Óscares 2020 | "Parasitas" foi o grande vencedor

Óscares 2020 | Post-Mortem da Cerimónia e da Temporada de Prémios

Serão os Óscares 2020 lembrados como a melhor cerimónia de sempre das estatuetas douradas? Ou serão um reflexo da hipocrisia na indústria?

A 92ª cerimónia dos Óscares 2020 aconteceu no passado domingo 9 de fevereiro, como habitual no famoso Dolby Theatre em Hollywood e não poderíamos estar mais ansiosos para partilhar convosco aquilo que pensamos desta noite de cinema. Afinal de contas, a entrega das tão desejadas estatuetas douradas colocou um ponto final na temporada de prémios mais curta dos últimos anos.

Tal como fizemos no ano passado, com um comentário mordaz, sem papas na língua, e bastante discutido sobre os Óscares 2019, este ano voltámos para a comentar aquela que muitos dizem ter sido a melhor cerimónia de sempre dos Óscares. Será verdade? Será que os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fizeram justiça aos melhores filmes de 2019? Ou será que a Academia continua a ser hipócrita nas suas escolhas?

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“Parasitas” | © Alambique

Ao longo deste artigo, vamos não só destacar os melhores momentos da noite, os grandes vencedores e os principais derrotados, mas também iremos relembrar as mensagens mais reivindicativas e os discursos mais emotivos que chegaram aos vários cantos do mundo através da transmissão televisiva da gala (que em Portugal esteve a cargo da Fox e da Fox Movies)

Esta espécie de crónica que aqui iniciamos pretende entender qual o caminho traçado pelos Óscares 2020 e se os seus vencedores serão mesmos relembrados pelos espectadores e até num sentido museológico – afinal não esqueçamos que a cerimónia promoveu também a abertura do primeiro museu de artes e ciências cinematográficas em Los Angeles, e que irá acontecer no próximo mês de dezembro.

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E quais foram portanto os grandes vencedores? Como certamente sabes os Óscares 2020 foram repartidos por diferentes obras cinematográficas (à excepção de “O Irlandês” que saiu de mãos vazias), mas foi “Parasitas” o grande vencedor, ao levar para casa os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional. Foi justa a vitória? Se precisavas de um post-mortem dos Óscares e da Awards Season então não podes perder as próximas páginas.

Conhece os nossos comentários sobre os Óscares 2020 a seguir! Segue as setas.




“Parasitas”, o ousado e justo vencedor

Não poderíamos começar de outra forma, “Parasitas” foi o grande vencedor dos Óscares 2020 e também um dos mais importantes de sempre da história dos galardões. Como aconteceu com muitos espectadores pelo mundo fora, também nos deliciamos com a vitória daquele que se tornou o primeiro filme de língua não inglesa a ganhar o Óscar de Melhor Filme, o primeiro filme da Coreia do Sul a conseguir tal feito, e ainda o primeiro filme do país a receber o galardão de Melhor Filme Internacional e de Melhor Argumento Original. Todas as vitórias de “Parasitas” foram realmente históricas para a Coreia e para o cinema estrangeiro e, tudo isso, graças a Bong Joon-ho, o homem da noite.

Curiosamente, o melhor da cerimónia dos Óscares 2020 aconteceu no seu final. Quando os Óscares pareciam estar prestes a tornar-se uma maré secante de previsões acertadas – graças às outras entregas de galardões ocorridas ao largo desta Awards Season -, Spike Lee abriu o envelope de Melhor Realizador e a noite passou de aborrecida a absolutamente extraordinária. Lee não proferiu o nome de Sam Mendes (cineasta de “1917”) como parecia já estar escrito nesta temporada, e afinal quem levou o prémio foi Bong Joon-ho.

Parasitas
“Parasitas” © Alambique

Por esta ninguém esperava, nem mesmo Bong Joon-ho que, pouco antes, ao receber o Óscar de Melhor Filme Internacional já havia exclamado que estava pronto para a after-party e para beber. E novamente lá teve que subir ao palco, com a sua já mítica tradutora Sharon Choi (também ela cineasta), para receber o prémio mais importante para os homens por detrás das câmaras. Neste seu discurso tão humilde, relembrou que um cineasta forma-se, em parte, graças aos filmes com os quais cresceu, que no seu caso foram realizados pelo grande maestro Martin Scorsese. A sala enche-se de euforia, e Scorsese teve direito à ovação de pé mais sentida das últimas cerimónias das estatuetas douradas. Depois disso, o caminho para o Óscar de Melhor Filme pareceu possível…

Foi Jane Fonda a responsável por entregar o principal galardão da noite, que antes de proferir o nome do título vencedor decidiu fazer uma pausa dramática. O anúncio não teve nada que ver com a confusão gerada nos Óscares 2018 entre “La La Land: Melodia do Amor” e “Moonlight”, e a pausa de uma rainha de atuações como Jane Fonda só elevou o momento – ela própria compreendendo o peso da escolha da Academia por um filme como “Parasitas”.

Ao vencer o Óscar de Melhor Filme, “Parasitas” conseguiu o que “Roma”, de Alfonso Cuarón infelizmente não conseguiu no ano passado, na cerimónia que teve que honrar “Green Book: Um Guia para a Vida” com o Óscar de (Pior) Melhor Filme da História.

Enquanto que “Roma” era uma produção da Netflix –  o valor artístico dos filmes lançados em plataformas de streaming continua a ser colocado em dúvida pelos próprios membros da Academia -, “Parasitas” foi mais receptível junto das audiências, contando com a distribuição em salas norte-americanas de uma pequena produtora independente chamada Neon (surgida em janeiro de 2017). Além disso, “Parasitas” tornou-se o filme não-anglófono de maior receita de sempre nos Estados Unidos, alcançando mais de 34 milhões de dólares, o que certamente permitiu que um maior número votantes da Academia estivessem interessado em deslocar-se aos visionamentos do filme e que depois discutisse os temas que a obra reivindica.

Analistas e entendidos na matéria apontavam o favoritismo de “1917” para os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador, mas quem teve direito ao melhor plano-sequência na noite dos Óscares foi “Parasitas”. A entrega de 4 prémios ao filme de Bong Joon-ho foi a verdadeira e a mais honesta celebração do cinema dos últimos tempos, provando, desde logo, várias coisas.  Primeiro, que um filme noutro idioma, que não o inglês, pode efetivamente conquistar os “académicos” de Hollywood, quer os da ala mais conservadora como da ala mais moderna. Segundo, porque um filme apenas com atores asiáticos, que celebra a multiculturalidade e a diversidade desta arte que se faz pelo mundo fora chamada cinema, tem espaço junto de Hollywood, que finalmente tomou a decisão certa. A linguagem do cinema é universal e unificadora e “Parasitas” tornou esta doutrina a mais pura das realidades.

Mesmo assim, encontramos por aí vários críticos puritanos que gostam de se manter no lado do contra e que não gostam de sentir este fervor em torno de “Parasitas”. A justificação que dão? O facto do filme ser de uma grande produtora sul-coreana e que, na verdade, Bong Joon-ho, mesmo que poucos o conheçam, não é em nada estranho a Hollywood. De facto, tudo isso é bem verdade, afinal Joon-ho realizou “Snowpiercer” um filme de ficção científica com Chris Evans e esteve responsável por “Okja”, uma produção da gigante Netflix que causou várias discussões em Cannes. Mas meus senhores, não sejam demasiado rigorosos e comecem a aplaudir os artistas que dão o primeiro passo, necessário e reivindicativo, como Bong Joon-ho.

O realizador de 50 anos afinal abriu as portas a futuros cineastas asiáticos, europeus e africanos. Os cineastas do futuro, sejam eles homens ou mulheres, provenientes dos vários cantos do mundo irão olhar para a cerimónia dos Óscares 2020 e para os aplausos a “Parasitas”, como o máximo representante da inclusão que os galardões devem ter. O que os Óscares fizeram na noite do dia 9 de fevereiro foi um espectáculo digno de ver, foi um passo para tornar um mundo mais próximo artisticamente.

Filmes americanos, como “Era Uma Vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino ou “O Irlandês”, de Martin Scorsese, bastante comentados no decurso da temporada de prémios poderiam ter saído vencedores, mas neles há um factor muito particular, que não os torna obras imediatamente apelativas a todas as audiências: o factor História (ainda por cima apontam a episódios da História dos Estados Unidos).

“Parasitas” é um filme que trabalha questões que qualquer pessoa em qualquer parte do mundo se identifica: o sonho de uma vida melhor para a família, a luta pelo sonho pessoal (uma ilusão criada pela máquina do capitalismo e que é também um espelho da construção dos símbolos do American Dream) e a luta de classes sociais. Além disso, é um filme que joga com o sentido do genre e que pode muito bem conquistar os votantes da Academia mais virados para o drama familiar, quanto aqueles que preferem um bom thriller ou outros fãs de uma boa comédia. Quebraram-se finalmente as barreiras em todos os sentidos…

Mas será que as barreiras foram todas quebradas? Sabe mais a seguir. 




Óscares 2020 e a diversidade em jogo

Parece-nos importante celebrar todos os recordes históricos de “Parasitas”, mas será que os restantes vencedores dos Óscares 2020 permitiram mesmo celebrar a diversidade existente na sétima arte? Será que houve espaço para os asiáticos noutras categorias (como as de interpretação), para os afro-americanos ou sequer para as mulheres caucasianas ou as mulheres de cor?

Ironicamente, “Parasitas” arrecadou 4 Óscares, mas não esteve sequer nomeado a nenhum Óscar de interpretação, o que raríssimas vezes acontece a um filme que sai galardoado com a estatueta dourada de Melhor Filme. O facto de nenhum dos seus atores como Kang-ho Song, Hye-jin Jang, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hyun-jun Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Sun-kyun Lee, Myeong-hoon Park e So-dam Park estar na corrida a um dos Óscares de interpretação mostra que ainda há resiliência em celebrar artistas oriundos da Ásia. O facto deste leque de atores estar na Coreia do Sul a filmar projetos futuros durante a campanha pré-Óscares (designada “For Your Consideration”), também não ajudou a que conseguissem o apreço dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mesmo assim, triunfaram com o SAG de Melhor Elenco, algo bastante surpreendente.

Digamos que apesar do lapso de muros às legendas, o caminho para atingir a plena diversidade da Academia e, por sua vez, da própria indústria cinematográfica continua a ser lento.

Cynthia Erivo
Cynthia Erivo, nomeada ao Óscar de Melhor Atriz por “Harriet” © Focus Features

Ao, e ao contrário do que aconteceu no ano passado em que foram celebrados filmes como “Black Panther” ou “BlacKkKlansman – O Infiltrado”, este ano a diversidade foi mais contida no que respeita à atribuição de Óscares a artistas afro-americanos. De destacar, de imediato, a vitória de Matthew A. Cherry e a Karen Rupert Toliver com o Óscar de Melhor Curta-Metragem de Animação de “Hair Love”, que era apontada como a favorita e que conseguiu ver os seus artistas reconhecidos por um trabalho que, em apenas 7 minutos, trabalha tão maravilhosamente a questão racial que “Green Book” alguma vez conseguiu atingir em mais de 2 horas de duração. Tudo porque reconhece ao olhar puro e ingénuo de uma menina afro-americana cujo cabelo é difícil de pentear, cabelo que é também uma característica das mulheres de cor e que muitas vezes são vítimas de bullying nas escolas dos EUA.

Na edição dos Óscares 2019, como poucas vezes aconteceu na História dos galardões, foram três os atores de cor a conseguiram um Óscar de interpretação, nomeadamente Rami Malek (Melhor Ator, “Bohemian Rhapsody”), Regina King (Melhor Atriz Secundária, “Se Esta Rua Falasse”), e Mahershala Ali (Melhor Ator Secundário, “Green Book”). Enquanto isso, este ano, o único ator de cor nomeado em interpretação foi a britânica Cynthia Erivo.

Na verdade, Erivo estava duplamente nomeada, ao Óscar Melhor Atriz pelo filme “Harriet” – no qual interpreta a figura histórica afro-americana Harriet Tubman – e para o Óscar Melhor Canção Original, sendo apenas a 3ª artista a conseguir esta respetiva dupla nomeação. Além do mais, Cynthia Erivo estava prestes a tornar a mais jovem artista com um EGOT, o que não aconteceu. Mesmo assim, podemos dizer que o facto da artista de cor estar entre as nomeações foi já um privilégio, num ano dominado pela hastag #OscarsSoWhite (como aconteceu ironicamente com os BAFTA). Aliás, ao longo de toda a cerimónia, os artistas que iam subindo ao palco – como Janelle Monáe ou Chris Rock -, destacavam a falta de reconhecimento a pessoas de cor e até mulheres.

Sim, muitas mulheres subiram ao palco do Dolby Theatre, e até algumas delas fizeram história nos Óscares, como o caso de Hildur Guðnadóttir, que com “Joker” tornou-se a primeira compositora, em 22 anos, após Ann Dudley (The Full Monty, 1997) a conseguir o Óscar de Melhor Banda-Sonora. Mesmo assim, continua a existir um grande vazio de mulheres no Óscar de Melhor Realizador.

Os Óscares precisam de repensar urgentemente esta questão, porque certamente não se trata da mítica desculpa de que não houve trabalhos femininos de qualidade. As estatuetas douradas não fizeram jus ao ano em que mais mulheres estiveram por detrás das câmaras e tiveram forte sucesso junto das bilheteiras. Greta Gerwig, Mati Diop, Céline Sciamma, Lorene Scafaria, Alma Har’el são apenas algumas das cineastas que poderiam ter sido reconhecidas.

Dentro desta questão das mulheres, de destacar a derrota dolorida de Greta Gerwig na categoria de Melhor Argumento Adaptado pelo filme “Little Women”. Desde 2007 com Diablo Cody e o filme “Juno”, que nenhuma mulher ganha uma das categorias de guião. Em contrapartida, Taika Waititi tornou-se a primeira pessoa de um povo indígena a ganhar um Óscar, exatamente aquele perdido por Gerwig, por “Jojo Rabbit”.

O filme de Waititi não é uma completa catástrofe, mas ao nível do argumento é algo empobrecido quando comparamos com “Mulherzinhas” de Greta Gerwig, em que artista reinventa um clássico da literatura americana da autoria de Louisa May Alcott, focando-se numa desconstrução da sua estrutura. A Academia até pode não parecer hipócrita na atribuição deste Óscar, mas pareceu demasiado forçada a honrar um filme que conquistou o Prémio do Público no Festival Internacional de Toronto, em vez de aclamar a escrita contemporânea de Gerwig.

As mulheres latinas também não tiveram a mesma força este ano, como aconteceu com Yalitza Aparício ou Marina de Tavira, as protagonistas de “Roma” na edição anterior dos Óscares. Desde logo, porque Jennifer Lopez não estava nomeada a Melhor Atriz Secundária por “Ousadas e Golpistas”, filme realizado por uma mulher e sobre mulheres, mesmo após ter conseguindo várias nomeações aos Globos de Ouro ou aos SAG e até vários galardões por um papel transformador da sua carreira.

Mesmo que a Academia de Hollywood venha a apostar em histórias que não apenas aquelas contadas por e sobre brancos, os seus membros não podem votar em filmes que não existem. Portanto, a mudança continua a ser necessária na indústria. Há obrigação dos grandes produtores darem luz verde às tramas contadas por mulheres e por pessoas de cor, para que Hollywood deixe de ser um sistema elitista e discriminatório. Só assim poderão os Óscares continuar a serem relevantes no futuro.

Mas será que os Óscares podem ser imprevisíveis? Sabe tudo a seguir. 




A (im)previsibilidade dos Óscares

A vitória de “Parasitas” simbolizou outra grande questão que faltava aos Óscares e à temporada de prémios no geral: o elemento surpresa, justamente pela enorme reviravolta no fim da cerimónia.

O facto de Bong Joon-ho ter vencido o Óscar de Melhor Realizador e, por sua vez, “Parasitas” ter sido eleito o Melhor Filme, prova que os Óscares querem ter uma identidade própria no que respeita à temporada. Ou seja, enquanto que os outros prémios como os Globos de Ouro, os Critics’ Choice Awards, os BAFTA e, por incrível que pareça, até os prémios do Sindicato (sobretudo os DGA e os PGA) foram sendo entregues essencialmente a “1917”, os Óscares 2020 quiseram ser diferentes.

Tudo apontava para um sweep do filme de Sam Mendes, mas depois ganhou apenas 3 estatuetas (Melhores Efeitos Visuais, Melhor Fotografia e Melhor Mistura de Som). Aquilo que parecia já caminho fácil para um filme que ganhou nos PGA, nos DGA, nos BAFTA e nos Globos, e que acabou derrotado nos Óscares, é realmente um acontecimento sem precedentes.

Producers Guild Awards
“1917” era considerado o grande favorito para os Óscares 2020 © NOS Audiovisuais

Mas qual a razão para este grande acontecimento que virou a temporada de prémios 2019/2020 do avesso? Primeiro porque a paixão por Bong Joon-Ho é real em Hollywood, e sobretudo porque os Óscares, ao contrário dos restantes galardões, começam a entender que precisam de ter ser heterogéneos para se serem importantes, afinal são os Óscares. Só dessa forma os espectadores, críticos e analistas de cinema manterão interesse na cerimónia, que como bem sabemos não tem tido muita sorte do ponto de vista das audiências. Premiar sempre os mesmos filmes é cansativo e a Academia nos últimos anos têm-nos mostrado isso, ao entregar o Óscar de Melhor Filme a “Green Book” em vez de “Roma”, a “Moonlight” em vez de “La La Land”, a “Birdman” em vez de “Boyhood”, ou a “O Caso Spotlight” em vez de “The Revenant: O Renascido”.

Ainda falando de “Parasitas” como Melhor Filme nos Óscares, é curioso notar como nenhum festival como o de Toronto (em que “Jojo Rabbit” saiu vencedor) ou o de Veneza (em que “Joker” triunfou), que habitualmente têm um peso maior nas escolhas dos votantes da Academia pareceu influenciar a vitória do drama de Bong Joon-Ho. Desta vez, o festival com maior influência foi o Festival de Cannes. Aliás, desde 1955 – com “Marty” de de Delbert Mann – que nenhum filme vencedor da Palma de Ouro conseguira obter o Óscar de Melhor Filme.

Pelo contrário, é importante fazer uma menção aos atores. Renée Zellweger (Óscar de Melhor Atriz por “Judy”), Joaquin Phoenix (Óscar de Melhor Ator por “Joker”, Laura Dern (Óscar de Melhor Atriz Secundária por “Marriage Story”) e Brad Pitt (Óscar de Melhor Ator Secundário por “Era Uma Vez em Hollywood”) eram, desde muito cedo nesta temporada, apontados como vencedores assegurados dos Óscares. O facto de terem triunfado nos Globos, nos SAG e nos BAFTA, não iria significar certamente uma surpresa nos Óscares, contrariamente ao que assistimos no ano passado com as vitória de Olivia Colman e de Regina King. Contudo, este foi daqueles anos em que a eventual celebração de interpretações como as de Cynthia Erivo (“Harriet”), Antonio Banderas (“Dor e Glória”) ou Scarlett Johansson (duplamente nomeada por “Marriage Story” e “Jojo Rabbit”) poderiam ter sido históricas. Enfim, a Academia preferiu jogar aqui pelo seguro, como faz na maioria das vezes.

Mas será que os seus discursos foram tão marcantes?




Joaquin Phoenix e os discursos do tudo e do nada

Os discursos dos Óscares 2020 foram curtos e diretos e, para além dos vencedores terem agradecido a quem deviam, muitos tomaram o palco como o espaço para dar uma voz aos seus ideais políticos (o que certamente não deve ter agrado a Ricky Gervais).

Infelizmente Brad Pitt não se conseguiu superar, após uma temporada de agradecimentos incríveis. No entanto, fomos recompensados com o agradecimento honesto de Laura Dern aos seus heróis – os seus pais Bruce Dern e Diane Ladd, também eles atores.

Já Hildur Guðnadóttir ofereceu um dos discursos mais feministas e genuínos da noite, ao incentivar as mulheres a dar voz aos seus pensamentos. Guðnadóttir não só tornou-se na primeira mulher vencedora do Óscar de Melhor Banda-Sonora desde 1998, como também dos poucos compositores a conseguir o Globo de Ouro, o BAFTA, o Óscar, o Emmy e o Grammy (os três primeiros galardões por “Joker”, os dois últimos pela minissérie “Chernobyl”) em apenas seis meses. É um dos casos em que se passa de completa desconhecida a uma figura de respeito na indústria cinematográfica e projetos não lhe faltarão num futuro próximo.

Joker
Joaquin Phoenix venceu o Óscar de Melhor Ator por Joker © Warner Bros.

Entretanto, também por “Joker”, Joaquin Phoenix subiu ao palco para aquele que muitos viram como o melhor discurso dos Óscares 2020. Na verdade, o ator falou de vários tópicos importantes que, de alguma maneira, deveriam consciencializar vários cidadãos. O ator de “Joker” focou-se muito bem na questões da discriminação racial e de género, da desconexão ambiental e até despertou maior atenção perante os direitos dos animais. Apesar do seu cuidado ao tocar cada tópico, faltou abordar aquilo que o seu filme realmente aborda: os problemas mentais, temática que tem sido discutida por psicológicos, sociólogos, cinéfilos e críticos na televisão mas que não foi discutida por si em nenhum discurso de agradecimento no decurso desta temporada.

A Joaquin Phoenix, seguiu-se  Renée Zellweger, demasiado extensa no agradecimento a todos os envolvidos na produção de um filme como “Judy”, mas que terminou numa homenagem honesta a Judy Garland, que nunca conseguiu obter um Óscar ao longo da sua carreira cinematográfica. Renée Zellweger tornou-se apenas a sétima artista a vencer o Óscar de Melhor Atriz e o de Melhor Atriz Secundária, juntando a um grupo específico de mulheres composto por Helen Hayes, Ingrid Bergman, Maggie Smith, Meryl Streep, Jessica Lange e Cate Blanchett.

Por fim, quando “Parasitas” ganhou o Óscar de Melhor Filme, Bong Joon-Ho preferiu não falar e dar espaço para que as mulheres produtoras do filme. Ao aceitar o prémio, a produtora Kwak Sin Ae (a primeira produtora asiática a conseguir o respetivo Óscar) notou a importância do sucesso de “Parasitas”, afirmando que nunca imaginaria que aquele momento histórico aconteceria.

Mesmo assim, após a produtora ter falado, apagaram-se as luzes do palco e a câmara focou-se em Jane Fonda para fechar a cerimónia. Foi quando a audiência composta por Regina King, Tom Hanks, Charlize Theron e Margot Robbie começou a gritar a pedir que a luz fosse devolvida para que a Miky Lee, produtora executiva de  “Parasitas” e Vice-Presidente da empresa coreana CJ Entertainment – pudessem falar. Lee destacou o trabalho de direção de Bong Joon-Ho, afirmando também que sem a audiência coreana do filme nenhum deles estaria ali.

Abaixo poderás assistir ao “Q&A” dos produtores de “Parasitas” que aconteceu nos bastidores dos Óscares 2020.

E quanto à ausência de um anfitrião? Também temos algo a dizer. 




Cerimónia sem anfitrião continua a resultar?

Apesar da cerimónia dos Óscares 2020 ter sido muito rápida, o facto da cerimónia continuar sem anfitrião não resultou tão bem como aconteceu no ano passado.

De facto, iniciámos com um número musical potente de Janelle Monáe, que colocou todo o mundo a seus pés, e em que os bailarinos estavam disfarçados das personagens dos filmes que estavam surpreendentemente ausentes das nomeações, como “Nós”, “Midsommar: O Ritual” ou “Dolemite is My Name”. Entre os números musicais de destaque tivemos ainda “Into The Unkown”, música de “Frozen 2” que estava nomeada ao Óscar, e que juntou Idina Menzel a outras atrizes que interpretaram Elsa nas suas diferentes dobragens e que cantaram a canção no respetivo idioma nativo.

Depois tivemos duplas em palco que nunca estiveram tão bem, como o caso de Diane Keaton e Keanu Reeves, Shia Labeouf e 0 ator com Síndrome de Down Zack Gottsagen, ou Maya Rudolph e Kristen Wiig que apresentaram o remix mais improvisado da noite.

Lupita Nyong'o
Lupita Nyong’o em “Nós” (“Us”) | © NOS Audiovisuais

Acrescentemos a esses discursos, todavia, a escolha redundante dos produtores dos Óscares 2020 de colocarem apresentadores para apresentar os apresentadores das categorias (porque não havia anfitrião para introduzir as estrelas que anunciaram os vencedores). Ou até quando colocaram os vencedores do Óscar de interpretação do ano passado a ler o nome de cada nomeado nas diferentes categorias, mesmo que uma montagem de vídeo o tivesse feito brilhantemente antes. Esta decisão catastrófica roubou tempo de antena aos verdadeiros protagonistas e poderia ter sido bem pensado para não prolongar ainda mais esta 92ª edição dos Óscares da Academia. 

O resultado? A cerimónia do Óscares 2020 teve a menor audiência alguma vez registada na história dos galardões. Apesar de ter recuperado alguns pontos em 2019 (cerimónia com 29,6 milhões de espectadores), os Óscares 2020 tiveram uma média de 23,6 milhões de espectadores, o que corresponde uma queda de 20% em relação ao ano anterior além de representar menos 3 milhões de espectadores quando comparamos com o ano de 2018, até então o número mais baixo de sempre.

Esperemos que a ausência de anfitrião não deve ser repetida nos próximos tempos e o Canal ABC terá que encontrar um meio de tornar a cerimónia ainda mais apelativa e dinâmica para as audiências, muito embora tivéssemos assistido, repetimos, a uma das melhores cerimónias dos Óscares dos últimos anos. Talvez os fãs de Beyoncé e os de Jennifer Lopez revoltados com as ausências dos seus ídolos das nomeações tenham evitado a cerimónia, mas isso nunca saberemos…

O que pensas das escolhas da Academia? E o que tens a dizer sobre este Post-Mortem? Deixa o teu comentário nas nossas redes sociais ou em baixo deste artigo. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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