Os melhores filmes de 2025 são…
Daqui a pouco mais de duas semanas, a Academia de Hollywood coroará um filme como o melhor do ano que passou. Mas, aqui pela MHD, acima do Óscar está a nossa redação. Desde “A Vida de Chuck” à “Batalha Atrás de Batalha,” passando pelos agentes secretos de Kleber Mendonça Filho e a nostalgia de Richard Linklater, são estes os dez filmes que reconhecemos como a máxima glória do cinema em 2025.
Ainda se recordam de como 2025 começou? Já passam dois meses desde a passagem de ano, mas a memória ainda se sente forte, especialmente para o público cinéfilo que viu a alvorada do ano passado marcada por uma Hollywood em chamas. Depois, todos sentimos a perda de David Lynch, celebrámos a primeira vez que o vencedor da Palma de Ouro também ganhou o Óscar desde 1955 e ainda testemunhámos Jafar Panahi fazer História. No píncaro de um verão cálido, a cinefilia lusitana chorou a morte de Eduardo Serra, que, somente umas semanas antes, havia sido homenageado na Cinemateca Portuguesa. Foi ele um mestre da luz e cor, génio diretor de fotografia cuja filmografia merece ser estimada como o tesouro precioso que é.
Quando a estação mais quente começou a dizer adeus, Jim Jarmusch ergueu-se como campeão de um Festival de Veneza muito controverso. Em Toronto, foi “Hamnet” que cativou mais os espectadores, dando início a mais uma temporada de prémios cuja conclusão ainda esperamos com ansiedade. Verdade seja dita, por mais que seja a paixão pelo drama de época que Chloé Zhao assinou, a maior honra de todas parece resumir-se a uma guerra interna da Warner Bros. Por um lado, temos os “Pecadores” de Ryan Coogler e, por outro, a “Batalha Atrás de Batalha” de Paul Thomas Anderson. Oxalá esses triunfos tivessem acalmado a ganância de executivos e chefões, pois esse egrégio estúdio acabou o ano no precipício da venda à Netflix.

Contudo, os gostos da Academia de Hollywood não são necessariamente partilhados pela equipa da Magazine HD. Por isso mesmo, todos os anos, propomos o nosso próprio top dez, definido pelos votos da redação e com base no calendário de estreias portuguesas. Por isso mesmo, há alguns resquícios de 2024 na lista de 2025, estreias mundiais de um ano que só cá chegaram depois de se consagrarem lá fora. Entre eles, destacam-se alguns dos grandes títulos que vingaram na 97ª edição dos Óscares, como “O Brutalista” e “Ainda Estou Aqui.” Acerca desse último, convém mencionar que o cinema brasileiro se encontra em alta e os últimos seis meses foram prova irrefutável disso, logo a começar com a vitória de Fernanda Torres nos Globos de Ouro.
Depois veio o amor da Academia, e um Urso de Prata para “O Último Azul,” Moura e Mendonça em Cannes, a mensagem importante das “Manas” de Mariana Brennard Fortes e tantos outros que tais. O grande cinema na língua portuguesa não veio só das Américas, pois claro. Apesar de nenhuma produção nacional figurar na nossa lista, há que aplaudir o trabalho dos cineastas portugueses. Pensemos no “Riso e a Faca,” pelo qual Cleo Diára ganhou um prémio na Croisette e João Guilherme levou o galardão da International Cinephile Society. Pensemos em Santiago Mateus e sua estreia em “Ontem À Noite Conquistei Tebas,” na beleza inesquecível do “Sob a Chama da Candeia” e “Nome,” a melancolia lisboeta da “Vida Luminosa” e a lembrança de uma democracia mais saudável no “Palácio de Cidadãos.”
Enfim, já chega de fala-barato e menções honrosas, regras e restantes insignificâncias. Aqui ficam as nossas escolhas coletivas para os melhores filmes do ano, com alguns empates à mistura e as listas individuais de cada escritor no fim do artigo. Começamos com a biografia de um ícone musical…
10-08. A Complete Unknown, James Mangold

Cada um de nós é um mistério. Assim é a natureza da condição humana, mas estas verdades essenciais não são necessariamente feitas à medida de uma forma narrativa. Por isso mesmo, quando se tenta tornar a vida de alguém numa história a ser partilhada, existe a tentação de torcer o facto em ficção e explicar aquilo que nunca poderá ser completamente explicado. No contexto dos filmes biográficos produzidos pela fábrica de sonhos de Hollywood, isto é ainda mais inescapável. Talvez por isso, “A Complete Unknown” nos surja como uma obra tão interessante. À primeira vista, trata-se do biopic do costume, com todas as vulgaridades e limitações que o termo implica.
Mas, numa análise mais profunda, deparamo-nos com um trabalho que ousa propor o modelo biográfico sem desmistificar a personalidade central. Bob Dylan começa o filme como um enigma e termina-o do mesmo jeito. Para alguns, a abordagem será frustrante, enquanto outros acharão valor na tentativa de fazer algo diferente e honrar um artista incomparável sem, no entanto, alienar a audiência mainstream do mesmo modo que “I’m Not There” de Todd Haynes fez em 2007. Muito ajuda que Mangold se tenha focado num período tão particular na vida do ídolo, dramatizando o sucesso do jovem Dylan no circuito do folk rock e o cisma que ocorreu quando este decidiu virar as costas ao género e apostar no som da guitarra elétrica.
Para vingar a estratégia, muito do filme apoia-se na prestação de Timothée Chalamet, uma façanha retratista que envolveu mímica vocal, cantoria ao vivo e lhe valeu o prémio do Sindicato dos Atores. Superfícies colidem no seu Dylan, reflexos sem materialidade por trás, e o espectador fica na dúvida se consegue agarrar alguma parte desta caracterização que foge a sete pés de ser uma personagem concreta. É como tentar conter fumo entre os dedos, o fantasma de uma chama dançando sobre a pele, voando até fora do nosso alcance e dissipando-se no éter, no nada, no mistério do vazio entre o espectador e o grande ecrã. E se o trabalho de ator não convencer, sempre há aquela estrondosa banda-sonora.
E haverá também todo aquele mundo em torno deste Dylan. Porque o melhor de “A Complete Unknown” será mesmo o sentido de comunidade que consegue invocar, tanto através do elenco secundário como da recriação precisa do passado histórico, seu som, sua textura, sua beleza. Desde figurinos a cenários à qualidade da sonoplastia, o público é transportado para a primeira metade dos anos 60 sem jamais questionar a veracidade do engenho. Acreditamos no que vemos e no que sentimos. Naquela melancolia que Edward Norton transpira no papel de Pete Seeger, nos desejos complicados de Monica Barbaro como Joan Baez, na figura de um Woody Guthrie a definhar e no magnetismo de Johnny Cash em ascensão.
10-08. A Vida de Chuck, Mike Flanagan

De pés fincados no precipício do fim, a vida rebobina, um carrossel de memórias e momentos, de amores e arrependimentos. Pelo menos, é isso que muito artista nos tem dito, quiçá numa tentativa de racionalizar a Morte para si mesmos ou porventura aconchegar quem sua arte testemunha e precisa do conforto. Stephen King não difere, mesmo que o faça por linhas tortas. Na “Vida de Chuck,” um conto em três atos por ordem inversa, aquilo que aparenta ser uma fantasia apocalíptica revela-se algo muito mais universal, tão profundo quanto corriqueiro. Até a magia de um sótão que nos mostra o futuro surge de um sentimento que todos reconhecemos, truque literário para revelar a verdade de cada um através do impossível.
Considerando a fama de King como mestre do terror, este tipo de história poderá parecer um tanto ou quanto rebuscada, algo descontextualizado na sua bibliografia. No entanto, o seu cunho pessoal está bem patente, tanto pelos rasgos do fantástico como pelo sentimentalismo sem vergonha nem remorso. Ou seja, fãs do escritor deviam tentar ler esse e outros contos incluídos no compêndio “If It Bleeds.” E depois, venham ver o filme que Mike Flanagan fez a partir dele, sublinhando a reputação como um dos grandes peritos na adaptação de King ao pequeno e grande ecrã. “A Vida de Chuck” aparece no seguimento de projetos como “Gerald’s Game” e “Doctor Sleep.” Na opinião de muitos, supera-os.
De facto, após a sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto, o filme ganhou o Prémio do Público, honra importante para aqueles que seguem o circuito festivaleiro e a temporada dos prémios. Normalmente, existe grande correlação entre esse galardão e os Óscares, algo que não se repetiu com “A Vida de Chuck.” Mas isso não desmerece o filme, talvez até o ponha num patamar mais elevado, uma posição mais interessante do que tanta outra fita. Este é um daqueles clássicos ‘crowdpleasers’, aqueles fenómenos cinematográficos que nos acalentam a alma e fazem esquecer a dor de cada dia, que nos fazem chorar e, através desse choro, proporcionam a catarse.
Nada disso invalida quem não tem paciência para a sinceridade, meio lamechas, de tais propostas dramáticas. Dito isso, alguns elementos da fita deverão agradar até aos mais cínicos. Penso num elenco cheio de caras conhecidas dos restantes projetos de Mike Flanagan, bem como de algumas novas adições. Mia Sara, como a avó de Chuck no terceiro ato, entrega aqui a melhor prestação de uma carreira que tem passado décadas na sombra das fantasias que a atriz fez nos anos 80. A banda-sonora deleita, como não podia deixar de ser num filme onde a dança se manifesta como forma inestimável de expressão pessoal. E, pois claro, a coreografia é ainda melhor. De facto, o segundo capítulo da obra, com Tom Hiddleston no centro da ação, é, por si só, uma curta-metragem bem notável.
10-08. No Other Land, Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal e Rachel Szor

Não haverá filme mais importante nesta lista do que “No Other Land.” O genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestiniano muito precede a retaliação de 7 de outubro de 2023, mas a sua intensificação nos últimos anos tornou-se o tipo de crime contra a humanidade que define uma época histórica. Quando, no futuro, olharem para trás, para estes anos que vivemos, será esse o assunto a falar e discutir, aquele que fará que as gerações vindouras se perguntem como é que o mundo deixou isto acontecer. Em certa medida, “No Other Land” é tão mais poderoso porque foi feito antes do 7 de outubro e longe de Gaza, focando-se na agressão expansionista dos colonatos israelitas na Cisjordânia.
A estrutura da obra está algures entre o diário e a reportagem, em reflexo da sua origem na amizade entre um jornalista israelita e um ativista palestiniano. A família de Basel Adra está em foco, seu fado aparece-nos como sinédoque de uma crise maior. Sua história é a História da Palestina ocupada, ciclos sem fim de degradação e exílio, violência, repressão e outra vez o mesmo, repetições sôfregas que, a certa altura, parecem quase tornar o tempo numa abstração. Assistir à fita é entender que não há nada de extraordinário, nada fora do vulgar, da perspetiva da gente que tenta sobreviver ao flagelo da ocupação.
Nesse aspeto, a montagem é a maior arma de “No Other Land,” valorizando o trabalho tanto como obra de arte como enquanto ferramenta de sensibilização política. Também se devem aplaudir as imagens, capturadas em regime ad hoc, sem grande planeamento e sempre sujeitas às circunstâncias difíceis dos cineastas. Há algo de obsceno na beleza de uma menina perante as ruínas da sua casa, um borrão vermelho contra o céu azul e a pedra branca de escombros que em tempos foram um lar. Ou uma escola vazia, porta escancarada com tanques na distância, aproximando-se. Ou a imagem de Basel na paisagem invadida por um agressor, o chiaroscuro de uma caverna onde uma família se refugia sem outro sítio para onde ir. A qualidade estética é o amolador que afia a lâmina com que o filme nos eviscera.
Tudo isto tem valido honras infindáveis a “No Other Land,” mas a polémica chega de mãos dadas com os palmarés. Logo se viu na Berlinale, quando os realizadores foram acusados de discurso antissemita quando verbalizaram a sua posição pró-Palestina. Veja-se como, nos EUA, a obra teve que chegar aos cinemas pela mão dos produtores, sendo que nenhuma distribuidora se atreveu a tocar no assunto. Foi por esses meios menores, sem a campanha milionária dos seus adversários, que “No Other Land” ganhou o Óscar para Melhor Documentário. Contudo, a glorificação artística não protegeu nem as pessoas no filme retratadas nem seus autores, vários dos quais foram consequentemente vitimizados pelo IDF.
07. Ainda Estou Aqui, Walter Salles

Entre os escândalos da Berlinale e os comentários da temporada dos prémios, tem-se falado muito sobre o elo entre a arte e a política. Há quem defenda a separação das duas, agarrando-se à ideia de escapismos, delírios divorciados da realidade em que uma obra é criada. Por outro lado, outros defendem o contrário, crendo que qualquer produção artística será sempre política e que nada é mais político do que a pretensão de se ser apolítico. Afinal, não é isso apenas uma confirmação do status quo. Não é que toda a arte tenha que ser uma ferramenta discursiva, um qualquer objeto panfletário. Mas sim que qualquer artista trabalhará sempre num contexto específico, definido por forças políticas que inevitavelmente se refletem no objeto artístico.
Wenders, Anderson e outros tais podem manifestar-se contra essas ideias e bradar aos céus que não querem falar de política. Outros cineastas, quiçá mais corajosos, fazem o oposto e, entre eles, estão alguns daqueles grandes brasileiros que, nos últimos anos, têm vindo a afirmar o seu cinema nacional no palco mundial. Um deles foi Walter Salles, cuja adaptação de “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, muito deu que falar, desde que passou em Veneza e arrecadou o Prémio de Argumento até à sua consagração no maior palco de Hollywood. Sim, depois de 97 anos, finalmente um filme brasileiro foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme. Finalmente, uma fita brasileira, em representação dessa mesma nação, ganhou o prémio de Melhor Filme Internacional.
E, em cada discurso, em cada passo dado no circuito dos festivais e na campanha pelas premiações, os artistas sempre usavam sua criação para alertar o mundo. Ou para lhe atiçar a memória, pois recordar o passado é, em si, um ato político, preservando a verdade ao longo dos anos e lutando contra o esquecimento que nos leva a repetir os mesmos erros. Nem mesmo quando faziam as festas de Los Angeles, esta equipa se silenciou, apontando o dedo à mão americana na ditadura brasileira, cujo texto retrata, através da família Paiva, seu patriarca desaparecido e a mulher que muito resistiu, em nome dos filhos, da memória do marido, do seu país e da justiça. Esta é a história de Eunice Paiva e é também a História do Brasil.
Dito isso, não se deve reduzir “Ainda Estou Aqui” a um mero auxílio educativo. Cinema não é pedagogia e os méritos deste filme muito transcendem a sua utilidade na sala de aula ou em diálogos públicos. Na sua estrutura, saltos temporais e cronologias esbatidas traçam um ciclo Sisífia de silêncios e desaparecimentos insuportáveis, como se uma vida se pudesse rasurar do mesmo modo que se apaga a marca de lápis no papel. A imersão no ambiente de época é belíssima, as estratégias sentimentais também, elenco secundário extraordinário e tantas outras maravilhas. Mas o maior milagre é mesmo Fernanda Torres no papel principal. Nem há palavras para descrever a sua grandeza.
06. Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi

Há poucos artistas como Jafar Panahi, poucos convictos o suficiente para arriscar tudo e sofrer as consequências da atividade dissidente num regime autoritário. Mas assim ele é desde o início. Desde as primeiras desventuras cinematográficas em assistência a Kiarostami até às sucessivas penas de prisão que o proibiram de fazer cinema. Proibiram, sim. Impediram, não. Pois não há nada que pare este artista audaz, nem a censura, nem a polícia, nem mesmo os sistemas construídos para beneficiar o cinema oriundo do dito mundo ocidental e para esquecer todos os demais. “Foi Só Um Acidente” é prova disso mesmo. É também uma rutura e um regresso. É um marco.
Já passavam quinze anos desde que o realizador se havia predisposto a um trabalho tão aparentemente convencional, dentro dos limites da tradição narrativa e uma expressão fora da hibridização entre o artifício e o documental. A prisão domiciliária tinha metamorfoseado o trabalho de Panahi, limitando-lhe os recursos, ao mesmo tempo em que expandia os horizontes. No transtorno, a criatividade floresceu e novas soluções se foram revelando. Da possibilidade perdida de um realismo social, o metatexto e o experimental impuseram-se e proclamaram suas glórias particulares. Só que ficava sempre aquela dúvida – fora estas restrições, num contexto menos restrito, que forma tomaria a obra deste autor?
“Foi Só Um Acidente” tem um toque classista, construído à base de planos-sequência que raramente se declaram ao espectador e uma plasticidade tonal reminiscente de um cinema que se sentia perdido nos livros de História. Panahi desenvolve uma estética sofisticada, marcada por elegância contida, quase retraída, como que servindo de contraposto a um conto marcado pela violência. Acompanhar esta trama é como escutar a impossibilidade de um grito sussurrado. Porque Panahi e suas personagens estão certamente aos gritos, a rebentar de fúria de um jeito que era impossível expressar de forma tão direta no resto da sua filmografia recente.
Esta é uma história de vingança, traçada por questões morais e mistérios do espírito, o preço da violência e os ciclos infinitos a que a opressão condena o mundo. Por isso mesmo, Panahi arrecadou a Palma de Ouro, votada pelo Júri de Cannes, presidido por Juliette Binoche. A honra colocou o cineasta num clube exclusivo, com somente três outros artistas que também conquistaram a Croisette, Berlim e Veneza. No meio deste furor, o realizador que tinha escapado ao Irão para filmar na Jordânia foi novamente condenado pelos tribunais. Quando a temporada dos prémios terminar, ele voltará ao seu país e para trás das grades. Elogiar-lhe a coragem é pouco. Testemunhar o seu cinema é essencial.
05. Nouvelle Vague, Richard Linklater

Diz-se que não há forma mais sincera de lisonja que a imitação. Será verdade? Em certa medida, Richard Linklater propõe essa questão a si mesmo e aos espectadores que veem “O Acossado” de Jean-Luc Godard renascido e rebobinado, desconstruído porventura, e muito amado. Isto não é nenhum remake – esse veio em 1983, pela mão de Jim McBride –, mas sim uma tentativa de contar a história por trás de um filme inestimável e impossivelmente influente. Será também a reminiscência de um movimento, essa Nova Vaga que dá nome à “Nouvelle Vague” e que serviu de exemplo às muitas vanguardas europeias que do pós-guerra germinaram.
Mas, sendo este um filme de Richard Linklater, escusado será dizer que não estamos perante um qualquer docudrama bafiento em fantasia imitativa. O estilo é bem copiado, com todos os elementos cénicos a contribuírem para a ideia de uma Paris perdida, subitamente renascida no grande ecrã. Tudo é replicado com rigor arqueológico, até mesmo a textura do som e a qualidade da imagem. David Chambille fez um trabalho notável na fotografia, conseguindo fazer a mimese do lendário Raoul Cotard sem perder a casualidade folgada com que Linklater ataca o material. A luz e o grão apontam para o ontem, enquanto a mise-en-scène tem os pés assentes no hoje, talvez até no amanhã.
Por outras palavras, se olharmos além da estética retro, da importância histórica de todas as figuras que o filme faz questão de identificar sempre com os nomes sobrepostos na cena, descobrimos que “Nouvelle Vague” é aquilo a que se chama ‘hang-out movie.’ Somos convidados a conviver com as personagens, a entretermos-nos com suas fricções interpessoais e a rir do absurdo em que essa gente criativa tantas vezes cai. Talvez por isso, as melhores cenas não são as re-encenações do “Acossado,” mas os momentos intersticiais, uma conversa de café ali, um desabafo noturno acolá.
Estreado em competição no Festival de Cannes, “Nouvelle Vague” foi o segundo filme que Linklater apresentou ao público em 2025. O primeiro foi “Blue Moon,” outro retrato do artista num tom muito diferente, mais abertamente melancólico e envinagrado, de alma amargurada e fermentada em ódio próprio. Essas complicações estão ausentes nesta coprodução francesa, dando-se prioridade ao êxtase do público cinéfilo em comunhão nostálgica e na partilha de paixões. Não há nada como estar numa sala de cinema com tal audiência, rir em sincronia e encontrar deleites comuns enquanto “Nouvelle Vague” brilha, em monocroma reluzente, na tela. É filme para quem ama filmes, para quem precisa de cinema como do ar que respira.
04. Tardes de Solidão, Albert Serra

No breu de uma noite escura, o ar sente-se húmido, pesado. Através da câmara, a escuridão brilha e o ecrã vibra com os tons de diamantes pretos e ametistas estilhaçadas. O vazio tem uma beleza inquietante, só que a sua violação inquieta ainda mais. Do profundo nada, surge um touro que nos observa com esses olhos indecifráveis que as bestas têm. Reconhecer humanidade neles é ofício dos loucos, uma projeção desesperada para o Homem que se quer ver refletido em tudo o que a sua vista alcança. Assim começa “Tardes de Solidão” de Albert Serra, um poema audiovisual sobre o mundo da tauromaquia e o melhor documentário a estrear em salas portuguesas em 2025.
Afirmar que a obra trata de tauromaquia talvez não seja a descrição mais correta. Em colaboração com o diretor de fotografia e editor Artur Tort, Serra encara a tourada como fenómeno estético ao invés do que de um desporto, estudando as suas particularidades como alguém que se debruça sobre uma pintura. Até mesmo o sujeito humano do engenho, Andrés Roca Rey, parece secundário em relação ao poder primordial da imagem. “Tardes de Solidão” pode ser pintura e poema, mas isso não significa que seja retrato. E muito menos é daqueles exercícios retratistas em que o elogio suplanta a verdade. De facto, há ironia no olhar da câmara sobre o toureiro.
Se a beleza do touro naquela abertura noturna parecia dignificar a criatura e, ao mesmo tempo, preservar o seu mistério, há um gesto inverso em relação ao cavaleiro que o chacina na arena. Em Roca Rey, Serra desvenda uma estranha intersecção de masculinidades violentas e forças culturais onde a capacidade para derramar sangue equivale ao valor de um homem e onde a morte não é mais do que uma dança. Faz-se a valsa triste de Sibelius e das imagens parece emergir compaixão para com o animal e a desumanização do toureiro, cujo mito é tão exultado quanto quebrado por Serra e companhia. Neste turbilhão de ideias e valores pictóricos, sem recorrer a moralismos prescritivos, “Tardes de Solidão” consegue propor um teste de Rorschach para o espectador.
Quem assim desejar, poderá entender uma crítica patente na montagem de Serra e Tort, suas escolhas rítmicas e o peso que cada violência assume na sinfonia da fita. Até a paleta cromática, com seus vermelhos berrantes, o sugere. Quem procurar o contrário, encontrá-lo-á também, pois é difícil assistir a “Tardes de Solidão” sem ser arrebatado pelo seu bárbaro espetáculo. Nestas e outras medidas, aqui se consagra um trabalho de puro cinema, imagens, sons, movimento e tempo elevados acima de quaisquer outras considerações, o filme reduzido e aprofundado à visceralidade plástica da forma. Da depuração devém a polissemia, do esplendor nasce o desconforto.
03. O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho

O filme mais premiado do Festival de Cannes de 2025 é também o culminar de todo um percurso artístico para o seu criador. Kleber Mendonça Filho explora as possibilidades do cinema desde as suas primeiras curtas de infância e experimentações juvenis, desde a escrita crítica até às maiores salas do mundo, desde a ficção ao documentário, desde a comédia mais desbocada ao terror, ao drama e à provocação política que deixa os poderosos em aflição. Deste jeito, foi criada uma das filmografias mais curiosas na recente História do cinema brasileiro e, de várias formas, toda ela parece existir dentro de “O Agente Secreto.”
Para quem estiver familiarizado com a obra do nordestino, tais qualidades serão óbvias. Tanto dos “Retratos Fantasmas” ecoam nesta ficção, figuras reais viradas personagens, enquanto os traços temáticos de narrativas como “Bacurau” e “Aquarius” se metamorfoseiam. Do “Som ao Redor” vem a tonalidade indescritível, uma violação dos limites que separam géneros e insistem em gestos artísticos de fácil classificação. “O Agente Secreto” é tudo isso e muito mais. É o cinema num só filme, uma sinfonia para a cidade do Recife pela qual um thriller se desenrola e episódios insólitos tombam para o pesadelo, para o sonho, para o passado e para um presente que só descobrirá como ir para a frente se, primeiro, olhar para trás.
Entre contos e recontos, vê-se a vida em resistência à corrupção e às alianças do fascismo com o capital. Vê-se a tragédia de um pai à procura de salvação, numa fuga utópica, com o filho atrás. Vê-se a comédia agridoce de uma comunidade de refugiados, esperançosos por um futuro melhor. Vê-se a hipocrisia dos sistemas de poder, a natureza insidiosa dos seus métodos e a injustiça feita pão nosso de cada dia. Vê-se uma cornucópia de personagens memoráveis, uma tapeçaria de humanidade com mil cores e mais algumas, técnicas de imagem que exigem o espanto e o aplauso, uma vertente emocional que nos faz rir, chorar e arder em fúria no espaço de umas duas horas e meia.
O melhor de tudo é a malandrice do engenho, aquela aparente displicência que seduz e, sem se anunciar, nos revela uma estrutura deveras genial. Quiçá, em homenagem à mãe historiadora, Kleber Mendonça Filho canta o fado das suas personagens, à semelhança de um diálogo entre tempos, deixando que as imperfeições e omissões do arquivo histórico sejam sentidas pelo espectador no seu âmago. Por estas façanhas e outras demais, “O Agente Secreto” está nomeado para quatro Óscares – Melhor Filme Internacional, Melhor Casting, Melhor Ator para o grandioso Wagner Moura e Melhor Filme. Na opinião deste crítico, merecia ganhá-los todos.
02. O Brutalista, Brady Corbet

“Já não se fazem filmes como dantes. Já não se fazem filmes assim.” Essas terão sido as palavras na boca de muitos críticos e espectadores quando pela primeira vez se depararam com “O Brutalista.” O épico histórico de Brady Corbet certamente faz lembrar semelhantes subversões do sonho americano, odisseias de imigrantes no Novo Mundo e tantos outros modelos narrativos perdidos para esses bons velhos tempos de uma Hollywood que se presume extinta. Diga-se de passagem, os criadores da fita promovem essas mesmas comparações, chegando até a ressuscitar o formato Panavision que já não era empregue numa produção americana desde os dias de Marlon Brando em chapéu de cowboy.
Evidentemente, “O Brutalista” não vale somente pelos seus ares de Coppola clássico, Kubrick, Leone e afins. Na mesma medida em que Corbet deixa claras as suas inspirações, também as sabe retorcer e moldar, concebendo uma visão moderna do passado histórico de um mundo em rescaldo dos horrores do Holocausto e da 2ª Guerra Mundial. Isso é claro desde que as primeiras notas da banda-sonora composta por Daniel Blumberg rebentam nos ouvidos da audiência, anunciando algo monumental, mas essencialmente disforme. É uma orquestra robusta e a síncope dissonante do jazz, um laivo de ansiedade sónica e a promessa de um sonho destinado a colapsar em pesadelo.
Isso é claro na imagem de uma Estátua da Liberdade invertida sob o olhar de uma câmara cambaleante, instável, no porão de um navio apetrechado de almas errantes e desesperadas, marcadas pela dor e assombradas por horrores inimagináveis. Dessas sombras surge a possibilidade de luz e a certeza de mais escuridão. Surge a história de um arquiteto húngaro cuja relação com sua arte é o maior mistério da fita. Um epílogo meio chocante parece guiar-nos na direção de explicações claras e finais fechados. Mas essa clarividência cheira a mentira, tresanda à ambiguidade predileta de um artista que quer deixar o público com mais perguntas do que respostas, suspenso na reticência…
Pela sua prestação, Adrien Brody ganhou o Óscar para Melhor Ator, enquanto Blumberg ficou com o galardão para Melhor Banda-Sonora. Aquela fotografia em Panavision, levada a cabo por Lol Crawley, também foi reconhecida pela Academia de Hollywood. E muitos outros elementos foram nomeados, nenhum mais merecidamente que a cenografia assinada por Judy Becker. “O Brutalista” não é necessariamente uma meditação sobre arquitetura brutalista, mas isso não significa que os espaços desenhados pelas personagens e a materialidade do mundo que elas habitam não sejam tão ou mais importantes que a ostentosa música, o texto, talvez até os atores. Nas linhas severas de um templo cristão construído por um judeu reside a tragédia do século XX americano.
01. Batalha Atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson

O inevitável campeão de 2025 será a nova obra-prima de Paul Thomas Anderson, favorito nas previsões dos Óscares e favorito no coração dos escritores da Magazine HD. Há anos que o projeto se encontrava em desenvolvimento, antes de finalmente ganhar asas e voar, tendo permanecido no limbo por décadas. E não podia ser de outra forma, visto tratar-se de uma adaptação de “Vineland,” livro escrito por um dos autores mais difíceis de adaptar no cânone contemporâneo – Thomas Pynchon. O projeto final ser semicoerente já é uma valente proeza. Ser um grande filme ora é milagre, magia negra, ou prova absoluta de que PTA é um talento geracional, daqueles que definem uma era.
Parte do sucesso deve-se à dimensão pessoal com que o cineasta encara uma narrativa cuja forma original andava meio perdida entre a ressaca psicadélica e a autópsia às políticas de ódio vingadas numa América desiludida com as revoluções dos anos 60 e inebriada pelas retóricas de Reagan. Em primeiro lugar, puxou-se a cronologia para o novo milénio sem, no entanto, tornar a fita num tratado académico contra o regime de Trump. Depois vêm uma reconfiguração das dinâmicas raciais, muitos cortes, muitos afinamentos, e um foco narrativo saído diretamente da vida do seu realizador.
Revoluções à parte, “Batalha Atrás de Batalha” é a aventura de pai e filha a tentarem reencontrar-se num mundo enlouquecido. São as histórias das gerações que fracassaram ao olharem para os mais novos com otimismo. Porque, no fim, eles são o futuro. Porque, no fim, este é um filme de PTA para as suas filhas. Leonardo DiCaprio encabeça o elenco, desprendendo-se do carisma de estrela de cinema para assumir as possibilidades jocosas de um filme que, a qualquer momento, corta o riso com um soluço, a gargalhada com um choro. Ele é capaz de erguer as máscaras da comédia e tragédia no mesmo gesto, à semelhança de Sean Penn, com quem partilha o protagonismo. Chase Infiniti, por sua vez, marca aqui a sua estreia no panorama da longa-metragem e, do dia para a noite, uma nova estrela brilha no firmamento de Hollywood. Mas talvez as melhores prestações pertençam ao elenco secundário, à complexidade abrasiva de Teyana Taylor, à compaixão de Regina Hall, à serenidade trocista de Benicio del Toro.
Estreado em outubro, “Batalha Atrás de Batalha” foi rapidamente declarado o filme de 2025 pela crítica internacional. Cá pela Magazine HD, concordamos plenamente e estaremos a torcer por Anderson na corrida aos Óscares. Depois de 29 anos a ser nomeado sem nunca ganhar, já está na hora de lhe darem uma dessas malditas estatuetas. Vá lá, Academia de Hollywood, votem no homem que nos cortou a respiração com a ondulação de uma estrada deserta, a guerra plena entre civis e militares nos EUA, e a conversa telefónica mais frustrante de que há memória. Pode parecer presunçoso e um tanto ou quanto precoce afirmar isso, mas “Batalha Atrás de Batalha” merece o estatuto de clássico instantâneo.
E agora, só falta mesmo partilhar as listas individuais de cada membro da redação que participou neste voto. Por ordem alfabética…
Cláudio Alves

- “Tardes de Solidão” de Albert Serra
- “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho
- “Marés Vivas” de Jia Zhangke
- “Abril” de Dea Kulumbegashvili
- “Vermiglio” de Maura Delpero
- “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles
- “Verdades Difíceis” de Mike Leigh
- “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho
- “Queer” de Luca Guadagnino
- “No Other Land” de Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal e Rachel Szor
José Vieira Mendes

- “Batalha Atrás de Batalha” de Paul Thomas Anderson
- “O Brutalista” de Brady Corbet
- “Foi Só Um Acidente” de Jafar Panahi
- “Nouvelle Vague” de Richard Linklater
- “Tardes de Solidão” de Albert Serra
- “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles
- “A Semente do Figo Sagrado” de Mohammad Rasoulof
- “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho
- “Cão Preto” de Guan Hu
- “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho
Rui Ribeiro

- “A Complete Unknown” de James Mangold
- “Anniversary – Mudança Radical” de Jan Komasa
- “Batalha Atrás de Batalha” de Paul Thomas Anderson
- “O Brutalista” de Brady Corbet
- “Prestes a Explodir” de Kathryn Bigelow
- “Honey Don’t” de Ethan Coen
- “Companion” de Drew Hancock
- “Downton Abbey: Grand Finale” de Simon Curtis
- “Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final” de Christopher McQuarrie
- “Superman” de James Gunn
Maggie Silva

- “O Brutalista” de Brady Corbet
- “No Other Land” de Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal e Rachel Szor
- “Robot Dreams – Amigos Improváveis” de Pablo Berger
- “Memórias de Um Caracol” de Adam Elliot
- “Batalha Atrás de Batalha” de Paul Thomas Anderson
- “Foi Só Um Acidente” de Jafar Panahi
- “Kneecap – O Trio de Belfast” de Rich Peppiatt
- “Flow – À Deriva” de Gints Zilbalodis
- “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles
- “Alpha” de Julia Ducournau
Matilde Sousa

- “A Vida de Chuck” de Mike Flanagan
- “A Verdadeira Dor” de Jesse Eisenberg
- “Batalha Atrás de Batalha” de Paul Thomas Anderson
- “F1: O Filme” de Joseph Kosinski
- “The Smashing Machine: Coração Lutador” de Benny Safdie
- “O Match Perfeito” de Celine Song
- “Pecadores” de Ryan Coogler
- “Superman” de James Gunn
- “Warfare” de Alex Garland e Ray Mendoza
- “Eternity – Para Sempre” de David Freyne
Bruno Teixeira

- “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho
- “Jovens Mães” de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
- “A Vida Luminosa” de João Rosas
- “Nouvelle Vague” de Richard Linklater
- “The Shrouds – As Mortalhas” de David Cronenberg
- “A Mulher Que Morreu de Pé” de Rosa Coutinho Cabral
- “O Palácio de Cidadãos” de Rui Pires
- “O Processo do Cão” de Laetitia Dosch
- “Ernest Cole: Perdido e Achado” de Raoul Peck
- “Nome” de Sana Na N’Hada
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