"Antebellum" | © MotelX

MOTELx ’20 | Grandes Vencedores e Balanço Final

Entre cinema antirracista e terror arrojado, o MOTELx celebrou-se pelo 14º ano. Esta foi uma celebração marcada pelo COVID-19, mas a pandemia não impediu o festival de alcançar o muito merecido sucesso.

O 14º MOTELx já acabou, depois de uma edição que viu terror e ansiedade dentro e fora do ecrã. Em tempos de pandemia, a comunhão que é o cinema está em risco, mas os cinéfilos persistem. Com lotação limitada e muitas medidas de segurança, o maior festival de cinema te terror em Portugal desenrolou-se dentro dos possíveis paradigmas da nossa nova normalidade. O COVID-19 não há-de derrotar a sétima arte que, qual final girl num slasher medonho, sobrevive até às mais hediondas ameaças. De facto, até houve duas dezenas de sessões esgotadas.

Antes de refletirmos sobre os temas transversais aos vários filmes do festival, convém mencionar os palmarés. “Pelican Blood” de Katrin Gebbe conquistou o Prémio MOTELx para Melhor Longa de Terror Europeia 2020, ganhando também um lugar na competição internacional Méliès d’Argent. Sendo esta a edição do festival com maior número de filmes realizados por mulheres desde sempre, faz sentido que uma realizadora tenha levado para casa esta grande honra. Ainda para mais, o seu filme perpetua uma recente tradição do cinema de terror sobre a maternidade e a relação da mulher com preceitos familiares, na senda de “Babadook” e “Swallow”.

Pelican Blood
“Pelican Blood” (2019) |©MOTELx

No panorama das curtas-metragens portuguesas, “Mata” de Fábio Rebelo foi a obra vencedora. Segundo o júri composto por Pandora da Cunha Telles, João Pedro Rodrigues e Margarida Vila-Nova, este trata-se de “um filme sólido que joga com o imaginário da literatura fantástica, mergulhando num espaço onde enfrentamos os nossos pequenos medos”, e que, “em escassos minutos e sem pretensões (…)revela a promessa de um jovem realizador”. Rebelo ganhou assim 5000 euros, o maior prémio atribuído a curtas-metragens em Portugal. “A Grande Paródia” de André Carvalho mereceu uma menção honrosa do júri.

Assuntos de prémios despachados, pensemos então na globalidade do 14º MOTELx. Como todo o evento sobre arte, mesmo que no contexto do entretenimento de terror, o festival vive num constante diálogo com as preocupações sociopolíticas da atualidade. Este ano em que protestos antirracistas e contra a violência policial têm vindo a deflagrar pelo mundo todo, o MOTELx dedicou uma considerável porção do seu programa a cinema que lida com a experiência afro-americana e com a ação descolonizadora da cultura.

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A principal secção focada em tais temáticas foi o “Pesadelo Americano: O Racismo e o Cinema de Terror”. Mostrando filmes que vão desde “The Intruder” de 1962 ao “Foge” que valeu um Óscar a Jordan Peele em 2018, esta curadoria cinematográfica tanto iluminou dinâmicas raciais como desafiou o espetador a dialogar com obras complicadas que usam as convenções do terror para aguçar sua crítica social. É fascinante constatar os diferentes modos como artistas lidam com as questões do preconceito e do ódio, como uma observação exterior ao assunto contrasta com a arte de alguém que vive na pele o racismo americano.

Há que esclarecer que nem todas as escolhas programáticas foram sucessos. Dentro da secção Serviço de Quarto, o terror racializado também mostrou a cara e os resultados foram menos consistentes. “Antebellum – A Escolhida” tem boas intenções, mas acaba por cometer o erro de reduzir as suas personagens a meros veículos de dor e trauma. O sofrimento e a brutalização de corpos pretos são tornados em entretenimento. É choque barato que trai o comentário político que é necessário e bem-vindo. Enfim, perfeição não existe e estes contrastes qualitativos tornam o festival mais rico.

candyman motelx
“Candyman” | © MotelX

Se há algo que tudo isto prova é que o cinema de terror é mais urgente que nunca. Quando o mundo parece arder em nosso redor, a arte é um espelho e um filtro, capaz de nos afunilar a ansiedade e lhe dar forma construtiva. É um reflexo dos tempos, um artefacto para a eternidade, um testemunho, o cinema é também um ativista e pode ser um líder do pensamento. Esperamos que, para o ano, a qualidade do festival se mantenha. De facto, desejamos que seja ainda melhor!

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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