© NOS Audiovisuais

TOP MHD | Os melhores filmes de 2022

Desde almas perdidas a famílias fabulistas, o cinema de 2022 foi marcado por muitas maravilhas. Em tempo de prémios e muitos top 10s, a Magazine HD apresenta a sua lista dos melhores filmes do ano que passou, continuando uma tradição que já dura há muito.

A Academia de Hollywood já divulgou os seus 10 melhores filmes de 2022, mostrando muito amor por títulos como “Os Fabelmans” e “A Oeste Nada de Novo.” Alguns dos seus honrados incluem obras que ainda não tiveram estreia portuguesa – “TÁR” por exemplo – o que nos faz ansiar por uma perspetiva lusitana sobre a questão de um top 2022. Por essa e outras razões, a redação da Magazine.HD continua o seu costume anual, pelo qual os críticos do site votam para formar uma lista dos melhores filmes estreados em Portugal no ano que passou.

São considerados títulos que tiveram presença nos cinemas e em plataformas de streaming, até aqueles que só tiveram presença em canais como TVCine. A questão depende da distribuição, do acesso do público nacional. O ano passado ainda experimentámos incluir títulos somente exibidos em festivais, mas para a mais recente listagem retrocedemos aos critérios antigos. Assim parece mais justo, mais aberto a todos os membros da equipa e até da audiência de leitores. Esperamos que concordem com essa escolha e apreciem as nossas seleções.

Lê Também:   TOP 10 | Os melhores filmes de 2021 | MHD

A votação deu-se através de duas rondas como já é habitual, tentando originar um pódio que não prejudica a obra de autor em prol do blockbuster ou vice-versa. Sem mais demoras, fica aqui o TOP MHD dos melhores filmes de 2022…


10. NIGHTMARE ALLEY – BECO DAS ALMAS PERDIDAS
Guillermo del Toro

Nightmare Alley
“Nightmare Alley” | © 20th Century Studios

Na origem podemos encontrar um clássico do cinema americano, igualmente intitulado “Nightmare Alley” (O Beco das Almas Perdidas), 1947, realizado por Edmund Goulding. Nessa matriz de grande impacto, onde estavam Tyrone Power, Joan Blondell, Coleen Gray e Helen Walker, na versão de 2021, assinada por Guillermo del Toro, estão agora Bradley Cooper, Cate Blanchett, Rooney Mara e Toni Colette. E não são os únicos a destacar. No essencial, a moderna adaptação confere maior materialidade ao relacionamento destas personagens, não só entre si, mas sobretudo com o imenso “carnaval” circundante, que mais parece uma versão circense do inferno na Terra. Não obstante, nesta descida aos abismos da alma e do comportamento humanos perde-se um pouco da componente espiritual e, por mais incrível que pareça, a pulsão erótica destilada em cada fotograma da versão dos anos 40, obra ainda submetida a códigos de censura e autocensura, sobretudo o infame Código Hays, entre outros aspetos repressores do que havia de sexualmente relevante na maioria das ficções saídas dos grandes estúdios de Hollywood. Bradley Cooper interpreta agora o papel de um homem com um passado por revelar e a quem a depressão económica empurrou para o beco das almas errantes, não obstante o espectador saber um pouco mais das suas motivações, do que as personagens que com ele se vão cruzar. No momento em que encontra a via para o sucesso e a fama, através de um código muito perspicaz que vai adquirir de forma pouco lícita, monta um espetáculo em que explora a crendice dos ignorantes fazendo-se passar por um médium capaz de ler as mentes alheias. Com este show para os desgraçados e deserdados do capitalismo em crise, a pouco e pouco alcança um grau de sofisticação que lhe permite, por sucessivos golpes de sorte, entrar nos salões da burguesia financeira, facto que lhe abre as portas para um renovado fôlego na estrada da vida que escolheu, cada vez mais consubstanciada na vigarice fina e na relação calculista com uma sedutora mulher que se movimenta nos corredores da alta sociedade. Mas o caminho possui obstáculos e não poucos riscos, e ao esticar a corda do destino acaba por ficar cercado pelas circunstâncias mais adversas que gerou. Sem esperar, o percurso que alimentou acaba num beco sem saída, o dito beco das almas perdidas.

Realização segura e uma exuberante aposta no Design de Produção dão a “Nightmare Alley,” 2021, um lugar muito confortável na carreira do seu realizador.

João Garção Borges

Lê Também:   Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas, em análise


09. TRIÂNGULO DE TRISTEZA
Ruben Östlund

Triangulo da Tristeza
“Triângulo de Tristeza” | © Alambique Filmes

Num mundo de imponderáveis e de falsas carreiras forjadas no jogo manhoso dos influencers para os mais variados gostos, somos convidados pelo cineasta sueco Ruben Östlund a entrar numa espécie de Triângulo das Bermudas (que como o outro engole quem por lá passa), um vórtice movido pela sátira social, política e económica que ficciona no seu quase homónimo “Triangle of Sadness” (Triângulo de Tristeza) Filme dos mais premiados, valorizados e igualmente contestados de entre os muitos que estrearam em 2022. Na verdade, receber a Palma de Ouro em Cannes e ser considerado pela Academia Europeia de Cinema o Melhor Filme do ano não pode ser considerado coisa pouca, embora não deva ser o único fator de avaliação das suas qualidades intrínsecas. Mas reunir numa mesma plataforma flutuante (um navio de cruzeiro de luxo) uma série de personagens de lixo, e levar até aos limites a luta de classes subjacente na hierarquia de uma viagem que será assombrada pelos caprichos da natureza e por um ataque de piratas, não constitui pera doce e perfila-se, isso sim, como um projeto de risco que merece a nossa melhor atenção. Num iate com as melhores condições para quem as possa pagar, iremos ver um casalinho que vive de expedientes encostado ao ilusório sucesso obtido nas redes sociais, um milionário russo que se afirma o “rei da merda” porque a sua fortuna deriva do negócio do estrume, um casal da jarretas britânicos, que parecem não fazer mal a uma mosca mas afinal vivem como querem devido ao negócio do armamento de guerra, uma alucinada que perdeu o marido e vocifera frases aparentemente sem nexo, entre outros mostrengos incapazes de se olhar ao espelho, qualquer deles servido e acompanhado por uma equipa que está ali apenas e só pelo dinheiro e por um comandante alcoolizado que não hesita em mandar para o ar umas quantas frases pseudo-marxistas para quem o quiser ouvir. No momento em que o navio vai ao fundo, os sobreviventes que atingem as costas de uma ilha vão experimentar o outro lado deste universo, e a simples empregada que limpava o esterco dos ricos passa a ser a lord of the flies daquele grupo de náufragos quando adquire o poder que lhe advém do facto de ser a única capaz de superar as dificuldades da forçada sobrevivência. Neste ponto, Ruben Östlund, que desenhara um quadro devastador sobre a personalidade de cada personagem, aproveita para concluir a sua visão cáustica com uma interrogação final que deixa ao espectador margem de manobra para refletir sobre como no mundo descrito a diferença entre o sim e o não está, muitas vezes, num gesto e nas mãos de quem segura uma pesada e contundente pedra que pode ser, literalmente, a solução redentora para subverter a ordem artificial das coisas, se bem que de um modo volúvel e frágil, como o parco equilíbrio da sociedade retratada.

João Garção Borges

Lê Também:   Triângulo da Tristeza, em análise


08-06. THE BATMAN
Matt Reeves

The batman robert pattinson 2022
“The Batman” | © Cinemundo

De entre os vários super-heróis, quiçá nenhum tem uma história tão fascinante no grande ecrã como Batman, esse Cavaleiro das Trevas que protege Gotham das sombras. Não nos referimos a questões narrativas, mas aos modos como vários cineastas têm trazido a figura para este meio de 24 fotogramas por segundo, cristalizando cunhos pessoais e tendências transversais a toda uma indústria. Nos anos 60, Adam West saltou da TV para o cinema com um pé bem fincado na ironia do entretenimento infantil repensado para o público mais velho. Tim Burton retorceu tudo com Expressionismos nos anos 80, enquanto a década de 90 foi palco de uma constante reinvenção, cada vez mais kitsch e descabida. Com Nolan veio a seriedade, enquanto Snyder tentou alcançar a esfera mítica.

Chegados a mais uma década de Batman, Matt Reeves vai buscar muito a Nolan, mas reconsidera a personagem através de um prisma tão influenciado pelo noir como pela expressão artística dos anos 70, a paranoia do passado e os tumultos sociais do presente. O resultado é “The Batman,” obra decididamente moderna com leves sabores de intemporalidade, desde questões cenográficas até aos detalhes da sua retorcida história. A melancolia reina com Robert Pattinson no papel principal, mas a violência não se deixa colmatar pelo sentimento. Estamos perante algo áspero e belo, uma experiência que dá que falar mesmo para quem não gosta do filme em si.

Muitos aplausos têm que ser dados à equipa criativa que concebeu o novo universo Batman por detrás das câmaras. Reeves trouxe muita referência cinematográfica, mas nada funcionaria sem a luz âmbar e escuridão profunda de Greig Fraser. Depois de ganhar um Óscar por “Dune,” o diretor de fotografia tem aqui outro triunfo, enquanto o compositor Michael Giacchino assina uma das melhores bandas-sonoras da carreira. Nomeado para três Óscares – Maquilhagem, Efeitos Especiais, Som – este filme é um grande feito técnico que impõem respeito no panorama atual do cinema baseado em banda-desenhada.

“The Batman” marca o primeiro de três filmes que tiveram todos a mesma pontuação decidida pelos votos da equipa. Por isso mesmo, aparecem aqui empatados. Depois de “Batman” vem…

Cláudio Alves

Lê Também:   The Batman, em análise


08-06. FLEE – A FUGA
Jonas Poher Rasmussen

Flee
“Flee” | © Films4You

A animação é um dos veículos mais indicados para expressar o inimaginável, para dar forma à mais profunda dor humana, e para representar o passado sem recorrer a reconstituições simplistas. Há várias obras documentais animadas que antecedem “Flee“, um dos exemplos mais célebres sendo o também galardoado “The Missing Picture”, e as quais provam que a animação é muito mais do que um estilo – é antes uma forma de arte legítima e que deve ser levada mais a sério (como argumentou recentemente Guillermo del Toro, a propósito do seu belíssimo stop motion “Pinóquio”).

Quanto à narrativa verídica de “Flee”, recupera-se a vida de Amin, um refugiado afegão que fugiu de forma precária de um conflito e que vive agora na Europa, como académico, prestes a casar-se com o seu parceiro, mas ainda assim com dificuldade em conciliar-se com o seu passado. Esta é a primeira vez que Amin fala sobre o seu difícil passado e sobre as provações que enfrentou. Sem documentação das travessias perigosas e dos centros de detenção medonhos, tudo o que a imagem real nos poderia dar seria uma reconstituição frouxa e sempre incompleta dos eventos.

A técnica de tracing, bem como a recriação de vários cenários reais, permitem a “Flee – A Fuga” imbuir a sua imagética de um certo grau de realismo, podendo simultaneamente fazer-se servir de uma bela combinação entre animação digital e tradicional para dar vida à história de Amin e preencher os espaços onde o único registo é a memória. Nos últimos Óscares, “Flee” competiu nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme de Animação e Melhor Documentário, tendo-se tornado o primeiro filme a conquistar tal tríade.

Este documentário animado intimista, incómodo e extremamente emotivo funciona como um pedaço de memória, num retrato humanista que urge a que comecemos a pensar, coletivamente, na crise de refugiados com olhos (e mentes) livres de ódio. “Flee” é um filme severo, mas terno, honesto, difícil de desbravar, e nada senão urgente.

Maggie Silva

Lê Também:   MONSTRA '22 | Flee - A Fuga, em análise


08-06. ALCARRÀS
Carla Simón

alcarràs tvcine
“Alcarràs” | © MK2 FILMS

Baseado na sua própria vida pessoal e da sua família, “Alcarràs”, a segunda longa-metragem da cineasta catalã Carla Simón (“Verão 1993”’), é um fascinante mosaico sobre o mundo rural, a família, as tradições e o futuro das nossas sociedades. Porém, a tradição é a única coisa com a qual todos os membros da família Solé, — os improváveis protagonistas, todos eles atores não-profissionais — parecem concordar, já que vão perder os seus frondosos pessegueiros, para os proprietários das terras, que as quer reaver, para colocar painéis solares. Isso não é um bom presságio para um futuro que se vai tornar ameaçador, para a estabilidade de toda a família. Dependendo da idade e ligação entre eles, dos mais velhos às crianças, cada membro da família vai abordar a situação do despejo de maneira diferente. Quando aprofundamos um pouco mais a história desta minha família, vamo-nos apercebendo que “Alcarràs” é uma reflexão muito realista sobre temas tão atuais, como a agricultura no século 21, as relações familiares e a importância dessa unidade familiar em tempos de crise e sobretudo sobre os conflitos entre tradição e as rápidas mudanças das nossas sociedades altamente tecnológicas. Por isso, “Alcarràs” vai-nos aproximar de temas politicamente tão relevantes, como o futuro dos pequenos e médios agricultores na Europa, o negócio das energias alternativas ou como os painéis solares, produtores de energia limpa, também provocam profundas alterações na paisagem e no campo. Aí está o grande fascínio deste filme simples, despretensioso e muito eficaz na sua mensagem.

José Vieira Mendes

Lê Também:   72ª Berlinale (Dia 6) | Alcarràs de Carla Simón


05. PINÓQUIO DE GUILLERMO DEL TORO
Guillermo del Toro & Mark Gustafson

netflix
“Pinóquio de Guillermo del Toro” | © Netflix

Uma obra que esteve mais de 10 anos em desenvolvimento, “Pinóquio de Guillermo del Toro” reaviva o stop-motion, conferindo-lhe uma perfeição e delicadeza única. No entanto, não podemos atribuir todo o crédito ao cineasta mexicano na criação deste mundo mágico (e trágico) de madeira. Antes de del Toro entrar no projeto, Mark Gustafson, vencedor do Emmy por “Claymation Easter,” já trabalhava nas figuras, a que mais tarde a dupla deu vida. Mas, é inegável que tanto a narrativa, como a realização transpiram del Toro.

Afastado do conto encantando da Disney, esta versão de “Pinóquio” não é propriamente um filme para crianças. É uma longa-metragem melancólica que aborda a morte de uma forma que até para os adultos é difícil de digerir – quanto mais explicá-la aos mais pequenos. A história do menino de madeira que queria ser real nunca foi das mais alegras, mas del Toro explora os seus recantos mais sombrios, que têm como pano de fundo uma Itália fascista. Tudo ao som de canções e de uma banda-sonora assinada pelo oscarizado Alexandre Desplat, que ganhou a sua segunda estatueta com “A Forma da Água.”

“Pinóquio de Guillermo del Toro” conta igualmente com um elenco vocal de luxo liderado por Ewan McGregor, David Bradley, Cate Blanchett e Tilda Swinton. O filme, já disponível na Netflix, é um dos títulos absolutamente imperdíveis de 2022 e um dos fortes candidatos ao Óscar de Melhor Animação. As suas vitórias na mais recente edição dos Globos de Ouro também fizeram história ao tornar a Netflix a primeira plataforma de streaming a ganhar em qualquer categoria destes prémios, e o próprio Del Toro o primeiro vencedor de origem latina.

Inês Serra

Lê Também:   Pinóquio de Guillermo del Toro, em análise


04. O PODER DO CÃO
Jane Campion

The Power of the Dog
“O Poder do Cão” | © KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

Em 2022, Jane Campion tornou-se na terceira mulher a arrecadar o Óscar para Melhor Realização, conquistando uma honra há muito merecida pela sua incrível carreira. Desde “Sweetie,” sua primeira longa-metragem, que a cineasta neozelandesa se havia confirmado como uma das mais fantásticas artistas a trabalhar para o grande ecrã nos nossos dias. Seus trabalhos exploram poesias sensoriais e psicologias complexas definidas por espaços vazios, apuram desejos perigosos e sublimam violências tão destrutivas como gentis. “O Poder do Cão” é sua mais recente obra-prima.

Passado num Velho Oeste que não é assim tão velho quanto isso, o filme representa uma adaptação do livro homónimo de Thomas Savage, onde questões de masculinidade tóxica, luxúrias ilícitas e poder familial se entrelaçam numa trama que desperta fascínio e calafrios em igual medida. Graças à câmara paciente de Ari Wegner, descobrimos o mundo de Phil Burbank, onde o machismo Americano é rei e qualquer ameaça ao status quo deve ser fulminada. Em “O Poder do Cão,” a intromissão de uma nova esposa para seu irmão revela as crueldades mais profundas do homem, enquanto Peter, o filho da mulher, provoca verdades escondidas.

Há beleza na tortura destas almas sôfregas, com a linha entre a monstruosidade e o deslumbro sempre muito ténue. Chegados a um ato final onde a vida e a morte se conciliam em balanço precário, o toque torna-se no veículo para as intimidades mais obscuras que Campion, sua equipa e elenco conseguem aqui capturar. Benedict Cumberbatch nunca foi tão bom como no papel principal de Phil, enquanto Jesse Plemons e Kirsten Dunst constroem retratos de humanidade estilhaçada na pele do casal central. Dito isso, quem mais assombra é Kodi Smit-McPhee, sua sinuosa figura qual personificação de uma banda-sonora cortante, um beijo venenoso dado por cigarros trocados e um amor mortífero expresso numa corda traiçoeira. Distribuido pela Netflix, este é quiçá o trabalho máximo desse poderio do streaming, uma joia de cinema sem igual.

Cláudio Alves

Lê Também:   LEFFEST ’21 | O Poder do Cão, em análise


03. TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO
Dan Kwan & Daniel Scheinert

Tudo em Todo o Lado Ao Mesmo Tempo
“Tudo em Todo o Lado Ao Mesmo Tempo” | © NOS Audiovisuais

Em 2022, a dupla de realizadores conhecida como “os Daniels“( Daniel Kwan e Daniel Scheinert) conseguiu um feito notável: criar uma comédia existencialista de ficção científica onde as artes marciais e a aceitação familiar andam de braço dado, onde um diálogo entre duas rochas se torna a mais poderosa das interações, onde o mundo é um lugar repleto de ruído e entropia, mas também de esperança, amor e compaixão (quem tem um Waymond tem tudo).

Uma bela homenagem ao cinema asiático, à cultura popular e cinematográfica, e também às austeras, mas dedicadas mães chinesas – “Tudo Em Todo o Lado ao Mesmo Tempo” é, até agora, e de longe, o filme mais premiado desta temporada de prémios e há muitos meses que se mantém nas bocas do mundo. Com prestações centrais valorosas por parte de Michelle Yeoh (“O Tigre e o Dragão”), Jamie Lee Curtis (“Halloween”), Stephanie Hsu (“The Marvelous Mrs. Maisel”) e Ke Huy Quan (“Goonies”), “Everything Everywhere All At Once” é uma narrativa sobre uma mulher cansada, que tenta desesperadamente lidar com as finanças à perna, mas é também uma epopeia fantástica e a história de uma heroína improvável.

Realizado com perícia e com uma equipa de efeitos especiais notavelmente reduzida, “Tudo Em Todo o Lado” consegue deslumbrar visualmente e levar o conceito do “multiverso” para picos muito mais elevados do que qualquer filme de super-heróis. Ambicioso na sua criatividade sem fim, mas também tosco de igual modo, não fosse este um filme dos Daniels (os mesmos que colocaram Paul Dano a montar o cadáver de Daniel Radcliffe em “Swiss Army Man”), o absurdo nunca foi tão delicioso e comovente como no irreverente e verdadeiramente original “Tudo Em Todo o Lado ao Mesmo Tempo”. Para Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón, este é um dos filmes definidores de uma geração. Para nós, é sem dúvida um dos melhores filmes do ano.

Maggie Silva

Lê Também:   Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, em análise


02. DRIVE MY CAR
Ryusuke Hamamguchi

drive my car critica leffest nomeações aos óscares 2022
“Drive My Car” | © LEFFEST

“Drive My Car”, do cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi, (“A Roda da Fortuna e da Fantasia”) é uma adaptação da obra do escritor japonês Haruki Murakami (do livro “Homens Sem Mulheres”). Porém é um filme que procura também fundir o cinema com o teatro, através do drama pessoal de Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um famoso ator e diretor teatral (encenador), que aceita encenar a peça “Tio Vanya” de Anton Chekov, num festival em Hiroshima. Lá, conhece Misaki (Tôko Miura), uma jovem bastante reservada, que foi designada para ser a sua motorista. Enquanto viajam, vai crescendo entre eles uma amizade ou melhor uma cumplicidade, que os ajuda a enfrentarem os seus passados. Na verdade, os quatro actos da extraordinária peça de Chekov, parecem fundir-se com o ritmo e a narrativa do próprio filme. As partes do filme são separadas por um ‘fade to black’, que marca a passagem do tempo (em atos), cortando a narrativa: o início e o fim, e as partes mais importantes como os ensaios da peça, já em Hiroshima. Esse alinhamento de duas narrativas, numa sedutora meta-lógica paralela, é fundamental na arquitetura dramática deste filme exemplar que roça a obra-prima. Hamaguchi construiu o seu argumento criando também vários monólogos, geralmente feitos dentro do belíssimo e vintage Saab Turbo 900 (de 1993), vermelho de Yusuke, uma espécie de fetiche e um adereço fundamental no filme. É nele que os personagens mais se envolvem, entre os tais monólogos e vários silêncios, propícios à reflexão ou às revelações de um passado torturado. “Drive My Car” é um filme maravilhoso, com muito da ritualizada cultura japonesa, num cenário de culpa, dúvida e sacrifício.

José Vieira Mendes

Lê Também:   74º Festival de Cannes (Dia 7): ‘Drive My Car’


01. OS FABELMANS
Steven Spielberg

os fabelmans critica
“Os Fabelmans” | © NOS Audiovisuais

“Os filmes são sonhos que nunca esquecemos.” E “Os Fabelmans” recordam-nos precisamente disso. Num mundo onde parece que a magia desapareceu, eis que Steven Spielberg nos recorda uma vez mais que ela existe. Um miúdo maravilhado com um comboio que descarrila à sua frente numa grande tela. Como se recriam emoções como essa? E como as tornarmos o mais real possível? É esse o segredo que Sammy Fabelman (ou Steven Spielberg) irá passar a sua vida a descobrir.

“Os Fabelmans” é o filme mais pessoal do cineasta até à data, dizer os Fabelmans ou os Spielbergs é igual. O filme esteve 45 anos “à espera para ser contado” e chega às salas com uma mensagem vulnerável. É uma história sobre sonhos e sobre o preço que por vezes temos de pagar, bem como sobre a evolução do próprio cinema que se mistura com a vida de Sammy. Gabriel LaBelle, que dá vida a Sammy/Steven, fá-lo com a dose exata de genuinidade, sonho e determinação. Ao lado de Michelle Williams e Paul Dano, que se entregam aos papéis de Mitzi e Burt e nos dão duas prestações exímias, o jovem LaBelle brilha apesar da sua pouca experiência.

Já tendo ganho o Globo de Ouro de Melhor Filme e Melhor Realização, “Os Fabelmans” afirma-se como um dos melhores filmes de 2022 e, por todas estas razões e outras tantas, ocupa o nosso pódio. Quer gostemos ou não de toda a filmografia de Spielberg, ou do seu lado mais mainstream, a verdade é que dificilmente encontramos alguém que não tenha na memória pelo menos um dos títulos deste realizador-celebridade. E, outra verdade, é que todos precisamos de sonhar… cada vez mais.

Inês Serra

Lê Também:   Os Fabelmans, em análise


Além do top 10 finalizado, podes também explorar a lista de cada membro da redação. Ficam aqui os TOP 10 individuais da equipa MHD

A Mulher Rei
“A Mulher Rei” | © Big Picture Films

ÂNGELA COSTA

  1. A MULHER REI, Gina Prince-Bythewood
  2. BLACK PANTHER: WAKANDA PARA SEMPRE, Ryan Coogler
  3. O HOMEM DO NORTE, Robert Eggers
  4. O PREDADOR: PRIMEIRA PRESA, Dan Trachtenberg
  5. NOPE, Jordan Peele
  6. ELVIS, Baz Luhrmann
  7. TOP GUN: MAVERICK, Joseph Kosinski
  8. THE BATMAN, Matt Reeves
  9. DOWNTON ABBEY: UMA NOVA ERA, Simon Curtis
  10. NOITE VIOLENTA, Tommy Wirkola

Lê Também:   A Mulher Rei, em análise


CLÁUDIO ALVES

O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu
“O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?” | © Legendmain Filmes
  1. DRIVE MY CAR, Ryusuke Hamaguchi
  2. ALCARRÀS, Carla Simón
  3. O PODER DO CÃO, Jane Campion
  4. FLEE – A FUGA, Jonas Poher Rasmussen
  5. OS FABELMANS, Steven Spielberg
  6. O QUE VEMOS QUANDO OLHAMOS PARA O CÉU?, Alexandre Koberidze
  7. PETITE MAMAN – MAMÃ PEQUENINA, Céline Sciamma
  8. DECISÃO DE PARTIR, Park Chan-wook
  9. NO TÁXI DE JACK, Susana Nobre
  10. MOONAGE DAYDREAM, Brett Morgen

Lê Também:   LEFFEST ’21 | Drive My Car, em análise


EMANUEL CANDEIAS

The Boy, the Mole, the Fox and the Horse
“The Boy, the Mole, the Fox and the Horse” | © NoneMore Productions
  1. PATRIARCADO, UMA HISTÓRIA POR ACABAR, Pedro Serra
  2. THE BOY, THE MOLE, THE FOX AND THE HORSE, Peter Baynton & Charlie Mackesy
  3. O SOPRO DO DIABO, Orlando von Einsiedel
  4. THE BATMAN, Matt Reeves
  5. A MULHER REI, Gina Prince-Bythewood
  6. TOP GUN: MAVERICK, Joseph Kosinski
  7. TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO, Dan Kwan & Daniel Scheinert
  8. RRR, S.S. Rajamouli
  9. O HOMEM DO NORTE, Robert Eggers
  10. A OESTE NADA DE NOVO, Edward Berger

Lê Também:   The Boy, the Mole, the Fox and the Horse, em análise


INÊS SERRA

Belfast Óscares 2022
“Belfast” | © Universal Studios. All Rights Reserved.
  1. OS FABELMANS, Steven Spielberg
  2. BELFAST, Kenneth Branagh
  3. NIGHTMARE ALLEY – BECO DAS ALMAS PERDIDAS, Guillermo del Toro
  4. O PODER DO CÃO, Jane Campion
  5. DRIVE MY CAR, Ryusuke Hamaguchi
  6. PINÓQUIO DE GUILLERMO DEL TORO, Guillermo del Toro & Mark Gustafson
  7. TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO, Dan Kwan & Daniel Scheinert
  8. THE BATMAN, Matt Reeves
  9. ELVIS, Baz Luhrmann
  10. A PIOR PESSOA DO MUNDO, Joachim Trier

Lê Também:   Belfast, em análise


JOÃO FERNANDES

Black Panther Wakanda Forever
“Black Panther: Wakanda Para Sempre” | © NOS Audiovisuais
  1. NIGHTMARE ALLEY – BECO DAS ALMAS PERDIDAS, Guillermo del Toro
  2. BLACK PANTHER: WAKANDA PARA SEMPRE, Ryan Coogler
  3. A MULHER REI, Gina Prince-Bythewood
  4. GLASS ONION: UM MISTÉRIO KNIVES OUT, Rian Johnson
  5. THE BATMAN, Matt Reeves
  6. TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO, Dan Kwan & Daniel Scheinert
  7. TOP GUN: MAVERICK, Joseph Kosinski
  8. O PREDADOR: PRIMEIRA PRESA, Dan Trachtenberg
  9. ELA DISSE, Maria Schrader
  10. GRITOS, Matt Bettinelli-Olpin & Tyler Gillett

Lê Também:   Black Panther: Wakanda para Sempre, em análise


JOÃO GARÇÃO BORGES

Bardo
“Bardo” | © Limbo Films, S. De R.L. de C.V. Courtesy of Netflix

PORTUGAL
MELHORES FILMES ESTREADOS EM 2022

01 – BARDO, FALSA CRÓNICA DE UMAS QUANTAS VERDADES
Alejandro González Iñárritu (México)

02 – UM HERÓI
       Asghar Farhadi (Irão)

03 – A CIVIL
         Teodora Mihai (Bélgica, Roménia, México)

04 – OS IRMÃOS DE LEILA
         Saeed Roustayi (Irão)

05 – DONBASS
          Sergei Loznitsa (Alemanha, Ucrânia, França, Holanda, Roménia)

06 – TRIÂNGULO DA TRISTEZA
         Ruben Ostlund (Suécia, Alemanha, França, Reino Unido)

07 – OS FABELMANS
        Steven Spielberg (EUA)

08 – RESTOS DO VENTO
         Tiago Guedes (Portugal)

09 – REGRESSO AO PÓ
         Li Ruijun (China)

10 – A OESTE NADA DE NOVO
        Edward Berger (Alemanha, EUA)

Lê Também:   Bardo, em análise


JOSÉ VIEIRA MENDES

a filha perdida tvcine
“A Filha Perdida” | © NOS Audiovisuais
  1. A FILHA PERDIDA, Maggie Gyllenhaal
  2. DRIVE MY CAR, Ryusuke Hamamguchi
  3. ATLÂNTIDA, Yuri Ancarani
  4. TOP GUN: MAVERICK, Joseph Kosinski
  5. ALCARRÀS, Carla Simón
  6. BLONDE, Andrew Dominik
  7. MOONAGE DAYDREAM, Brett Morgen
  8. BARDO, FALSA CRÓNICA DE UMAS QUANTAS VERDADES, Alejandro González Iñárritu
  9. TRIÂNGULO DE TRISTEZA, Ruben Östlund
  10. ALMA VIVA, Cristèle Alves Meira

Lê Também:   ‘Blonde’, em análise


MAGGIE SILVA

O Acontecimento
“O Acontecimento” | © NOS Audiovisuais
  1. TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO, Dan Kwan & Daniel Scheinert
  2. FLEE – A FUGA, Jonas Poher Rasmussen
  3. O ACONTECIMENTO, Audrey Diwan
  4. MEN, Alex Garland
  5. UM HERÓI, Asghar Farhadi
  6. OS FABELMANS, Steven Spielberg
  7. X, Ti West
  8. A VIDA DEPOIS DE YANG, Kogonada
  9. TRIÂNGULO DE TRISTEZA, Ruben Östlund
  10. ELA DISSE, Maria Schrader

Lê Também:   O Acontecimento, em análise


VIRGÍLIO JESUS

Austin Butler Elvis
“Elvis” | © 2022 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved
  1. ALCARRÀS, Carla Simón
  2. OS FABELMANS, Steven Spielberg
  3. O PODER DO CÃO, Jane Campion
  4. DRIVE MY CAR, Ryusuke Hamaguchi
  5. PINÓQUIO DE GUILLERMO DEL TORO, Guillermo del Toro & Mark Gustafson
  6. ELVIS, Baz Luhrmann
  7. COMPETIÇÃO OFICIAL, Mariano Cohn & Gastón Duprat
  8. DECISÃO DE PARTIR, Park Chan-wook
  9. LUZZU, Alex Camilleri
  10. A PIOR PESSOA DO MUNDO, Joachim Trier

Lê Também:   Elvis, em análise

O que achas do nosso Top MHD? Partilha os teus filmes favoritos de 2022 nos comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *