muito ao género do que aconteceu no ano passado com “Nomadland – Sobreviver na América”, de Chloé Zhao. De qualquer maneira, não poderemos dar as suas vitórias como garantidas, porque a Academia, lá de vez em quando, consegue surpreendermos e atirar para o lado menos previsível.

Lê Também:   Óscares 2022 | Quem vai ganhar vs. quem devia ganhar

Basta relembrarmos a edição dos Óscares 2019, onde fomos completamente enganados. Aí, o Óscar de Melhor Filme não foi entregue a “Roma” de Alfonso Cuarón nem sequer a “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, mas antes a um filme extremamente conservador e tradicional, que já nem nos lembramos. “Roma”, por exemplo, tinha conseguido 20 vitórias de Melhor Filme ao longo da temporada e foi recordista de prémios nessa altura – continua a ser um dos filmes mais prestigiados da Netflix.

Irá a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas pregar-nos outro susto? Poderá a Netflix finalmente respirar de alívio e ser consagrada na categoria principal? “O Poder do Cão” tem possibilidade de alcançar algo nunca antes visto na história destes prémios, não só na categoria principal, como em algumas categorias técnicas. Segue as setas abaixo e fica a par desta análise.

O Poder do Cão
© 2021 Cross City Films Limited/Courtesy of Netflix

A 94ª edição dos Óscares da Academia contará com apresentação de Regina Hall, Amy Schumer e Wanda Sykes. “O Poder do Cão” é precisamente o filme mais nomeado, onde concorre em 12 categorias. Toma cuidado porque o nosso artigo contém SPOILERS sobre o enredo deste drama e não queremos que o leias sem que o tenhas visto.

Confere primeiro se o filme de Jane Campion está exibição numa sala de cinema perto de ti ou encontra-o no catálogo da Netflix Portugal, se fores subscritor da plataforma.




Óscar 2022 de Melhor Banda Sonora

O Poder do Cão temporada de prémios 21/22 Óscares 2022
Jesse Plemons e Kirsten Dunst em “O Poder do Cão” © Cross City Films Limited/ Netflix

Jane Campion está mais do que habituada em trabalhar com os compositores mais aclamados de cinema. Tirou proveito do trabalho de Michael Nyman para “O Piano” (1993), um dos dramas mais aclamados dos Óscares nos anos 90 e que a tornou numa cineasta de renome. Para “O Poder do Cão“, a neozelandesa pediu ao guitarrista e membro dos Radiohead Jonny Greenwood a criação de sons misteriosos e ameaçadores, que pouco a pouco colocassem o coração dos espectadores a bater mais rápido.

Jonny Greenwood é afamado pelas suas colaborações com Paul Thomas Anderson – fê-lo em “Linha Fantasma” (2017) e “Licorice Pizza” (2021) – e tem aqui tem um dos seus trabalhos mais pomposos. A banda-sonora de “O Poder do Cão” aborda perfeitamente a repressão sentida pelas personagens, seja através do piano propositadamente desafinado ou através de um violoncelo, que nos encapsula para os dramas de três homens e uma mulher no velho oeste norte-americano. Juntam-se alguns sopros, cordas de banjo e metais que embora relativamente breves (a banda-sonora tem pouco mais de 40 minutos), deixam uma sensação de mal-estar constante nas duas horas do filme.

“O Poder do Cão” é um western, mas a banda-sonora não tem o lado escapatório de um grande épico de Hollywood, não tem uma intenção nostálgica de transportar-nos para a Hollywood dos anos 30-50, quando o western era uma das normativas. Numa das raras entrevistas que concedeu, Jonny Greenwood disse à Variety que essa não era a sua intenção.

Eu queria evitar cordas arrebatadoras para acompanhar paisagens arrebatadoras. Quando Peter se aventura nas montanhas e no deserto, é uma paisagem estranha e proibida. É engraçado, eu inspirei-me mais nas cenas de “Star Trek” dos anos 60 que, pelo menos na minha memória, tinham muito de atonal. Eu contratei alguns trompistas e escrevi alguns duetos para eles. Foi um dia muito divertido – gravamos numa grande igreja em Oxford, com a intenção de que o efeito reverb na igreja fosse o terceiro instrumento.

Lê Também:   Óscares 2022 | Onde ver os filmes nomeados

Acreditamos que a sonoridade nervosa de Jonny Greenwood não se atinge todos os dias e o compositor merece ganhar o Óscar por “O Poder do Cão”. Seria o primeiro Óscar para Greenwood após duas nomeações – a primeira foi conseguida nos Óscares 2018 com “Linha Fantasma” (2017). Infelizmente, a categoria já tem outro favorito: Hans Zimmer por “Dune”, que desde 1995 não ganhou mais nenhum Óscar. Outra alternativa interessante nesta categoria parece-nos ser Alberto Iglesias por “Mães Paralelas”, numa das raras vezes em que um filme internacional consegue ser nomeado pela Academia para o Óscar de Melhor Banda Sonora Original.




Óscar 2022 Melhor Montagem

o poder do cao critica leffest
“O Poder do Cão” | © Netflix

As chances de “O Poder do Cão” vencer o Óscar de Melhor Filme são muito altas, portanto poderemos imaginar será o grande favorito ao Óscar de Melhor Montagem, caso queiramos ignorar a concorrência de “Dune”.

Lê Também:   Retrospetiva Jane Campion | O Piano (1993)

Esta é uma das categorias mais importantes da Academia, porque normalmente um candidato ao Óscar de Melhor Montagem tem maiores chances de vencer o Óscar de Melhor Filme. Nos últimos 40 anos apenas uma obra arrecadou o Óscar de Melhor Filme sem sequer ser nomeado nessa categoria – falamos de “Birdman” (Alejandro G. Iñarritú, 2014). A última produção a ganhar os Óscares de Melhor Filme e Melhor Montagem foi “Argo” (Ben Affleck, 2012) há praticamente 10 anos atrás. Finalmente, “O Poder do Cão” assume-se como um título relevante capaz de levar para casa ambas estatuetas.

Esta obra marca inclusive a primeira colaboração entre Jane Campion e o editor Peter Sciberras (conhecido pelo filme “O Rei”) e resultou de uma reunião de três horas entre estes artistas, que não se conheciam pessoalmente. O trabalho de Peter Sciberras cai que nem uma luva nas ambições de Campion e percebe-se que contemplaram as coisas de uma maneira muito similar. É isso que nos fala Peter Sciberras na entrevista abaixo.

O editor é responsável por dar aquele ritmo pausado, mas sempre intrigante a “O Poder do Cão” e é responsável por estruturar a narrativa em capítulos, respeitando o texto base de Thomas Savage. O objetivo de Sciberras era conseguir cortes elegantes, sem nunca perder a tensão desde o primeiro minuto ao último minuto.

Jane Campion diz-se ter inspirado no ritmo da cinematografia de Robert Bresson, o cineasta francês que a partir de tramas tão simples, criava momentos capazes de colocar a audiência à beira de um ataque de nervos. Em “O Poder do Cão” o maior exemplo é o duelo musical entre Phil (Benedict Cumberbatch) e Rose (Kirsten Dunst). Ali, o editor consegue fazer-nos entrar na cabeça de duas personagens que se odeiam mutuamente e discutem mesmo no silêncio e da amargura do lar.




Óscar 2022 Melhor Som

The Power of the Dog
O Poder do Cão © KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

O Poder do Cão” lamentavelmente tem poucas chances de levar para casa o Óscar de Melhor Som, que nos últimos tempos tem sido essencialmente entregue a um ou outro blockbuster. Para além do gigantesco “Dune” de Denis Villeneuve, “O Poder do Cão” terá que lidar com “West Side Story”, que provavelmente arrecadará o prémio. Não quer isto dizer que o trio Richard Flynn, Robert Mackenzie e Tara Webb fizeram um mau trabalho. O som em “O Poder do Cão” é tão importante quanto as suas imagens, sobretudo pela maneira inteligente como os mais pequenos elementos poderão relevar detalhes mais fascinantes.

Lê Também:   Dune - Duna, em análise

Por exemplo, a desorientação de Rose ao piano coloca a nu a sua fragilidade, a crescente hostilidade que Phil alimenta por esta mulher através do seu banjo e assobio transmitem mais sobre as personagens em segundos, do que a maioria dos filmes consegue fazer em duas ou mais horas. Jane Campion não queria que os sons tivessem um propósito escapatório, mas que nos fizessem mergulhar na narrativa e, consequentemente, nos permitissem decifrar certos comportamentos. A partir dos sons psicologicamente instáveis, Rose, por exemplo, será incapaz de distinguir realidade de imaginação. O som fá-la cair, fá-la perder a conexão com o mundo e com o seu filho que tanto ama.

O mesmo poderemos dizer de uma faca que corta couro cru ou o momento em que Phil começa a traçar uma nova corda para o jovem Peter. São sons íntimos que, embora pareçam minimalistas e típicos de rancho arcaico perdido no meio do nada, são reveladores das maiores surpresas. Se queres conhecer mais sobre os desafios para a concretização dos sons de “O Poder do Cão” em Dolby Atmos® deverás assistir ao vídeo acima, também disponível em podcast na Apple Podcasts e Spotify.




Óscar 2022 Melhor Design de Produção

Benedict Cumberbatch
Benedict Cumberbatch, “The Power of the Dog” | KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

No Óscar de Melhor Design de Produção, os membros da Academia terão uma tarefa deveras díficil, porque todos os filmes são marcantes nos seus sets e criam ambientes particulares para as respetivas tramas, tão distintos uns dos outros. Inesperadamente, encontramos alguns pontos em comum. “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas”, “A Tragédia de MacBeth”, “Dune”, “West Side Story” e “O Poder do Cão” são filmes sobre pessoas que não conseguem controlar os espaços em seu redor, seja num planeta mais distante possível ou mesmo numa casa de madeira em Montana. Os espaços começam a ruir à medida que nos emaranhamos na história e não há forma de pará-lo.

O designer de produção Grant Major teve a sorte de conseguir construir tudo do zero, numa zona montanhosa da Ilha Sul da Nova Zelândia chamada Home Hills. Ali Major conseguiu encontrar o lugar certo para evidenciar o apego quase enervante de Phil ao passado e à sua relação com Bronco Henry. Para a mansão de “O Poder do Cão”, recorreu aos materiais especificamente utilizados no século XIX, como os mais finos vidros que compõem as janelas. No interior desta casa encontramos outros elementos que representam os desejos suprimidos de Phil e que jamais conseguiram persistir nos anos 20. Quanto ao exterior, a equipa adotou um processo meticuloso para dar à casa a aparência desgastada. Houve também uma preocupação em transformar a paisagem verdejante da Nova Zelândia num terreno árido através de um produto orgânico. Quando as filmagens terminaram, o set foi demolido com do material usado a ser entregue para lenha aos agricultores locais. Assiste ao vídeo abaixo para conhecer todos os detalhes da arquitetura de “O Poder do Cão”.

Quanto à possibilidade de “O Poder do Cão” vencer o Óscar de Melhor Design de Produção? Pode ser que tenha sorte e consiga sair vitorioso. Enquanto esperamos pelo resultado final, poderás ouvir a entre com Grant Major sobre este seu trabalho.




Óscar 2022 Melhor Fotografia

Kodi Smit-McPhee em "The Power of the Dog" óscares 2022
Kodi Smit-McPhee em “The Power of the Dog” |©Netflix

Entramos na categoria que todos precisamos falar. A diretora de fotografia Ari Wegner é apenas a segunda mulher nomeada ao Óscar de Melhor Fotografia, depois da nomeação histórica para Rachel Morrison pelo filme “Mudbound” (Dee Rees, 2017). Escusado será dizer que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já deveria ter quebrado o estigma de nomear mulheres nesta categoria e que este ano deveria tê-lo feito pelo menos mais uma ou duas vezes.

Wegner é uma jovem promissora neste ramo, cujo caminho para o estrelato fez-se ao longo de 2021. Primeiro com “Zola”, onde mostra como a realidade e o ciberespaço podem misturar-se e depois com “O Poder do Cão“, onde filma a Ilha Sul da Nova Zelândia como se fosse Montana nos Estados Unidos. A diretora de fotografia, numa estreita colaboração com Grant Major, faz referências visuais a esse local e que incluíam fotos contemporâneas do estado norte-americano elaboradas pela fotojornalista Evelyn Cameron, alguns postais e jornais da época. Ari Wegner foi a grande responsável por dar a “O Poder do Cão” o seu espaço, por favor com que o verdadeiro cão da história causasse um grande impacto.

Ao longo do filme não existem movimentos de câmara emocionalmente persuasivos. A direção de fotografia de Ari Wegner acaba por ser relativamente clássica, porque o objetivo de Jane Campion sempre foi envolver os espectadores no seio daquelas montanhas e prepará-los para conectarem-se com as pesonagens. As extravagâncias são sentidas mentalmente, no interior de cada figura com a qual nos cruzamos. Temos um ambiente devastadoramente belo e selvagem, onde as emoções vêem à superfície. As cores mais escuras da mansão Burbank constrastam com os tons cintilantes quase transcendentes, que encontramos no esconderijo de Phil. O lugar serve igualmente como uma excepção do filme, mas também parece-nos como o sítio mais autêntico e necessário para estabelecer a relação entre Phil e o espectador.




Óscar 2022 Melhor Ator Secundário (x2)

o poder do cao critica leffest
© Netflix

“O Poder do Cão” é um filme de atores e, curiosamente, as suas quatro estrelas estão na corrida aos Óscares. Para o Óscar de Melhor Ator Secundário tem duas nomeações. Não será fácil destronar Troy Kotsur em “CODA”, mas as interpretações de Kodi Smit-McPhee e Jesse Plemmons são fundamentais para esta trama. Ambos concorrem pela primeira vez a uma estatueta dourada e sucedem a Daniel Kaluuya e Lakeith Stanfield que foram nomeados para a mesma categoria em 2021 pelos seus desempenhos no filme “Judas e o Messias Negro”.

Kodi Smit-McPhee tem-se consolidado como um dos grandes favoritos nesta temporada de prémios. Foi ele que ganhou o Globo de Ouro e não falhou qualquer nomeação – dos BAFTA aos SAG. É ele quem dá vida a Peter, esse jovem alto e legrinhas bastante reservado, que parece esconder qualquer coisa por detrás da sua sensibilidade. O facto de ser instrospetivo, ter um rosto sempre limpo e luminoso funciona como uma figura totalmente oposta à masculinidade fria de Phil e acaba por criar um verdadeiro duelo de gerações. Há ainda um comportamento pausado e discreto de Smit-McPhee em comparação com as outras personagens, sendo a ambiguidade do argumento ainda mais potente graças ao desempenho deste ator. Aqui abandona as suas experiências em filmes mais juvenis e sai, por completo, da sua zona de conforto.

the power of the dog Óscares 2022 onde ver os filmes nomeados
The Power of the Dog (O Poder do Cão) © KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

Jesse Plemons dá vida a George em “O Poder do Cão” e oferece-nos uma personagem bastante interessante, incapaz de fazer frente ao seu irmão Phil. É um oposto aos cowboys robustos e musculosos que vemos maioritariamente no ecrã. George é um homem sensível, uma bolha de lágrimas prestes a explodir que precisa de sarar as feridas do passado. Esta sua masculinidade frágil é também um pouco ingénua, porque nem sempre George percebe a malícia do irmão. Plemons permite que a sabedoria de George para os negócios se confunda com o seu coração mole, dando à personagem a seriedade que necessita. Basta vermos o momento em que decide ajudar Rose a servir às mesas. Mostra-se a solidariedade de um homem vítima de violência doméstica que tem que aprender a dar a mão ao outro, quando o seu irmão não está por perto.




Óscar 2022 Melhor Atriz Secundária

o poder do cao critica leffest
© Netflix

Tal como Jesse Plemons, o seu marido na ficção e na realidade, Kirsten Dunst está na corrida ao Óscar, na categoria de Melhor Atriz Secundária, por “O Poder do Cão”. Tardou algum tempo até ser nomeada, mas depois de trabalhos impressionantes em “Melancolia” (Lars von Trier, 2011) e “Maria Antonieta” (Sophia Coppola, 2005), Dunst foi finalmente abraçada pela Academia.

Kirsten Dunst é Rose, uma mulher no mundo de homens que não só tem de lidar com a relação amorosa com George Burbank, como faz de tudo para agradar ao amargurado cunhado Phil. Os seus esforços são em vão e, a partir daí, vai cair numa série de desgraças naquela que é uma das transformações mais marcantes da atriz. Rose é uma flor à espera que as pétalas lhe sejam arrancadas, alguém que perdeu a sua confiança e autoestima e não se consegue proteger num mundo de homens machistas e egocêntricos. Nunca duvidamos da sua bondade e de uma certa pureza, por isso percebemos as razões para o seu desconforto.

É de de tirar o chapéu a Kirsten Dunst, pelo facto de ter mantido a distância de Benedict Cumberbatch durante a rodagem, tão envolvida que estava na sua personagem. Para a atriz da trilogia original de “Homem-Aranha” não foi apenas uma oportunidade de colaborar com Jane Campion, como também de trazer ao de cima algumas questões mais pessoais e dar voz a uma mulher que lhe parecia autêntica. O trabalho exigiu uma subtil transformação física, sobretudo na alteração do seu tom de voz, que é relativamente mais doce e mais suave. Para Kirsten havia que dar a impressão da sua personagem ter um aperto constante no peito, um nó na gargante que a deixava com medo de se expressar.

Kirsten Dunst assim como Kodi Smith-McPhee e Jesse Plemons não parecem ter quaisquer chances nos Óscares do próximo domingo. Neste caso, a estatueta de Melhor Atriz Secundária deverá ser justamente entregue a Ariana DeBose cuja performance por si só justificou realizar uma nova versão cinematográfica de “West Side Story”. A ver vamos para onde Kirsten Dunst vai a seguir.




Óscar 2022 Melhor Ator

Óscares 2022
© 2021 Cross City Films Limited/Courtesy of Netflix

Benedict Cumberbatch sempre foi atraído por personagens ásperas, mas o seu desempenho aterrorizante como Phil Burbank em “O Poder do Cão” é um dos mais potentes da sua carreira (pedimos desculpa aos fãs de Doutor Estranho).

Este não é um herói unilateral do faroeste como as personagens de John Wayne. Resulta que em Phil temos um adepto de uma masculinidade tóxica, extremamente agressivo quando observa momentos de delicadeza. Ninguém ao seu redor deverá ser feliz, porque ele na sua frustração – e no seu tempo – também não consegue. A tensão é tanta que o espectador chega a desejar-lhe o pior, quanto é o mal que pratica para com os outros.

Este é um desempenho inquietante e, minuto a minuto, percebemos que Phil é muito mais do que o alfa da família. Quando os momentos duros começam a florescer, descobrimos que Phil encontrou uma forma para defender-se do mundo que despreza a sua natureza. Cumberbatch dá-lhe a vulnerabilidade proibida, além de tornar os gestos bastante mais cínicos, quase anti-naturais. Como o próprio já revelou em algumas entrevistas, o ator está num terreno que não se sente confortável, não tomava banho e ingeriu nicotina. Vejamos a entrevista abaixo onde Cumberbatch conta-nos mais sobre esta performance.

Benedict Cumberbatch oferece a melhor interpretação do lote de nomeados ao Óscar de Melhor Ator, mas quem levará o prémio será Will Smith por “King Richard: Para Além do Jogo”. Smith é apenas o segundo ator negro a receber dupla nomeação por Melhor Filme e Melhor Ator depois de Denzel Washington por “Vedações”. Esta é ainda a terceira nomeação de Smith para interpretação e achamos que a vitória vem relativamente atrasada, afinal falamos de um dos maiores nomes de Hollywood. Se Cumberbatch chegar a destroná-lo, o que será pouco possível, será uma surpresa agradável, afinal o ator britânico continua com a participar em sucesso de bilheteira – “Homem-Aranha: Sem Volta a Casa” e a ser visto em programas de grande prestígio.




Óscar 2022 Melhor Argumento Adaptado

© 2021 Cross City Films Limited/Courtesy of Netflix

Jane Campion foi responsável pela realização e também pela adaptação do romance de Thomas Savage. Tal como os restantes livros de Savage, “O Poder do Cão” não foi um sucesso comercial no seu tempo. Muito parecido com o próprio Peter, o autor cresceu numa fazenda no sudoeste de Montana na década de 1920 junto da sua mãe, do seu padrasto e do seu maléfico tio. Tanto no livro como no filme, Phil fala-nos imediatamente de Bronco Henry, esse cowboy corpulento que o ensinou praticamente tudo sobre gado. Não existem flashbacks e as memórias são trazidas para o presente através de palavras, pequenos atos eróticos de traçar corda ou através de uma macia sela de equitação.

Temos um argumento que sabe como aproximar-se do material original com respeito, tornando-o em algo único e estimulante. Não há qualquer dúvida que o trabalho de Jane Campion como argumentista é igualmente digno de ganhar o prémio que no último ano foi entregue a Florian Zeller e Christopher Hampton por “O Pai”. Contudo, sentimos que esta é uma categoria difícil para Jane Campion, sobretudo porque ainda não ganho nenhum prémio relevante. O prémio atribuído pela Universidade do Sul da Califórnia foi dado a Maggie Gyllenhaal pelo seu trabalho em “A Filha Perdida”, o BAFTA e o Writers Guild Award foi entregue a “CODA” e alguns festivais e associações de críticos celebram a Ryusuke Hamaguchi e Takamasa Oe pelo texto de “Conduz o Meu Carro” que em 3 horas consolidaram uma narrativa cinematográfica de pouco mais de 20 páginas.

Esta é a dupla que consideramos ser merecedora do Óscar, sobretudo quando as adaptações estrangeiras são praticamente esquecidas nesta categoria. Tal como “O Poder do Cão”, “Conduz o Meu Carro” é um filme pausado, onde as palavras são ditas como na vida real e não como um romance. Mesmo assim, se há um Óscar que este filme japonês merece ganhar e “O Poder do Cão” merece ser colocado de lado por uns minutos, é este.




Óscar 2022 Melhor Realizador

The Power of the Dog
O Poder do Cão © KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

Após 12 anos desde a sua última longa-metragem, Jane Campion esteve ocupada com algumas produções televisivas. Um regresso em grande para “O Poder do Cão” merece uma aclamação ainda maior da indústria. Depois de Chloé Zhao ter vencido o Óscar de Melhor Realizador no ano passado, chegou a vez de Campion tornar-se apenas na 3ª mulher e a 1ª cineasta neozelandesa vencedora desse Óscar. Obviamente queremos chegar a um tempo em que esta diferença de géneros não é questionada, mas neste momento celebrar a carreira de Jane Campion nos Óscares faz mais sentido do que nunca. “O Poder do Cão” é impressionante pela forma como explode testosterona para nos mostrar o passado conservador na história dos EUA, onde não parecia não espaço para versões mais realistas de masculinidade.

Jane Campion sempre se mostrou fascinada pelos prazeres mais obscuros e por pessoas que nem sempre são as mais fortes. Campion neste seu filme continua a ser uma realizadora dos silêncios, que faz com que a audiência perceba o potencial único dos sons e dos gestos. Para “O Poder do Cão” os seus atores passaram por longos ensaios, a fim de conseguirem transmitir aquilo que queria. A persistência é a grande tarefa de um realizador e o golpe de mestre de Jane Campion.

A sua abordagem vai mais longe dos clichés e aponta para algo milagroso, mas nunca pretensioso. É empolgante perceber como Campion preparou-se para “O Poder do Cão“, afinal o processo de pré-produção demorou mais tempo que a produção. A realizadora quis mesmo perceber mais sobre o ambiente no qual iria rodar – Nova Zelândia – e o ambiente do qual iria falar – Montana, que estão separados por 12.224 quilómetros.

Quanto às chances de Jane Campion nos Óscares? A vitória é praticamente certa. É bom saber que a Academia consegue abraçar os melhores cineastas internacionais, desde Alfonso Cuarón, a Guillermo del Toro, a Bong Joon-ho ou a Chloé Zhao. Os Óscares vão finalmente celebrar Jane Campion pela arte que melhor sabe fazer. Deixemos aqui um excerto do texto “Inside Jane Campion’s Cinema of Tenderness and Brutality” publicado no The New York Times sobre a cineasta.

Apesar das realidades sombrias enfrentadas pelas suas personagens, os seus filmes muitas vezes se assemelham a alegorias ou mitos – ou, na verdade, sonhos. Eles são tão densamente revestidos de metáforas visuais, tão cheios de arquétipos e símbolos, que operam como os seus próprios sistemas semióticos. Um gato nunca é apenas um gato. Muitas vezes está a faltar alguém ou está simplesmente fora da nossa vista. A ação às vezes parece prosseguir de acordo com a lógica do sonho, ao mesmo tempo desconcertante e inevitável. Os filmes são radiantes e até psicadélicos nos seus detalhes, tão intensos no seu olhar – na nuca, na contração de uma cortina, na cor da água – que parecem transmitidos diretamente do subconsciente ou diretamente para o subconsciente.

Com o “O Poder do Cão”, Jane Campion venceu o Globo de Ouro, o BAFTA, o Critics Choice e o Directors Guild Awards. Jane Campion é apenas a primeira mulher a ser nomeada duas vezes pela realização. Além disso, Campion é apenas a quarta mulher a conseguir três nomeações num único ano, depois de Sofia Coppola, Fran Walsh e Emerald Fennell. Chloé Zhao fez história nos Óscares 2021 por ter conseguido com quatro nomeações com “Nomadland”. Se “O Poder do Cão” vencer nas três categorias – Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento – Jane Campion quebra um recorde impressionante. Seria apenas a primeira mulher a consegui-lo e 9ª pessoa depois da lista de autores:

  • Leo McCarey por “O Bom Pastor” (1944);
  • Billy Wilder por “O Apartamento” (1960);
  • Francis Ford Coppola por “O Padrinho: Parte II” (1974);
  • James L. Brooks por “Laços de Ternura” (1983);
  • Peter Jackson por “O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” (2003);
  • Joel Coen e Ethan Coen por “Este País Não é Para Velhos” (2007);
  • Alejandro G. Iñárritu por “Birdman” (2015);
  • Bong Joon-Ho por “Parasitas” (2019).

O mesmo poderá acontecer com um dos seus concorrentes mais próximos, Kenneth Branagh (“Belfast”), também ele nomeado nessas três categorias. Mas não vemos, neste momento da corrida, nenhum rival à altura de Jane Campion.




Óscar 2022 Melhor Filme

O Poder do Cão
KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX/KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX – © 2021 Netflix, Inc.

Terminamos com o Óscar de Melhor Filme, não poderia ser de outra forma. “O Poder do Cão” é uma força da natureza, que ao primeiro visionamento poderá ser tremendamente doloroso pelo seu ritmo pausado, mas uma vez conhecidas as intenções de Jane Campion, percebemos a relevância de trazer o homoerotismo para o western, nem que seja para desagradar as mentes mais conservadoras da América como Sam Elliot. Queremos ver e rever este filme para a eternidade e sentimos que “O Poder do Cão” é uma verdadeira obra prima que merece vencer o Óscar de Melhor Filme. Quanto mais pensamos sobre ele, mas nos gratificamos por Jane Campion ter apostado numa história profundamente multifacetada.

“O Poder do Cão” entra pelas nossas veias adentro e o tanto que tem de desagradável, deixa-nos a questionar após a sua conclusão. Este não é um western que todos queremos, mas é um western necessário, para entendermos a sociedade em que vivemos, ou melhor, para entendermos que o próprio passado norte-americano encontrou um lugar mítico no cinema, que esquecemos que essa era também uma construção, uma construção que apagou durante anos todas as outras possibilidades de existência de personagens sensíveis, frágeis e humildes no género. Jane Campion dá-nos a conhecer seres deste mundo, que até agora nos pareciam invisíveis.

Se “O Poder do Cão” ganhar o Óscar de Melhor Filme será o terceiro filme realizado por uma mulher a consegui-lo. Além disso, será o 13º filme com produtoras a alcançar o galardão, depois de Julia Phillips por “A Golpada” (1973), Lili Fini Zanuck por “Miss Daisy” (1989), Wendy Finerman por “Forrest Gump” ( 1994), Donna Gigliotti por “A Paixão de Shakespeare (1998), Fran Walsh por “O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” (2003), Cathy Schulman por “Colisão” (2005), Kathryn Bigelow por “Estado de Guerra” (2009), Dede Gardner por “12 Anos Escravo” (2013) e “Moonlight” (2016), Nicole Rocklin por “O Caso Spotlight” (2015), Kwak Sin-ae por “Parasitas” (2019) e Frances McDormand, Mollye Asher e Chloé Zhao por “Nomadland – Sobreviver na América” (2020).

Seria o primeiro filme de uma plataforma de streaming a ser consagrado pela Academia na categoria principal. Esperemos que após o sucesso de “Roma” e “O Irlandês” esteja por dias a aclamação do streaming. Aos 67 anos, Jane Campion seria também a produtora mais velha a conseguir esse reconhecimento. O maior desafio de “O Poder do Cão” é agora de superar “CODA” que saiu a ganhar dos SAG Awards (o sindicato de atores) e também dos PGA Awards (o sindicato dos produtores) – prémios que são os principais indicadores dos Óscares. Em 32 anos do prémio entregue pelos PGA, 22 dos filmes vencedoras foram igualmente consagrados pela Academia na categoria de Melhor Filme. Veremos o que acontece no próximo dia 27 de março.

Lê Também:   No Ritmo do Coração, em análise

Terminemos com as palavras do nosso colaborador e Coordenador-Senior de Cinema Cláudio Alves sobre “O Poder do Cão” incluídas na sua crítica ao filme.

Este é um filme sobre as profundezas obscuras da alma humana e os nossos impulsos mais animalescos, um mundo de predadores e presas em que a taxonomia de cada um é uma mentira melíflua. Está tudo nas texturas e nos cheiros sugeridos pelo formalismo audiovisual – o suor e o couro molhado, licor ilícito e sexo inflamado, um beijo dado pelo cigarro partilhado. Um beijo que sabe a tabaco e saliva, que serve como máxima mercê de um carrasco de olhos vítreos. […] Jane Campion prova que não perdeu nenhuma da genica, do virtuosismo ou criatividade assombrosa. Suas imagens, os sons que conjura na sala de cinema, são como marcas a ferro e fogo que ela nos crava na mente.



Também do teu Interesse:


About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *