"Technoboss" | © O Som e a Fúria

DocLisboa ’19 | Vencedores e balanço final

A 17ª edição do DocLisboa já se deu por finalizada e muitos foram os prémios entregues durante a cerimónia de encerramento.

De 17 a 27 de outubro, o DocLisboa trouxe o que melhor se faz em cinema documental à capital portuguesa. Tudo começou com a “Longa Noite” de Eloy Enciso e terminou oficialmente com a gloriosa folia que é o “Technoboss” de João Nicolau. Esta parelha é um bom caso de estudo que demonstra como as barreiras entre o que é documentário e o que é ficção se esbatem. Quando se trata de cinema que desafia convenções e testa os limites da realidade filmada, binários restritivos não fazem sentido e as definições do documentário transmutam-se diante dos nossos olhos.

Como sempre, esse questionamento da natureza do cinema documental foi algo iluminado pela programação do festival. Ao mesmo tempo, os filmes que a equipa MHD viu também sugeriram um discurso paralelo, mais político que estético. Referimo-nos a uma reflexão europeia sobre o colonialismo, o capitalismo e o peso da História nas nossas vidas contemporâneas. Desde manifestos antirracistas a sonhos de uma África perdida, passando por palimpsestos museológicos e a alma tornada comodidade económica, a programação do DocLisboa surpreendeu e chocou, fez pensar e gerou discussão.

santikhiri sonata doclisboa
© DocLisboa

O filme que ganhou a Competição Internacional certamente nasce de uma interseção complicada entre preocupações estéticas e políticas. Depois de já ter trazido outras obras de interesse em edições passadas do festival, o tailandês Thunska Pansittivorakul assinalou a estreia mundial do seu “Santikhiri Sonata” em Lisboa. A obra premiada explora tabus nacionais e históricos, inclui explosões de pornografia e reflexões misteriosas de gerações novas que ainda colhem os frutos de discórdia do passado.

Ainda dentro da competição internacional, “Just Don’t Think I’ll Scream” valeu o Prémio Sociedade Portuguesa de Autores ao realizador Frank Beauvois. O júri composto por Billy Woodberry, Carlos Almeida, Jérôme Bel, Juliano Gomes, Leonor Silveira e Mania Akbari atribui ainda uma menção especial a “Um Filme de Verão” de Jo Serfaty. No panorama da competição portuguesa, “Viveiro” de Pedro Filipe Marques ganhou o Prémio para Melhor Filme. O galardão McFly SPF foi para “Cerro dos Pios”, realizado por Miguel de Jesus.

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O prémio revelação, que é transversal a praticamente todas as secções do festival, recaiu sobre Carlos Conceição, aqui premiado pela sua primeira longa-metragem, “Serpentário”. Outras honras que englobaram toda a programação foram o Prémio Ageas Seguros para Melhor Curta-Metragem, ganho por “Tribute to Judas” de Manel Raga Raga; o Prémio Fernando Lopes para Melhor Primeiro Filme Português foi para “Rio Torto” de Mário Veloso; o Prática, Tradição e Património foi atribuída a “O Último Sonho” de Alberto Avares; enquanto o prémio Escolas foi para “Três Perdidos Fazem um Encontrado” de Atsushi Kuwayama.

Muitos outros foram os prémios entregues. Para saberes as honras dadas na secção Verdes Anos, a produções incompletas e outros, aconselhamos a visitar o site oficial do DocLisboa. O último prémio a que gostaríamos de dar algum destaque mais individual é “Zé Pedro Rock’n’Roll”, um documentário de Diogo Varela Silva que conquistou a paixão dos espectadores e acabou por ser o vencedor do Prémio do Público.

viveiro doclisboa
“Viveiro” | © DocLisboa

O encerramento desta edição do DocLisboa marcou o fim de uma era para o festival. Depois de vários anos, a direção volta a mudar. Joana Gusmão, Miguel Ribeiro e Joana Sousa são quem fica agora encarregue do trabalho e esperamos que sejam tão destemidos como os seus antecessores. Discursos de despedida e manifestos pela revolução fizeram da cerimónia um episódio tão comovente como inspirador e aguçam-nos o apetite para os prazeres cinematográficos do futuro. Mal podemos esperar para ver como serão as próximas edições do DocLisboa.

Para terminar, ficam aqui links para as críticas que aqui publicámos ao longo da nossa cobertura do DocLisboa de 2019.

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COBERTURA MHD DO DOCLISBOA ’19:

Acompanha a nossa cobertura dos muitos festivais de cinema, tanto em Portugal como no estrangeiro. Para o mês, vem a cobertura do LEFFEST.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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